Análise: Nebraska – Nebrasca

NEBRASKA

O Cinema é uma arte fantástica. Numa era inclinada para o entretenimento (os super-heróis dominam o panorama), volta e meia surge um filme especial, aplicando a narrativa clássica, mas absorvendo as dinâmicas contemporâneas, neste caso, sobre a tutela da maior fonte de inspiração que existe: a vida.

Num ano repleto de candidatos modestos ao Óscar de Melhor Filme do Ano, na maioria inspirados em factos reais e menos na realidade (se calhar ficámos mal-habituados com a excelência de 2013), Nebrasca afigura-se como uma obra intemporal, universal, com uma premissa tão antiga como a primeira lenda: a história de um pai e de um filho. Com requintes de humor e drama, Nebrasca é mais do que uma história americana, é um retrato verdadeiro de uma inevitabilidade (envelhecer), que poderia ocorrer em Manteigas (um abraço para a Serra da Estrela) ou Tóquio.

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Nebrasca narra a história de Woody Grant (interpretado por Bruce Dern), um homem com idade avançada, socialmente inadaptado, que envelheceu sem quaisquer objectivos de vida. Devido à idade, Woody perdeu algumas competências, tais como a atenção e o discernimento do certo e do errado, mas adquiriu a teimosia e a rezinga. David Grant (interpretado por Will Forte), é filho de Woody, que embarca numa viagem de Montana até Nebrasca, porque o pai fantasiou que venceu um milhão de dólares.

O elenco conta ainda com um naipe de actores pouco conhecidos do grande público, mas talentosos, tais como June Squibb, Bob Odenkirk (Breaking Bad), Stacy Keach, Mary Louise Wilson e Rance Howard. Destaque para June Squibb (interpreta Kate Grant), que acertou na “mouche” face às exigências do personagem. June Squibb proporciona uma interpretação verdadeira, que lhe vale uma justa nomeação para os Óscares.

NEBRASKA

A realização de Alexander Payne é discutível. A decisão pelo preto e branco favorece a estética, mas o pretexto não é inovador – a lengalenga de que é uma história antiga, vista vezes sem conta… Completamente desnecessário, sobretudo face à frescura da abordagem. Os enquadramentos de Payne são obtusos (há trabalhos nas universidades portuguesas mais interessantes), e o realizador tenta com “demasiada força” incutir as ideias. Apesar destas decisões comichosas, há elementos brilhantes, dignos de registo, nomeadamente: apelo ao processo dedutivo para elementos fora de cena (prática apurada por Tarantino); punch-lines anti climáticas; e construção de um protagonista que não consegue verbalizar sentimentos.

Nos restantes domínios técnicos, há a sublinhar uma estupenda banda-sonora, uma audaciosa direcção de fotografia – apesar do preto e branco, defende-se com imagens nítidas  e sem contrastes -, e uma produção humilde, que resiste com a riqueza da história.

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“Histórias são a conversão criativa da própria vida em algo mais poderoso, mais experiente e mais significativo. Elas mediam a noção de contacto humano. ” Robert Mckee, autor do livro Story

Uma citação pertinente, que permite compreender a dinâmica e a intenção de Nebrasca. Em que medida o banal e o corriqueiro são transcendentes? Quando possuem significado, e essa intenção remete para a verdadeira essência humana. Quando bem-feito, o cinema emula experiências, despindo a realidade e identificando a natureza humana. Não é por acaso que Nebrasca conquistou os corações dos maiores cinéfilos da actualidade. “Aquele” evento não é só o personagem “A” a fazer “Y”, mas um filho a tentar chegar a um pai, o momento “X” não fica pela resolução da cena anterior, é um homem consciente das respectivas limitações à procura de significado para uma vida.

Nebrasca não é um filme para todos, eventualmente será necessária vivência para identificar mensagens e interpretar a carga emocional, mas é um filme que existe no presente, no passado e no futuro. Não é uma obra-prima incontornável, mas reúne as melhores ferramentas da narrativa clássica, e executa-as num elevado grau de qualidade e emoção.

 

Positivo

  • Clímax extremamente recompensador (ao nível dos Condenados de SHawshank? Quase)
  • Como identificar o protagonista?
  • Dinâmica e aparência de Will Forte e Bob Odenkirk
  • Simplicidade

 

Negativo

  • Realização obtusa
  • June Squibb em part-time
  • Previsibilidade

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Nirvanes

YES YES! Era um dos que mais esperava =D vamos lá ver!

Edgar Silvestre

É curioso, Her coloca em causa o amor, gravity a existência,
12 anos escravo a liberdade, mas Nebrasca coloca em causa o sentido da vida.
Acho que ao longo do tempo vou gostar ainda mais do Nebrasca

ShadowDust

Fui ver isto ao cinema e adorei. Não o consigo considerar melhor que Her, mas se há algo que chega perto é o Nebrasca. Adorei especialmente a interpretação do Will Forte (até agora só o tinha visto em comédias e apanhou-me completamente desprevenido).

Tal como tu achei o filtro preto e branco algo “deselegante”. Parece quase que o filme tentou ser algo que não é. Contundo é o único defeito que consigo ao filme.

Edgar Silvestre

a opção pelo preto branco tem sub-texto, mas, na minha opinião,não era uam decisão obrigatória. O Nebrasca é um bom filme para analisar na cadeira de modelos de narrativa.

Duarte

Tenho mesmo de ver este filme, parece ser excelente

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