Análise – Marvel’s What If…?

Após uma aposta massiva na vertente live-action, o Marvel Cinematic Universe (MCU) decide por fim envergar no ramo da animação, batendo frente a frente com o seu rival direto, que tem liderado durante anos este segmento. Mas a série em questão, não é uma produção habitual, de pegar numa personagem secundária e dar-lhe um desenvolvimento extra, como WandaVision ou The Falcon And The Winter Soldier, não é de todo o caso.

Indo buscar a um tipo de publicações proveniente da Marvel Comics, onde são exploradas realidades alternativas, pegando-se em histórias e arcos conhecidos, para (re)imaginá-las. Ora a série Marvel’s What If…?, disponível em exclusivo no Disney Plus, é isso mesmo, embora não seja executada da forma como muitos esperavam, mas já lá irei. Já faz um meses que dediquei um artigo de primeiras impressões a esta série, lá reforcei que o resultado do primeiro episódio deixou-me bastante confiante no rumo criativo, que A.C. Bradley, o cabecilha desta produção, acatou.

E tal como aconteceu com Star Wars: Visions, cada episódio conta a sua própria narrativa, contudo, mais perto do final, apercebemo-nos que de facto se trata de uma grande narrativa interconectada e partilhada entre as várias personagens que deram a cara durante a série. Marvel’s What If…? é por isso uma mistura de universos, que se tudo vier a ser interligado com linha principal de filmes do MCU, terá fortes consequências em Dr. Strange In The Multiverse Of Madness (2022). De qualquer forma, o engraçado nesta série é ver a exploração feita em torno das múltiplas implicações que uma pequena ou grande mudança, pode provocar nos eventos que conhecemos nos filmes.

Efetivamente grande parte dos episódios rege-se por esta lógica. Desde ser Peggy Carter a escolhida na experiência do super soldado, transformando-se na figura de Captain Carter, enquanto que Steve Rogers vira o seu parceiro em combate, até Thor ter crescido sem a presença do seu irmão Loki, tornando-se por isso numa pessoa completamente diferente. Estes exercícios de ‘E se…‘ são uma fonte inesgotável de ideias absolutamente criativas. Isto nas comics. Mas nesta série, Bradley preferiu apostar no seguro, guiando-se em grande parte naquilo que acontece nos filmes, limitando-se apenas a trocar personagens e eventos do lugar correto.

Esta decisão é talvez o maior defeito de Marvel’s What If…? Esta dependência para com o universo cinematográfico limita e muito, o tipo de realidades e histórias a ser trabalhadas. Foi uma oportunidade perdida, onde se devia ter dado primazia à exploração de propostas mais fora da caixa, que se aproximassem às comics ou a qualquer outra versão, que não a do MCU, que já conhecemos tão bem. Claro, houve algum espaço para isto, mas soube a muito pouco. Situações desejáveis como estas, acontecem, a meu ver, nos melhores episódios, em What If…Zombies? (5º episódio) e nos últimos dois, que não vou entrar em muito a fundo.

Fora isto, e observando os restantes que agarram em algum dos filmes, há episódios que se destacam. Como o What If… The World Lost Its Mightiest Heroes? (3º episódio) ou o What If… Doctor Strange Lost His Heart Instead of His Hands? (4º episódio). Foram dos que causaram maior impacto, e com razão, pois entregam uma perspetiva diferente, e particularmente nova às personagens com o qual trabalham. Sendo possivelmente das melhores versões que tivemos delas, superando em alguns casos, até a própria versão canonizada do MCU. No geral, juntando todos estes episódios, tão distintos, temos uma série que é uma verdadeira montanha-russa, com altos muito acima, e baixos muito aquém.

A acompanhar as diferentes realidades temos o recém chegado The Watcher, cuja voz ficou a cargo do eminente Jeffrey Wright. A sua personagem irá servir de porta-voz,  e simultaneamente de testemunha, ao lado do espectador, daquilo que irá ser a premissa da cada episódio. Onde a todo custo tentará cumprir o ‘protocolo’, não interferindo nos acontecimentos da série. Ao aproximar do desfecho da produção, a sua participação não só ficará mais frequente, como em grande medida, crucial para unir as pontas soltas, e servir de cola com tudo aquilo que foi apresentado até então.

Em termos abrangentes, a decisão de colocar uma boa parte dos atores que dão vida às personagens nas grande telas, como vozes, foi um dos grandes acertos de Marvel’s What If…? Tornando este universo de universos mais coeso com tudo o que temos visto. E até servindo como homenagem ao falecido Chadwick Boseman, que teve aqui a sua contribuição enquanto membro da família Marvel. Os restantes atores de vozes, que deram pela primeira vez a sua contribuição, estão igualmente de parabéns, em especial, Ross Marquand na voz de Ultron.

Sem esquecer da animação, que ficou a cargo do grande Stephan Franck, que optou pela mistura do estilo cel-shading com a caracterização e contornos dos heróis dos filmes, tendo todos eles, praticamente as parecenças das suas contra partes do cinema. Não só isso, como a fluidez da animação também convence, consumando-se nas cenas de maior adrenalina, sendo um verdadeiro espetáculo visual. Foi dos elementos que me convenceu mais rapidamente, logo no primeiro episódio. Não causa grande estranheza, e até gostaria de ver a ser adotado em mais produções daqui para a frente.

A primeira animação, em série, do Marvel Cinematic Universe foi de longe das melhores surpresas do ano no Disney Plus. Todo o mar de possibilidades criativas, em termos de storytelling, com certeza que irá render inúmeras temporadas daqui para a frente. Acredito que Marvel’s What If…? terá espaço para explorar mais cenários, para além daqueles que tomam por base as produções cinematográficas. De qualquer maneira, é uma série de animação excecional, tornando-se obrigatória para todos os amantes da Marvel, principalmente, do MCU.

Positivo:

  • Elenco de vozes;
  • Dinamismo e traço da animação;
  • Estilo cel-shading encaixa na perfeição;
  • Últimos dois episódios são incríveis;
  • Batalha final;
  • MCU entra com o pé direito no mundo das animações;
  • Vários episódios surpreendem, sendo dignos de receberem um filme dedicado…

Negativo:

  • Mas há outros que jogam muito pelo seguro;
  • Depende em demasia nos filmes do MCU na conceção de realidades alternativas;

João Luzio
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