Análise – Artemis Fowl

A Disney sempre teve o hábito de ao longo dos anos de lançar vários filmes inspirados em obras literárias, como foi o caso das Crónicas de Narnia ou do Corcunda de Notre Dame. Portanto não foi nenhuma surpresa, quando este estúdio decidiu adquirir a licença para adaptar cinematograficamente a saga de livros de Artemis Fowl, de Eoin Colfer. Após um adiamento de um ano inesperado, e um lançamento controverso para o Disney Plus sem chegar às salas de cinema, a produção deste filme sempre esteve rodeada de polémicas. O que se refletiu no resultado final, aquando do seu lançamento.

Artemis Fowl (2020) é um filme de ficção científica e fantasia dirigido por Kenneth Branagh. A temática principal gira em torno de Artemis Fowl Jr. (Ferdia Shaw), cujo pai, Artemis Fowl Sr. (Colin Farrell) desapareceu misteriosamente. Com o auxílio de Domovoi Butler (Nonso Anozie), o seu guarda-costas, o jovem Artemis na tentativa de salvar o seu pai, acabará por descobrir uma civilização ancestral de fadas, chamada Haven City, localizada no interior da Terra, a qual é composta também por outras criaturas mágicas. Ao longo da sua jornada, Artemis irá fazer equipa, com uma fada, a Holy Short (Lara McDonnell), que pertence à Lower Elements Police (LEP), uma espécie de FBI daquele mundo. Juntamente com Mulch Diggums (Josh Gad), um anão que é contratado temporariamente como informante para a LEP.

Apesar do filme contar com uma panóplia vasta de elementos fantasiosos, o enredo acaba por ser relativamente simples. Pois tanto Artemis, como a LEP querem encontrar Aculos, um objeto poderoso que havia sido roubado. Objeto este que era essencial em Haven City, especialmente para a sobrevivência das fadas. Já Artemis vê-se no meio desta corrida pela relíquia, pois sem esta seria impossível negociar o resgate do seu pai.

Uma das primeiras coisas negativas a apontar, é a estrutura do filme. Logo de início somos apresentados a este universo, com a narração de Mulch, que nos acompanha até ao final do filme. Várias são as vezes, em que o fluxo do guião é travado pela exposição de conceitos, personagens, ou de meras curiosidades que a personagem de Josh Gad tem de interromper múltiplas vezes. Exposição esta, que além de ser em demasia, explica tudo (literalmente tudo) aquilo que está a ser apresentado, sem deixar o espectador interiorizar e/ou interpretar por si próprio. Apesar de parte do público alvo deste filme ser um público mais juvenil, o filme chega a um ponto ridículo, levando em conta a quantidade e frequência de se ter de explicar tudo, como se o espectador fosse despromovido de pensar.

Ainda em termos de estrutura, e apesar do filme ser algo curto, temos em Artemis Fowl, um primeiro acto, demasiado focado em exposição. Seguido, de um segundo acto, com pouco desenvolvimento das personagens apresentadas, praticamente todas ou têm uma personalidade vazia ou a preto e branco, sem grande profundidade. Até para um filme da Disney, Artemis Fowl consegue levar o minimalismo a outro nível completamente diferente. Já o terceiro acto, é excessivamente anti-climático, até para um filme da Disney. Mais uma vez, todo o (pouco) build-up feito previamente, acaba por ter efeito zero naquilo que se segue. Sendo a ameaça principal resolvida muito facilmente.

Por falar nisso, e tocando já nas personagens, o vilão deste filme, para além de ser surpreendentemente ausente, é também ele vazio em termos de desenvolvimento. Nada se sabe das motivações desta personagem, para além da típica procura por conquistar o mundo. Enaltecendo assim, a fraca qualidade do clímax, que acaba por não ter grande peso, levando em conta a reduzida ameaça do vilão.

Ainda nas personagens, e como tinha referido, a grande maioria não tem nada de novo a acrescentar. Nem mesmo com uma parte do elenco veterana, como o caso de Colin Farrell ou de Judi Dench, a sua prestação consegue salvar o fraco apelo e desinteresse que estas personagens têm no espectador. Se por um lado, os atores já experientes têm pouco por onde pegar com a leviana densidade e construção das suas personagens, o mesmo se aplica, num grau muito maior, nos novatos. Artemis Fowl dá o nome ao filme e também à personagem principal, que devia ser aquela que deveria comunicar mais com o público e ter o mínimo de desenvolvimento. Mas não, a personagem é extremamente vazia, somando ao facto da fraquissíma interpretação do ator, Ferdia Shaw, que muitos podem desculpar por ser novo, mas há que lembrar aquilo que Stranger Things entregou há cinco anos atrás, composta por um elenco todo ele bastante jovem.

Posto isto, em termos positivos, consigo reconhecer algum investimento na tentativa de construção da mitologia do universo. Além dos visuais e adereços que são até interessantes, uma vez que, cada criatura, seja anão, goblin ou fada, tem as suas particularidades. Contudo, como estas personagens acabam por ser secundarizadas, pois nunca se consegue chegar ao total potencial que poderiam ter sido caso houvesse um maior envolvimento destas. Esse é talvez um dos maiores problemas de Artemis Fowl, pois apesar de se basear numa coleção de mais de cinco livros, vai beber pouco à fonte original, apenas tocando levianamente naquilo que se poderia esperar de um mundo único de fantasia e ficção científica.

Indo agora ao encontro dos aspectos técnicos, refiro que os efeitos especiais (CGI) neste filme, surpreenderam-me como há muito um filme não o fazia. Senti que estava a ver um filme do início dos anos 2000 ou até uma cutscene de um jogo de há duas gerações. São cenas notórias, que saltam à vista, por tão discrepantes e mal trabalhadas que estão, mesmo o filme tendo um orçamento de mais de cem milhões de dólares, vindo de um dos maiores estúdios do entertenimento da atualidade.

No que toca à banda sonora, esta tem as típicas faixas que se ouvem de fundo, na maioria dos filme. Tendo uma música tema que toca ocasialmente ao longo do filme, mas que é facilmente esquecida. Portanto, nem mesmo neste departamento Artemis Fowl conseguiu utilizar os seus elementos únicos, para criar igualmente uma banda sonora digna e distinta dos restantes filmes do género.

Ressalvo que o filme, apesar de ter um longo historial de onde se pode inspirar, claramente que houve por parte da produção desta obra uma tentativa de replicar um tom e uma visão a puxar para os lados de Harry Potter e Percy Jackson. Mas até mesmo na tentativa de replicar esta forma já gasta de sucesso, Artemis Fowl é mal sucedido. Não aproveita por um lado a vastidão onde (claramente) deveria ter agarrado, pois trata-se uma adaptação de uma conjunto de obras para outro meio, como por outro lado, falha em imitar uma formúla de sucesso já do conhecimento do público: do jovem prodígio com poderes e habilidades fora do comum, com um passado misterioso, e o único capaz de impedir uma ameaça emergente (só esta breve descrição, consegue resumir uma ampla gama de obras).

Mesmo tendo conhecimento que Artemis Fowl iria chegar algures este ano, fui sempre sem qualquer tipo de expectativas apesar de saber que se tratava de um filme produzido e distribuído pela Disney. Mesmo assim fui surpreendido pela fraca qualidade do guião, da opacidade e vazio da construção, desenvolvimento das personagens, e pela débil ou mesmo péssima estrutura do filme. Por todas estas razões, que aqui mencionei nesta análise, muito dificilmente (senão impossível) consigo recomendar este filme. Há muitos outros filmes que não só conseguem ter fidelidade às obras que se baseiam, mas também suportar-se a si mesmos. Desta forma (e para não vos deixar ir de mãos a abanar), recomendo aquilo que já aqui mencionei sobre Crónicas de Nárnia, que faz dez vezes mais um melhor trabalho em comparação com qualquer aspecto de Artemis Fowl.

Positivo:

  • Tem potencial para entregar algo maior;
  • Tentativa de construção de um universo interessante…;

Negativo:

  • Mas que explora pouco nas fontes originais;
  • Narração de Mulch;
  • Vilão muito pouco desenvolvido;
  • Péssima estrutura do guião e dos actos do filme;
  • Interpretação de Ferdia Shaw deixa muito a desejar, visto que é o protagonista;
  • Efeitos especiais (CGI) mal trabalhados e por vezes ultrapassados;
  • Medíocre construção e desenvolvimento das personagens;
  • Clímax mal executado e prematuro, sem grande build-up;
  • Falta de uma identidade própria;
  • Demasiado apego às fórmulas gastas de Hollywood;

João Luzio
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