Análise – Superman: Man Of Tomorrow

Depois do fim de um universo cinematográfico compartilhado de mais de oito anos de existência, através de Justice League Dark: Apokolips War de 2019, a DC Comics juntamente com a Warner Bros decidiu investir novamente, neste seu ramo das películas animadas. Superman: Man Of Tomorrow, dirigido por Chris Palmer, é o início deste novo recomeço/reboot, com mais obras futuras a avizinharem-se no horizonte. E nada melhor do que o primeiro grande herói desta editora, para dar o pontapé de partida.

Como já é do conhecimento geral, Superman não necessita de introduções, e é mesmo essa lógica que o filme segue. Aqui, apesar de ser o primeiro título deste universo, Palmer não perde o tempo do espectador a recontar novamente a história de origem, tão badalada, deste titã da DC Comics. Somos imediatamente colocados na ação, mais especificamente nos primeiros anos de atividade de Kal-El, enquanto guardião da cidade de Metropolis. Há semelhança de muitas outras adaptações, Clark Kent (identidade secreta do herói) é ainda um novato a trabalhar para o Daily Planet enquanto jornalista interino.

Contudo, a monotonia do seu trabalho é interrompida com a súbita chegada de um objeto misterioso vindo do espaço. E é aqui, que surpreendentemente, Palmer toma uma escolha bastante arrojada, em apresentar Lobo, nos primeiros anos de atividade de Kal-El como Superman. Pois para quem não conhece, esta personagem do Lobo é das mais poderosas e infames de toda a galeria da DC, levando em conta o seu armamento bélico, e a sua inabalável sede por caos e destruição.

Por outro lado, a sua inclusão acaba por ser uma lufada de ar fresco na narrativa, no sentido em que atenua a previsibilidade que as histórias do homem de aço costumam ter. Para não falar, que Lobo é sempre bem-vindo em qualquer aparição que faça, seja em filmes, séries ou videojogos. E como era de esperar, Superman que ainda estava a aprender a lidar com toda a carga dos seus poderes e respectiva responsabilidade, se vê perante um adversário para lá de fácil de enfrentar. O que por sua vez, tira um tanto daquela invulnerabilidade que este herói é tanto conhecido por, servindo assim como um ótimo desafio para a personagem, como para o próprio espectador, enquanto forma de entretenimento.

Posto isto, e como fui receando ao longo do filme, Superman: Man Of Tomorrow sofre do famoso «Síndrome de Spider-Man 3 (2007)», onde estão presentes várias plot-lines, cada uma com o seu vilão/ameaça própria, traduzindo-se num conflito interno do próprio roteiro contra si mesmo, entre decidir que parte irá dar mais espaço, em favor de outra. Lobo, por si só, já era um vilão capaz de levar o antagonismo todo às costas, mas como para a equipa da produção de Palmer,  isso poderia não ser suficiente, o filme introduz, sob história de origem, Parasite e ainda estabelece Lex Luthor como presença assídua durante a história.

E como se ainda não fosse suficiente, outro herói junta-se ao barulho, ninguém mais do que J’onn J’onn vulgo Martian Manhunter, último membro da sua espécie, cuja presença era um suposto pseudo-mistério do filme, mas que no fundo, é facilmente identificável pelos fãs. Por um lado, Palmer tenta integrar esta personagem no arco do conflito entre Lobo e Superman, mas na verdade acaba mais por criar outro subcamada no roteiro, o que não ajuda muito. Seja como for, neste aspecto, Martian Manhunter está bastante fiel à sua caracterização das comicsbooks.

Se em termos estrutura, o filme começa com um primeiro acto bem consolidado, por outro lado, à medida que vai avançando e introduzindo mais tramas na história, torna a conclusão de outras linhas narrativas paralelas, difíceis de alcançar. O que se traduz no romance forçado entre Clark Kent e Lois Lane, sem qualquer tipo de química, onde a presença destes dois, é espremida drasticamente, entre cada uma das cenas de menor exaltação e adrenalina. Lex Luthor sofre da mesma compressão das diferentes histórias paralelas, vendo o seu envolvimento no conflito principal da narrativa, como um elemento a mais e  até desnecessário, em certos momentos. Ainda assim, levando em conta o carisma e presença destas personagens, o espectador mais desatento pode até não sentir o seu impacto, e aceitar de melhor agrado estas decisões criativas.

Importante salientar, que este reboot vem juntamente, com um novo estilo artístico, que apesar de minimalista, tem bastante personalidade, fazendo lembrar um pouco a série de Archer. A animação é mais suave e vibrante, onde as cenas mais intensas, fluem bastante bem, com a movimentação das personagens, pena é que os cenários sejam demasiado genéricos e sem qualquer tipo de dimensão criativa. Se este estilo de animação se mantiver, há muito por onde evoluir, pois no caso de histórias mais sombrias e densas, esta escolha não será a mais indicada. Isto não quer dizer que o filme seja friendly-family, muito pelo contrário, quando Lobo está em cena não faltam os típicos praguejamentos, explosões e balas por todo o lado.

Para não falar do tom de horror, que Palmer optou por dar a Parasite, que até certo ponto é a principal ameaça do filme. Enquanto história de origem nada a apontar, pois é mais do mesmo no diz respeito aos inúmeros acidentes de laboratório que deram errado nas comicsbooks. Contudo é na sua evolução, que o director não conseguiu equilibrar o lado emotivo e o irracional da personagem, tornando-o extremamente difícil de captar o espectador. O que também teve impacto no terceiro acto do filme, que deita por terra todo o potencial que estava a criar, em tentar ser uma obra do Superman completamente nova, sem se apegar aos típicos clichês do género, e sobretudo da personagem, o que no final acaba por ser isto mesmo.

Visto que Superman: Man Of Tomorrow é porta de entrada para o restante universo que está por vir, fiquei bastante desapontado, por o quão este filme consegue ser contido e fechado, contrastando com o compartilhamento de várias narrativas onde está envolvido. Assim parece mais um filme isolado do que outra coisa, portanto, é uma péssima decisão criativa, levando em conta que a DC está a tentar construir um universo coeso e uniforme, com as suas várias histórias. Como não é este o caso, toda a pressa de Palmer em fechar abruptamente o arco de algumas personagens como Lois Lane, Lex Luthor e Martian Manhunter, torna a experiência menos fluída.

No geral, Superman: Man Of Tomorrow não deixa de ser mais um filme do Man Of Steel, que entretém por algumas poucas horas. A escolha de trazer um novo elenco de vozes, com um novo estilo de animação, juntamente com um primeiro e segundo acto bem construídos, fazem o filme sobressair um pouco mais. Contudo, não são bases o suficientemente sólidas para agradar os fãs que acompanharam a saga de filmes passados, e muito menos aqueles que idolatram esta personagem. Assim, será o espectador casual quem saíra mais satisfeito com a experiência, o que já é um mérito aceitável.

Positivo:

  • Estilo de animação minimalista;
  • Cenas de ação bem enquadradas;
  • Não deixa de ser uma história de Superman;
  • Boa forma de introduzir novos espectadores;
  • Primeiro e segundo acto surpreendem quebrando a previsibilidade;
  • Lobo é sempre uma boa inclusão;
  • Algumas revelações mantém o ritmo da narrativa;

Negativo:

  • Sofre do «Síndrome de Spider-Man 3»;
  • Conclusão abrupta do arco de várias personagens;
  • Lois Lane e Lex Luthor prolongam a sua presença;
  • Terceiro acto bastante desapontante;
  • Não deixa nenhuma ponta solta para o universo compartilhado;
  • Fraca dualidade entre Superman e Clark Kent;
  • Parasite não é uma força antagónica marcante;

 

João Luzio
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