Análise – WandaVision

O Marvel Cinematic Universe (MCU) mostrou, ao longo dos anos, ser um conceito próspero e sustentável, sendo fortemente lucrativo, com um público fiel e com aclamação generalizada da crítica. Portanto, nesta onda de sucesso, tudo levava a crer que a mesma estratégia fosse mantida, no entanto, tal como tudo na vida, as fórmulas desgastam-se com o tempo e uso, e no caso da Marvel não foi exceção. Portanto, aproveitando o culminar de mais de dez anos consecutivos de sucesso nos cinemas, resultado da confiança do público, e da ascensão dos serviços de streaming, dando origem ao Disney Plus, a Marvel decidiu apostar na via das séries televisivas.

Ao contrário do que se pensava, as produções da Marvel criadas para o Disney Plus mantêm (ou pelo menos tentam) manter o mesmo padrão de qualidade que os filmes já nos habituaram, com um orçamento acima da média, um elenco recheado de atores conhecidos e histórias desenvolvidas e partilhadas entre si. E nada melhor do que começar esta nova fase, com duas personagens que tiveram pouco protagonismo nos filmes, mas com muito potencial para tal, Wanda Maximoff e Vision, ambos introduzidos em Avengers: Age Of Ultron (2015).

Apesar de ambas as personagens não terem um grande peso comparativamente com outros nomes do universo, a sua dinâmica e relação conseguem fazer jus ao desenvolvimento construído nos filmes. WandaVision situa-se algures após os eventos de Avengers: Endgame (2019). Neste sentido pretende dar a conhecer, sobretudo, como Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) está lidar com o desfecho provocado por este último filme, expandindo o leque de informações da personagem, encontradas nas comicsbooks que haviam sido deixadas de lado nos filmes.

O que mais chama à atenção logo de início é que apesar de WandaVision se situar no MCU, esta produção tenta desviar-se gradualmente da fórmula encontrada nos filmes, especialmente na forma como gera grandes expectativas entre cada episódio, evitando novamente ser algo repetitivo. Isto é, os elementos de humor e as várias referências estão lá presentes, mas a forma como a história é contada renova a experiência cedida espectador, entregando-lhe algo único e, em última instância, progressista no subgénero.

Este elemento transformador está presente no decorrer de praticamente toda a série, sendo que cada episódio faz alusão a diversas sitcoms norte-americanas , entre elas The Dick Van Dyke Show ou Malcom In The Middle, portanto indo desde os longínquos anos 50 até à atualidade. E aqui não se trata apenas de meros adereços visuais ou piadas de época, mas sim de todo um conjunto de elementos que fez este tipo de séries ser tão popular outrora, indo até ao mais ínfimo detalhe de forma a mergulhar o espectador no período em questão.

Apesar desta vasta base de alusões a outras produções televisivas, a série não fica apenas por aqui, pois dá a conhecer mais a fundo, a história e origem de Wanda e tudo o que isso implica no futuro do MCU. Com efeito, WandaVision tem um forte carácter de “estudo de personagem” na medida em que uma história maior é construída de forma subtil ao longo dos episódios, nos quais podemos analisar a reação da protagonista aos mais diversos eventos provocados em Westview.

A relação entre Vision (Paul Bettany) e Wanda é claramente outro ponto central desta produção, pois a química entre os dois não só carrega a maioria dos momentos mais emotivos da série, como é capaz de entreter o espectador só levando em conta este aspecto. Como seria de esperar de algo vindo do MCU, há sempre algo não tão aparente que se desenvolve de fundo, no entanto, como forma de evitar spoilers, torna-se muito difícil avançar em detalhes acerca da narrativa, sem estragar mais surpresas.

Posto isto, a série aborda outras temáticas para além daquelas que se encontram explícitas, que não só contextualizam o espectador sobre tudo o que está decorrer, mas em interligar a experiência de WandaVision com o restante universo compartilhado. Como seria de esperar, há uma ameaça principal presente em WandaVision, que apesar de ter uma revelação, que pessoalmente considero anticlimática (dado as circunstâncias em que ocorreu), é condizente com a proposta inicial.

Por outro lado, a grande crítica negativa apontar a WandaVision é que, na tentativa de renovar o subgénero, acaba por entregar algo disperso, priorizando alteração contínua da estrutura de cada episódio, ao invés de continuar a narrativa adiante. Portanto, mesmo na presença do factor “novidade semanal” , a forma como a história é contada não favorece o interesse do espectador, o qual apenas fica envolvido a partir da gestão de expectativas feitas no gancho final de um episódio para o seguinte. Sendo por isso o meio do episódio, algo que apenas liga o gancho do episódio anterior ao gancho do episódio seguinte.

Quanto às personagens em si, grande parte é introduzida pela primeira vez aqui, portanto estando na presença de um novo elenco. Destaca-se a prestação de Kathryn Hahn (Agnes) e de Teyonah Parris (Monica Rambeau) que para além de acrescentarem um peso extra à qualidade da produção, conseguem diversificar o género de personagens-tipo presentes no MCU. Portanto sendo algo como um meio termo, um ponto cinzento, na velha cruzada entre bem versus mal. O restante elenco introduzido cumpre o seu trabalho, mas sem grande notoriedade a destacar por parte dos mesmos.

No que diz respeito às referências, e indo ao encontro do que abordei anteriormente, há muito mais a dizer para além daquelas que referi, e se espera. Pois, apesar de nos filmes as mesmas, servirem quase como uma espécie de curiosidade ou easter egg para os fãs, aqui são quem move a história e que efetivamente na sua presença moldam e reformulam partes importantes daquilo que é dado como garantido do universo Marvel.

WandaVision abre muitas portas, mas deixa muitas mais dúvidas naquilo que poderá a vir a ser a continuação desta história e do universo em que está presente, e que terá repercussões futuras, em produções como Doctor Strange In The Multiverse Of Madness (2022), entre outros. E é neste ponto que a série consegue apaziguar a monotonia de alguns episódios que não foram tão bem recebidos, no seu conjunto, ao servir de grande passo inicial para o que virá a seguir. De realçar que a própria longevidade da série acaba também por incentivar a quem se habituou ao tempo de duração dos filmes, a não sentir que a experiência se está a alongar por muito tempo, do que aquele que é necessário, sendo assim totalmente adequado ao encaixe de “minisérie”.

A dificuldade de fazer uma análise, cujo conteúdo apresentado foi maioritariamente deixado de fora dos trabalhos promocionais (o que é muito positivo), como trailers e derivados, tornou esta tarefa mais difícil do que é normal. Contudo, e apesar da forma sintética de como alguns assuntos foram aqui tocados, há muitas mais revelações surpreendentes ao longo da série, que poucos ousariam em especular, sendo completamente inesperadas. E para todos efeitos, e ao contrário dos filmes do MCU, o elemento surpresa é um grande trunfo na manga da Marvel nesta série. Assim, de uma forma geral, WandaVision é uma série subversiva e ousada no subgénero subaproveitado em que se encontra, sendo recomendável, tanto aos fãs mais agarrados, como até aos espectadores mais casuais.

Positivo:

  • Novo elenco de atores;
  • Efeitos especiais par-a-par com os filmes;
  • A química entre Wanda e Vision;
  • Produção sui generis e única no MCU;
  • Exploração profunda e pertinente do passado da protagonista;
  • Abundância de easters eggs e referências ao MCU;
  • Tributo colossal às séries sitcoms;
  • Deixa em aberto um leque de possibilidades quanto ao futuro…

Negativo:

  • …mas acaba por ser excessivamente dependente do gancho final de cada episódio para avançar a história adiante;
  • Ritmo da narrativa disperso;
  • Desfecho final fica um aquém do desenvolvimento feito ao longo da série;
  • Desenrolar de algumas surpresas, não tão bem concretizadas;

João Luzio
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