Análise: Monsters University – Monstros A Universidade

Passaram 12 anos desde a estreia de Monstros e Companhia, unanimemente considerado como um dos melhores filmes da Pixar, que ostenta o mérito de atingir dois públicos distintos (os mais novos e os mais velhos), proporcionando uma experiência cinematográfica especial, dotada de uma imagética simbólica enriquecedora e uma perspectiva “de pernas para o ar” dos Monstros que vivem debaixo da cama. Desde a estreia de Monstros e Companhia, os Monstros deixaram de ser assustadores e os pais perderam uma arma poderosa para induzir os filhes a comportarem-se bem, restando a chantagem dos presentes que o Pai Natal pode, ou não, entregar.

A Pixar revela, ao longo de 14 longas-metragens, uma extraordinária capacidade para desenvolver histórias emocionalmente intensas (Up e WALL.E) e o talento para explorar e expandir material previamente elaborado (Toy Story 3… vamos fazer de conta que Carros 2 não existiu).

Monsters University (tal como o próximo filme, Finding Dory) explora material com carimbo de qualidade e garantia de sucesso, com personagens carismáticos, dotados de profundidade emocional e consolidados numa relação empática com o público.

Monsters University é a prequela que remonta ao momento em que Sullivan e Mike Wazowski se conhecem. Afinal, a amizade começou na Universidade, o espaço académico onde se ensinam as ferramentas fundamentais dos Assustadores. Como a maioria das grandes amizades, Sully e Mike não criaram empatia imediata, mas o filme encarrega-se de aproximá-los e conceder todos os mecanismos para que se construa uma das maiores amizades do cinema de animação.

No princípio, Sully é o típico fanfarrão, com o talento indispensável para tornar-se um grande Assustador, mas com o desdém pela necessidade de estudar. Mike é o oposto, assume o estereótipo de aluno esforçado, que compensa a ausência de talento com o trabalho e o estudo. Para singrarem na Universidade, o duelo entre a “Sorte Grande e a Determinação” obriga os dois Monstros a conjugarem forças e a ultrapassarem as diferenças.

No capítulo da representação, a voz é uma das ferramentas mais importantes do actor. A forma como é colocada, a entoação, a expressão empregue na frase, são variáveis, quando combinadas, que ditam a dimensão do personagem e a intenção da cena. Na versão original, a Pixar selecionou Billy Crystal para dar a voz a Mike Wazowski, enquanto a voz de John Goodman  enriquecer Sullivan. A cumplicidade entre os dois actores resulta na plenitude, reforçando a sensação de amizade entre os dois personagens. Há a realçar que Billy Crystal transcende a singularidade de Mike Wazowski, criando a certeza de que seria inimaginável conceber a “bola verde com um olho gigante” com a voz de outro actor.

No elenco vocal original, referência ainda para o regresso de Steve Buscemi (na voz de Randy) e da adição da Helen Mirren, vencedora de um Óscar da Academia, que empresta a voz a Dean Hardscrabble. Na versão portuguesa, Fernando Luís e João Baião repetem a experiência vivida há 12 anos atrás. Uma tradução, mais uma vez, competente dos nossos estúdios.

A realização de Dan Scanlon merce destaque. A décima quarta longa-metragem da Pixar preenche os requisitos fundamentais para um projecto desta envergadura. A fluidez do filme é perfeita e o aspecto visual é bastante colorido. As cenas encaixam com naturalidade e cada plano está repleto de detalhes, animações, piadas subtis e referências que merecem segundos e terceiros visionamentos. A banda-sonora rima sempre com a acção, criando o ambiente desejado.

Monstros A Universidade é diferente de Monstros e Companhia, não se deve colocar a pergunta: qual dos dois é melhor? Monstros e Companhia impressionou pela genialidade do conceito, pela frescura da acção e o potencial gigante do mundo imaginado. Monstros A Universidade fecha-se na história de Mike e Sully, uma história muito bem escrita por sinal, mas que resume-se à evolução psicológica e social dos personagens. A história é um puzzle bem montado, com sucessivas mudanças de direção e a arte de acrescentar algo de diferente aos clichés matemáticos de um filme de animação. Mérito também para as sucessivas mensagens positivas, nomeadamente: o valor do trabalho em equipa, a honestidade, o empenho, determinação e confiança no nosso trabalho. A Pixar só não conseguiu transmitir a mensagem de que as drogas são más, porque os elementos do departamento criativo de MU só poderiam estar sobre o efeito de psicotrópicos quando imaginaram a aparência da maioria dos Monstros.

Monstros A Universidade é um filme que merece ser visto. Paradoxalmente, a história ficou mais “pequenina” (tendo em conta Monsters Inc.), mas a dimensão “humana” aumentou. Não foi uma barrigada de riso, porque é complicado fazer uma paródia com coisas sérias, mas o regresso à companhia dos Monstros é uma excelente aposta. Agora, será que fazem-me o excelso favor de produzir uma sequela para os Incríveis?

 

Positivo

  • A nova abordagem à personagem de Randy
  • Sucessivas surpresas
  • Clímax
  • Epilogo
  • Innuendos a Monstros e Companhia
  • Billy Cristal
  • A curta-metragem que antecede o filme: The Blue Umbrella

 

Negativo

  • Pesada herança do filme original
  • Personagens secundárias estereotipadas
  • Não é uma avalanche cómica
  • No princípio do filme Monstros e Companhia, Mike diz a Sully que este tem inveja da sua boa aparência desde a quarta classe
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