Análise – Justice League Dark: Apokolips War

A maioria das pessoas associa o maior feito de universo compartilhado entre várias produções ao Marvel Studios, com o seu projecto do Marvel Cinematic Universe. Contudo, durante quase oito anos, a DC Comics tem vindo a criar, também ela, um universo partilhado de vários filmes animados, das suas personagens mais icónicas, a única diferença é que estes são não só, mais fiéis aos materiais em que se baseiam, como saem diretamente em streaming ou em blu-ray, daí que sejam por vezes esquecidos pela esmagadora maioria do público.

Neste sentido, a DC Comics iniciou o seu próprio DC Universe Animated Movies (DCUAM) com  Justice League: The Flashpoint Paradox de 2013 e terminou-o com o presente filme para análise, Justice League Dark: Apokolips War de 2020, dirigido por Matt Peters . Em forma de contexto, para criar este universo a DC foi buscar inspiração ao reboot das comicsbooks de 2011, dos New 52. Aqui tivemos cerca de catorze filmes, que precedem este último, os quais focavam-se nas mais diversas arestas deste universo compartilhado, passando pela própria Justice League, pelos Teen Titans, pelo Suicide Squad e até por filmes solos do Batman e do Superman.

Daí que seja crucial terem assistido à grande maioria destas obras para entenderem a história que este filme pretende contar. No fundo é uma espécie de Avengers: Endgame, com o mesmo nível de proporções dramáticas e de enredo, dos filmes animados da DC. Surpreendentemente, a grande parte dos filmes deste universo tem uma qualidade bastante boa, tirando uma ou outra exceção (Wonder Woman: Bloodlines ou Justice League: Throne Of Atlantis). Por consequência, Justice League Dark: Apokolips War entra logo com o pé direito, ao beneficiar com a construção e desenvolvimento das várias personagens feita nos títulos anteriores, logo não perde tempo com introduções ou histórias de origem, inicia-se logo com a continuidade do enredo.

Aqui, Darkseid, o equivalente a Thanos da Marvel, põe de novo em prática o plano, antes falhado em Justice League: War de 2014, de conquistar a Terra. Por oposição, a Justice League em conjunto com os Teen Titans e a Justice League Dark (cujos membros têm todos poderes sobrenaturais e místicos) decidem preparar-se com uma equipa a defender o posto da Terra do exército, ao mesmo tempo que outra equipa ataca Apokolips, contando que este planeta se encontrasse desprotegido. Contudo, o conquistador tirano descobre antecipadamente dos planos destes heróis, e massacra completamente aquele enorme batalhão.

Destes sobram apenas Superman, que agora se encontra sem poderes, Raven, que se vê numa luta interna para não deixar o espírito do seu pai tomar conta do seu corpo, John Constantine, que outrora havia abandonado o grupo em pleno combate e ainda Etrigan. Os restantes efetivamente morreram, ou foram dados como tal, ou sofreram de lavagem cerebral, para agora trabalharem no exército de Darkseid, como foi o caso de Batman, Wonder Woman. Toda esta informação é apresentada logo nos primeiros dez minutos da obra, sendo que posteriormente, o filme salta dois anos no tempo, para mostrar o estado da Terra e dos seus sobreviventes.

Sendo inevitável comparar, senti que Justice League Dark: Apokolips War faz um melhor trabalho em evidenciar a clara destruição do exército de Darkseid e nas respectivas consequências que isso teve neste universo, em comparação a Avengers: Endgame. Para não mencionar, que neste último a resolução do problema foi feito com menos perdas e menor carga dramática, do que aquilo que este filme fez brilhantemente. Peters não teve receio de matar personagens importantes, nem mesmo de contar uma história sangrenta e desmoralizadora do início ao fim. Todas as cenas são muito explícitas no que diz respeito ao horror e crueldade causadas pelos antagonistas, como muito sangue à mistura, daí a classificação de R – Restricted, para maiores de idade.

Como é natural, era impossível dar protagonismo a todas as personagens deste universo compartilhado, logo apenas as mais relevantes para a história tem o seu devido tempo de antena aqui. Cujo o destaque vai para Superman e John Constantine, sendo que este último rouba praticamente o protagonismo para si sempre que aparece, já o mesmo não posso dizer em relação a Darkseid, que não só é de alguma forma ausente, como não tem tanto carisma como outros vilões deste universo. Mais, até a sua caracterização do filme de 2014, fez um melhor trabalho em explorar as nuances desta personagem, por isso a sua presença aqui foi uma completa decepção pessoal para mim. No entanto, como referi antes, a tensão de perder estas personagens está presente em todo o filme, nunca nos deixa respirar de alívio, pois a qualquer momento algo pode subitamente correr mal, tal como a estrutura dramática de Game Of Thrones replicou tão bem.

Quanto ao estilo da animação, claramente é notável que o orçamento para Justice League Dark: Apokolips War aumentou significativamente, não só as cenas de ação estão mais detalhadas e polidas, como a própria resolução do filme se encontra um pouco acima do padrão estabelecido nas animações anteriores. O que não é de espantar, pois sendo este o último filme, teria de ter todos os seus elementos o mais perfeitos e trabalhados possíveis. Já o mesmo não posso dizer acerca da banda sonora, pois nada de grande se destaca, tirando as músicas temas de determinadas personagens, que já estavam presentes em outros filmes.

Ao contrário daquilo que acontece no universo cinematográfico de filmes live-action da DC, aqui todos os filmes têm, ou melhor, tiveram um papel relevante no culminar desta grande produção do DCUAM. Cada mínima referência ou decisão por parte de determinada personagem é condizente com aquilo que outra obra introduziu, logo é uma ótima experiência para quem viu as restantes películas, apanhar os diferentes callbacks e fan service’s à mistura. Cada um dos segmentos deste universo ganha um final adequado, em especial o arco de Batman, e até do Suicide Squad, que apenas dão as caras a partir do segundo acto do filme. Não obstante, a média longevidade do filme, de apenas noventa minutos, pode à primeira vista ser um tanto redutora, mas por outro lado, permite que apenas o mais relevante seja exibido, sendo aqui não há nada apresentado que não tenha importância para a história. Logo caso fiquem desatentos por alguns segundos, podem perder uma informação importante, ou pior, uma morte súbita de alguma personagem.

Objetivamente falando, Justice League Dark: Apokolips War é um filme incrível, que põe um ponto final a uma história partilhada de vários mundos e personagens com quase oito anos de existência. Portanto, esta obra termina num ponto alto, que a meu ver é dos melhores filmes do DCUAM. Desde a sua história, ao desfecho do arco de personagens importantes, às cenas de ação visualmente fantásticas até ao drama e tensão, que faz cada segundo deste filme ser importante e tão divertido de assistir. De certeza, que este conjunto de histórias será um ponto referencial para futuras obras da DC, em especial do novo universo que esta produtora está a construir, que será iniciado com Superman: Man Of Tomorrow, ainda este ano.

Positivo:

  • História original;
  • Personagens carismáticas;
  • Drama beneficia da classificação “R Rated“;
  • Clima de tensão do início ao fim;
  • Referências, fan service e callbacks para dar e vender;
  • Qualidade da animação e aspectos técnicos no seu auge;
  • John Constantine rouba o protagonismo das cenas;
  • Desfecho mais que satisfatório para uma saga de catorze filmes;
  • Incrível ponte que faz com o primeiro filme, Justice League: The Flashpoint Paradox;

Negativo:

  • Darkseid deixa muito, mesmo muito a desejar;
  • Banda sonora não tem uma única faixa que se destaque;

João Luzio
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