Análise – Thor: Love And Thunder

Dos três heróis que deram a cara à construção do que veio a ser o Marvel Cinematic Universe (MCU), não calculava que o Deus do Trovão fosse aquele, que viesse a ter a maior longevidade em número de filmes produzidos. Trazer Taika Waititi a bordo da realização da terceira aventura a solo do personagem foi um grande acerto, em particular, por trazer uma abordagem renovada, que rendeu a Thor o apreço de recém criados fãs, que nunca se haviam interessado pela sua faceta cinematográfica até então.

Com Thor: Love And Thunder, produzido pelo Marvel Studios e distribuído pela Disney, a receita repete-se, mantendo o mesmo estilo e identidade criativa patente na sequela anterior. Waititi, que captou as atenções com What We Do In The Shadows (2014) tendo posterior reconhecimento por parte da academia através de Jojo Rabbit (2019), é já um nome de confiança quando assina algum projeto. O que torna a meu ver esta terceira continuação, sob um olhar mais minucioso, uma produção demasiado segura.

Esta longe de ousar ao pisar o risco, que tanto pode dar para o mal (Eternals, 2021), como para o bem (Doctor Strange 2, 2022). Por isso é com grande surpresa que saio da sala com um sentimento agridoce. Aquela que foi a “magia” de Thor: Ragnarok (2017) perde o impacto por não ser a primeira vez que a vemos aplicada numa marca autoral distinta. Até porque esta continuação arrisca-se muito pouco, tanto para a condução que se avizinhava para o personagem, como face ao panorama do reportório da Marvel.

A própria simplicidade narrativa é um ótimo exemplo disso. No epílogo que se seguiu ao fecho do arco das joias do infinito, Thor (Chris Hemsworth) embarca com os Guardians Of The Galaxy, naquilo que se esperava ser uma jornada repleta de aventuras inusitadas. A isto o guião subverte as expectativas, empurrando o grupo para canto, assim mudando o rumo pela qual se esperava que a história seguisse. Regressa à temática mitológica, agora de uma forma mais ampla, indo buscar o que melhor se fez no anterior e trazendo um interesse amoroso pouco valorizado e já esquecido.

É com a chegada de Gorr (Christian Bale), de subtítulo The Godbutcher, que entra o principal conflito da obra. Numa história de vingança um tanto batida no subgénero, o vilão procura retribuição pelo sofrimento provocado por um evento trágico, almejando a chacina dos mais variados Deuses. Situação que leva o filho de Odin a retornar onde tudo começou, à Terra e ao seu relacionamento, mal resolvido, com Jane Foster (Natalie Portman), que é agora a nova portadora do icónico Mjolnir, fazendo-a The Mighty Thor.

Se Ragnarok assentou na base do humor, sendo acima de tudo uma longa-metragem de comédia, Love And Thunder é igual mas com romance, o que é mais do que bem-vindo, e no fundo algo refrescante na desgastada fórmula da Marvel. É assumidamente o primeiro filme do MCU que leva o seu interesse amoroso com o herói a sério, muito longe até do que aconteceu com Peggy Carter ou Pepper Potts. Houve espaço para a integrante feminina se destacar, aspecto que sempre foi deixado em aberto, quando não completamente ignorado, no dois primeiros filmes.

Daí que a maior força desta sequela seja o relacionamento entre as personagens, que só acresce pelo facto de estarmos familiarizados com elas há um bom tempo no grande ecrã. Complementando-se com as atuações ímpares de Portman e Bale, que dão outro brilho e vigor ao elenco do costume. Não podendo me esquecer de falar de Zeus, aqui interpretado por ninguém menos do que Russell Crowe, que com pouco tempo de exposição, rouba os holofotes cada segundo que dá de sua graça.

O mesmo não posso dizer de Valkyrie (Tessa Thompson), a guerreira governante de Asgard na Terra, devido à perda de relevância numa história que pouco ou nada tem a ganhar com a sua presença. Retornando ao antagonista, Gorr está no pódio das melhores figuras maquiavélicas do estúdio. Graças à brilhante prestação do experiente ator que o interpreta isto é possível, de tal modo que é destoante vê-lo a atuar com o restante elenco, por estarem em níveis de atuação completamente distantes.

Sendo que a menção ao amor no título não é apenas relativa a algo romântico no sentido lato da palavra, mas também no amor paternal. Onde o guião de Waititi cria duas linhas de conflito emocional, inicialmente paralelas, mas que se intersetam no último ato. Criando um sentimento de coesão narrativa até positivo. Contudo, os elogios ficam por aí. A atrevimento em levar o Deus do Trovão a novos horizontes ficou em Ragnarok, e muito pouco dessa energia transita para aqui. Tendo o toque formulaico habitual por tudo o que é canto.

Mesmo quando o realizador se liberta destas amarras criativas, ainda se vê bem as paredes da caixinha Marvel, onde o filme está encaixado. Por cada passo que dá em frente, dois para trás são dados. Reconheço que esta impressão e estranheza são fruto do quão impactante foi para mim a obra anterior, indo de oito para oitenta no quão passei a gostar de Thor. Embora essa visão esteja cá, não tem metade da repercussão que outrora teve.

Das poucas coisas que não se perdeu desde há cinco anos foi a direção artística, que enche o ecrã de cores vivas acompanhada pelo fanatismo de Taika pela década de 80s. Com a banda sonora a trazer em força o hard rock, com ênfase numa mão cheia de músicas dos Guns N’ Roses. As cenas de ação são as que melhor aproveitam estes elementos, sendo um espetáculo audiovisual consistente ao longo das duas horas de duração. Porém, a execução não é melhor, uma vez que o argumento tem de conciliar a seriedade do vilão, a gravidade das circunstâncias, com o humor e leveza narrativa que tal blockbuster da Marvel acarreta.

O último ato é quem mais perde neste somatório. Atreve-se a entregar uma hipótese diferente do que o público espera, ao mesmo tempo que abre portas a uma outra nova versão de Thor, que a meu ver, já deveria ter fechado as portas neste filme… O humor foi outro ponto muito criticado no anterior, que embora não me tenha atrapalhado, acho relevante mencionar. Em Love And Thunder está numa dose mais moderada, tendo personagens específicas para esse efeito, ainda assim continua a estar na categoria de ‘produção mais descontraída’ e com pouquíssimo senso de urgência que tivemos até aqui, o que contribui para a sensação de mais do mesmo.

Thor: Love And Thunder apresentava-se como uma proposta tremenda, que iria manter o selo de qualidade que associamos a uma produção com cunho autoral, como foi o caso de Sam Raimi. Mas não é totalmente assim. Devolve uma experiência reciclada, onde pega em tudo o que fez maior sucesso em Ragnarok e inserindo-se numa estrutura retraída no MCU. Não obstante, entretém como tudo no MCU, mas falta-lhe a novidade e ambição que marcou o anterior, sendo este filme um tanto subtil, apostando muito pouco nas ideias que traz para cima de mesa.

Ressalvam-se as atuações dos veteranos, com Natalie Portman e Christian Bale a sobressair face aos restantes. Mais, o facto de incorporar inúmeros recursos daquilo que é esperado de uma história de romance saí a favor surpreendentemente, tendo uma mensagem emocional forte que une toda a narrativa com a irreverencia artística típica de Waititi. Para quem não gostou do estilo que viu antes, pode deixá-lo de lado, no entanto, por Love And Thunder ser tão seguro e abrangente, tem com certeza uma margem considerada para não desiludir os fãs.

Positivo:

  • Aventura divertida que entretêm;
  • Química entre Thor e Jane;
  • Equilibra humor com drama de forma adequada;
  • Atuação de Christian Bale;
  • Banda sonora com peso para os Guns N’ Roses;
  • Jane Foster recebe o destaque merecido;
  • Género de romance no MCU é mais do que bem-vindo;
  • Fusão do estilo artístico de Taika Waititi resulta…

Negativo:

  • …mas não tem o mesmo impacto por reciclar a magia daquilo que Ragnarok fez;
  • Escolhas narrativas no último ato deixam a desejar;
  • História com conveniências um tanto exageradas;
  • Produção demasiado segura e retraída, que se arrisca muito pouco;

João Luzio
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