Análise – Soul Hackers 2

Nesta altura, os jogos da Atlus e em especial da série Shin Megami Tensei já atingiram um estatuto de reconhecimento no ocidente que permite com que a companhia possa lançar os seus jogos sem os associar ao nome principal de toda a série.

Nos últimos anos, tivemos direito a Persona 5 (Persona 5 Royal/Persona 5 Strikers), Shin Megami Tensei V, mas as restantes franquias da série têm estado adormecidas. Curiosamente, em vez de regressar a Devil Survivor, a Atlus voltou mais de 10 anos atrás para uma sequela de Soul Hackers, um jogo lançado originalmente na Sega Saturn apenas no Japão e anos mais tarde num remake para a Nintendo 3DS.

Com isto, temos agora Soul Hackers 2 sem mais nomes agarrados e pronto para seguir o seu próprio caminho, mantendo apenas ligações óbvias à secção Devil Summoner. Por isso mesmo, a história não está ligada directamente à do primeiro e nem precisam de o jogar para perceber o universo, mas é interessante ver como adaptaram vários elementos para uma nova história com contornos futuristas e um estilo diferente do usual.

Soul Hackers 2 conta a história de como uma inteligência artificial consegue perceber que o fim do mundo se aproxima e como tal, precisa de manifestar enviados em forma de humanos para ajudar a evitar este desfecho, assim sendo Ringo e Figue são criadas e nas primeiras horas de jogo, Ringo consegue violar as leis da natureza trazendo à vida Arrow, Milady e Saizo acendendo ao seu espírito e fazendo um Soul Hack para os trazer de volta à vida, evitando assim o fim do mundo.

A história vai além deste pequeno resumo, pois todas as personagens estão de certa forma ligadas entre si e os grupos de vilões também estão bem próximos das personagens principais. Isto faz com que exista na realidade peso na história e nas decisões. Para isto ajuda que Soul Hackers 2 tenha um elenco de boas personagens principais, com especial destaque para Ringo, que é uma personagem inteligente, divertida, corajosa e interessante que serve de elo de ligação para todos os outros.

Apesar das interacções fortes, Soul Hackers 2 não é Persona, por isso os nossos aliados são as pessoas com quem podemos estabelecer laços e isso faz com que seja possível desbloquear novas conversas e habilidades, mas também conseguir ir cada vez mais fundo nas suas redes mentais (Soul Matrix) que servem como uma espécie de masmorras especiais dedicadas a cada um dos três aliados. Estas secções são masmorras típicas de RPG que fazem até lembrar os Mementos de Persona 5. O grande problema destes cenários está ligado ao facto de serem extremamente parecidos entre as três personagens, o que pode resultar em exaustão do jogador por estar a jogar nestes cenários iguais e longos cada vez que um novo piso é desbloqueado.

Pelo caminho e em cada um deles, Ringo solta os vários demónios da equipa que servem de uma espécie de batedores. Ao encontrar cada um deles pelo cenário podemos receber coisas como Items, objectos de missão, ser curados ou então conhecer demónios que querem entrar para a nossa equipa em troca de uma contrapartida. Estas negociações são bem mais simples e com menos aleatóriedade do que nos outros SMT, sendo só preciso dar o que pedem. O pior que pode acontecer é ter a equipa cheia ou outro demónio igual que faz com que este não se junte a nós mas acabe por dar uma ajuda à equipa em forma de items ou cura.

A melhor abordagem a Soul Hackers 2 é tentar misturar cenários de história com os cenários do Soul Matrix e assim ter um pouco mais de variedade. Além disso, existem várias áreas, lojas e serviços que o jogo oferece que merecem ser visitados recorrentemente para fazer melhorar as personagens. Coisas como melhorar as armas, fundir demónios, fazer missões alternativas, entre outras. A maior limitação acaba por ser o sistema de alimentação, pois podemos comer antes de sair da base e o efeito benéfico da comida acaba mal saímos de uma Dungeon, por isso pode-nos fazer querer mais tempo a explorar do que precisamos na verdade.

Em Soul Hackers 2 os combates fazem jus aos sistemas JRPG por turnos. Os inimigos aparecem nos cenários e podemos tentar atacar primeiro para ganhar a vantagem no início do combate. A partir daqui cada uma das equipas ataca à vez e não nos precisamos de preocupar com sistemas como Press Turn ou vantagens de elementos. Tudo é linear e decidido directamente no seu devido turno. Isto faz com que as fraquezas e resistências sejam menos importantes no geral, mas ainda têm as suas nuances, pois no caso da nossa equipa, quanto mais conseguirmos criar ataques que exploram as fraquezas, mais demónios metemos em espera e quando o turno de todos acaba, todos os demónios atacam em conjunto para fazer um “Sabbath”, que dá um dano considerável ao inimigo.

Mesmo que Soul Hackers 2 pareça bastante simples no início, na verdade está cheio de pequenos sistemas como este que podem ser personalizados para ganhar vantagem. As personagens podem equipar equipamentos diferentes, items de afinidade e até os próprios demónios dão as suas vantagens. Tudo isto misturado faz com que tudo o que venha depois do primeiro terço do jogo pareça cada vez mais jogar a nosso favor.

De qualquer forma, é impossível não sentir que em muitos casos, Soul Hackers 2 não seja de certa forma mais simplista no mau sentido do que os seus primos mais recentes. A cidade parece um pouco mais vazia e quase feita de paredes bonitas com meia dúzia de pontos de interesse. O mapa mundo é estranho e pouco simples de navegar e a necessidade de voltar à base para curar quando temos de passar por quatro menus, podia ser feito na entrada da masmorra com a presença de Figue ou algo do género. Falando nela, ela faz de nosso guia nas masmorras e as suas falas acabam por se repetir demasiadas vezes ao ponto de tornar irritante (parece coisas recorrente nos JRPG dos últimos tempos).

No que toca à apresentação, Soul Hackers 2 é sem dúvida um jogo com bastante estilo e muito bonito, os modelos das personagens em especial são muito bons e o jogo corre muito bem na versão PS5 que joguei. Novamente, só é pena que as Dungeons sejam tão similares ou pouco apelativas. A banda sonora vai de encontro a um misto de música boa e muito boa e as vozes tanto em japonês como em inglês também são muito positivas. Uma vez mais destaque para Ringo, já que a sua actriz fez um grande trabalho. Algo que podia estar melhor, é também a conversa durante os combates, que se repete demasiado e isso nota-se, embora não seja irritante como as dicas de navegação de Figue.

Soul Hackers 2 acaba aqui por ser um meio termo entre um Persona e um Shin Megami Tensei clássico, criando a sua própria identidade, isto faz com que esteja no bom caminho para se evidenciar, mas fica aquém das exigências levantadas pelos outros elementos da sua família. De qualquer forma, são cerca de 30 horas bem passadas e mais ainda se quiserem fazer um pouco de tudo, dando um bom mote para mais aquilo que poderá ser mais uma boa série dentro deste universo.

Positivo:

  • Visual
  • Boas personagens
  • Combate directo ao assunto
  • Personalização

Negativo:

  • Um bocado oco
  • Masmorras muito básicas
  • Navegação irritante de Figue

Daniel Silvestre
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