Análise – Batman: Soul Of The Dragon

Em meados do ano passado, a DC Comics deu início a uma nova fase de filmes animados partilhados, através de Superman: Man Of Tomorrow, cujo resultado final dividiu bastante o público. Portanto não foi o melhor pontapé de partida pretendido, levando em conta o anterior universo cinematográfico que havia terminado com chave de ouro, logo as expectativas estavam até elevadas. Desta maneira, tudo levava a crer que mais produções seguiriam pelo mesmo molde narrativo e estilo visual, contudo, não foi este o caso com Batman: Soul Of The Dragon, pois trata-se de uma história paralela e isolada tanto em relação ao anterior e ao presente universo de histórias interligadas.

Batman: Soul Of The Dragon dirigido e produzido por Sam Liu e Bruce Timm, respectivamente. Este filme é ambientado nos anos 70, no qual o subgénero do Kung Fu teve um grande crescimento, onde figuras como Bruce Lee desempenharam vários papéis em filmes de ação. Portanto, Liu pretendeu fazer não só uma homenagem a esta época cinematográfica, como também ao próprio universo das comicbooks de artes marciais da DC Comics. Embora a premissa escolhida seja uma ideia bastante original, ao ser algo completamente fora da caixa e daquilo que o público alvo se habitou, a presença de Batman no título é só uma desculpa para se atrair um maior número de espectadores, mas já lá irei a este ponto.

Como se trata de um filme remoto no universo da DC Comics, este está repleto de múltiplos flashbacks que situam o espectador e o informam do passado das mais variadas personagens. Assim Batman: Soul Of The Dragon apresenta a sociedade secreta de Nanda Parbat, onde O-Sensei, um mestre das artes marciais, treina secretamente um grupo privilegiado de indivíduos, entre eles, Shiva, Richard Dragon, Jade, Ben Turner e Rip Jagger. Do qual, Shiva por se tratar de uma aluna bastante talentosa, recebe a Soul Breaker, uma espada mística ligada a um portal misterioso dentro de Nanda Parbat, que O-Sensei tenta esconder dos seus alunos a todo o custo.

No presente, um dos alunos de O-Sensei, Richard Dragon viaja até Gotham com o intuito de pedir auxílio a Bruce Wayne, que nesta altura se encontra como vigilante mascarado da cidade. Richard informa-o que um culto secreto de nome Kobra tomou posse da Soul Break, e consequentemente do eventual acesso ao portal proibido. Assim caberá aos mesmos reunir o restante grupo de alunos de O-Sensei com vista a travar Kobra e os seus membros, como descobrir o mistério por detrás de Nanda Parbat.

Apesar de neste caso, a história não ter o peso central, dando assim lugar às cenas de ação, por se tratar de um filme voltado para as artes marciais, esta não é contada da melhor forma. Na medida em que os sucessivos cortes de cenas entre passado, presente e aquilo que outras personagens secundárias se encontram a fazer, acabam por prejudicar mais a experiência, do que ajudar o espectador a perceber o fio condutor da história. Ainda neste aspecto, embora haja momentos dedicados somente ao desenvolvimento das personagens centrais, pessoalmente, não fiquei convencido, nem mesmo interessado, tirando talvez o caso da personagem de Richard Dragon, que conseguiu levar parte do protagonismo às costas.

E indo ao encontro da temática das artes marciais é de louvar a tentativa de trazer para os holofotes este universo de nicho da DC Comics para o mercado de produções de animação. O que é um ponto a mais na representativa e diversidade de conteúdos que a DC Comics tem apostado nos últimos anos em maior escala, em relação à concorrência. Não obstante, e mesmo que as cenas de ação sejam bem coreografadas, as mesmas não chegam a ser suficientemente determinantes da qualidade geral de Batman: Soul Of The Dragon, pois por muito interessante que seja o apelo do dinamismo da animação gráfica, não é isso que levará o espectador a considerar este filme como proveitoso e indispensável na galeria de filmes animados do estúdio.

Quanto ao próprio papel da personagem de Batman devo dizer que nada mais foi do que uma jogada de marketing para atrair um maior número de pessoas ao filme, pois na prática, não apenas se trata aqui de uma personagem ausente, como o seu “protagonismo” é dividido por mais de três personagens. O que pode levar vários espectadores a sentirem-se enganados. Pois como todos sabem, o nome desta figura no título, pode fazer uma diferença descomunal na adesão do público ao mesmo. Por outro lado, a presença da palavra Soul no título, não só se encaixa com um elemento na narrativa, através de Soul Breaker, como também na homenagem à época da altura, com o uso do vestuário e banda sonora presentes. Para não falar da magnífica abertura ao estilo James Bond, que me apanhou de surpresa, por tão boa se tratar, mesmo que discrepante com o propósito do filme.

A ameaça central do filme, e não irei entrar com detalhes específicos para não dar muitos spoilers, acaba por se encaixar, pessoalmente, na mesma categoria das personagens secundárias, sendo assim desinteressante, que pouco me investiu em querer saber as motivações por detrás da mesma. E a combinação destes dois elementos faz com que a minha experiência com Batman: Soul Of The Dragon tenha sido bastante entediante, sem quase nada que me agarrasse à história. Já a escolha de se ter optado por um final aberto, a meu ver desnecessário, acaba por entregar uma sensação de vazio e de clímax abrupto, sem que nada justifique esta decisão, mesmo aqui se tratando de um filme isolado.

Mesmo na presença ideia base potencialmente interessante e com um trabalho de marketing competente, aquilo que foi entregue não consegue fazer jus a estes fatores, o que determinou na prática, um filme sem grande destaque e de alguma forma maçante. Apesar de haver algum esforço através dos aspectos técnicos e das referências trazidas diretamente do universo das comicbooks, Batman: Soul Of The Dragon fica longe daquilo que poderia sido, caso o trabalho de pré-produção tivesse sido outro, com outra equipa de direção por trás do mesmo. À vista disto só o consigo recomendar apenas a quem já estiver familiarizado com a temática do filme e respectivas personagens.

Positivo:

  • Premissa pouco usual mas tentadora;
  • Abertura ao estilo James Bond;
  • Homenagem ao subgénero do Kung Fu dos anos 70;
  • Inclusão e representatividade de um universo nicho;

Negativo:

  • Narrativa contada de forma dispersa;
  • Abaixo do padrão de qualidade das obras que o antecedem;
  • Vilão desinteressante e muito pouco convincente;
  • Personagens secundárias;
  • Determinadas escolhas criativas;
  • Final aberto desarticulado com a proposta do filme;
  • Inserção de Batman no título não justifica a sua frequência no filme;

João Luzio
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