Análise – Eternals

Desde a sua criação que o Marvel Cinematic Universe (MCU) priorizou, em grande medida, caras conhecidas do mundo das comics. Mas nos tempos que correm, com um portfólio de produções já recheado, decide (semelhante ao que fez com Guardians Of The Galaxy) pegar num canto desconhecido do público casual e dar-lhe a devida atenção. Os Eternals (Eternos), que dão nome ao vigésimo sexto filme do MCU, criados há mais de quarenta anos, pelas mãos de um dos mais consagrados argumentistas e editores da área, Jack Kirby, chega às salas de cinema.

Os Celestials (Celestiais) entidades cósmicas de poderes inimagináveis criaram dois seres distintos. Os Eternals cuja missão envolve a proteção de qualquer tipo de forma de vida inteligente, permitindo-os evoluir e prosperar, sem serem atacados pelos outros seres, os Deviants (Deviantes), verdadeiros super predadores que colocam em risco o crescimento natural destes últimos. Sendo, ambos, uma representação simbólica da ordem e do caos, que se anulam, ao mesmo tempo que se complementam, coexistindo num ciclo contínuo por toda a eternidade.

Dos tais seres Eternals, as atenções recaem sobre aqueles encarregados de proteger os seres humanos na Terra. São eles, Ikaris (Richard Madden), o líder do grupo, uma espécie de ‘Superman‘ com poderes similares, tais parecenças são até alvo de paródia no próprio filme, o mais sisudo dos demais, que desenvolve uma forte intimidade com Sersi (Gemma Chan), capaz de manipular e alterar o estado de todo o tipo de materiais. Estes dois funcionam como os principais protagonistas, onde todo o núcleo central da narrativa irá orbitar.

Segue-se Sprite (Lia McHugh) hábil na arte de projetar ilusões; Makkari (Lauren Ridloff) velocista mas com limitações de fala; Phastos (Brian Tyree Henry) o mais engenhoso, sendo um inventor nato; Kingo (Kumail Nanjiani) capaz de disparar projéteis a partir dos dedos; Gilgamesh (Don Lee) dotado de uma força física gigante, tendo uma relação de proximidade com Thena (Angelina Jolie) uma verdadeira guerreira bastante habilidosa com armas; Druig (Barry Keoghan) que consegue controlar a mente de quem desejar.

E por último, Ajak (Salma Hayek) a mais velha e sábia, capaz de se curar a si e aos outros, mas acima de tudo, por ser a representante do grupo para com os Celestials, mais especificamente, o Arishem, a quem devem “prestar contas” da sua atividade e processo na Terra. Ao longo do filme são feitos inúmeros saltos temporais, pelos locais mais exóticos do planeta, servindo de porta de entrada para os momentos de reflexão e questionamento, quanto às consequências e nuances do envolvimento destes seres divinos na proliferação da raça humana.

Como se pode constatar o elenco não é propriamente pequeno, sendo que com tantas personagens para se apresentar, o meu principal receio era que não fossem ser todos aproveitados da melhor forma e foi exatamente o que aconteceu. Quando não são apenas reduzidos a personagens unidimensionais (Makkari), são limitados ao alívio cómico (Kingo) ou apenas se desenvolvem em dependência com outro membro da equipa (Gilgamesh) ou até quando são apenas utilizados ao belo prazer da conveniência do enredo (Druig).

É pena, pois o potencial era gigantesco para entregar personagens nunca antes vistas no MCU, mas numa produção por si só já complicada, que já lá irei, perde-se ainda mais, ao se rodear de figuras muito díspares entre si. Fazendo-me de advogado do diabo, ao invés de olharmos a árvore individualmente, e vermos antes a floresta como um todo, este problema acaba por sobressair menos. Quando estão todos juntos em cena, existe alguma química, embora escassa, ainda que seja rapidamente ofuscada pela adrenalina das cenas de ação.

De facto dos poucos momentos que temos os Eternals reunidos em tela são para este tipo de cenas, sendo as poucas ocasiões onde, efetivamente, constroem uma presença conjunta sólida, os diálogos são carregados de exposição. Outro senão palpável do filme. Para o típico público de massas nem sempre é tão fácil transmitir determinadas temáticas mais abstratas, tal como é o caso da enigmática faceta cósmica do MCU, que aqui é elevada a um novo patamar.

Mas daí até desvalorizar a capacidade de retenção e perspicácia do público vai uma distância muito grande. Já não tinha memória de um filme que me bombardeasse com tanta exposição a informação como aqui foi feito. E não me refiro a informação nova, pois grande parte daquilo que é dito neste aspeto é reforço de algo que foi dito antes por outras palavras, mas que por alguma razão, é repetido múltiplas vezes.

Ainda que isto renda uma cena incrível com Arishem, que irá com toda certeza alegrar os fãs das comics, está longe de ser uma abordagem consensual. Arrastando a longevidade de Eternals (2021) sem necessidade, quando se podia muito bem dar lugar a momentos de contemplação e desdobramento da personalidades dos Eternos.

Não posso dizer que gostei particularmente de nenhuma personagem, mas Thena, Ikaris e a seu jeito, Kingo, rendem alguns dos melhores momentos do filme. Mas o mesmo já não posso dizer em relação aos Deviants. Estes são comprimidos a uma ameaça física, cuja presença serve apenas para fazer ponte entre as cenas dramáticas e reflexivas, para as de adrenalina. Indo e vindo sem grande substância relevante, para construir sobre um argumento já debilitado, e cheio de altos e baixos.

Quando tudo parece crer que haverá um desenrolar da força antagonista face aos Eternals, a esperança cai por terra.Pois dá prioridade, ainda que pela positiva, a um drama pessoal entre os membros da equipa dos protetores da Terra. É possivelmente um dos pontos mais sólidos a favor do filme. Embora haja muito que os una, há também muito que os separa.

Cada membro tem uma visão diferente da sua postura intervencionista ou não face à humanidade (mesmo que tal não se traduza em algo moralmente bom) e de como isso molda as suas alianças internas entre a equipa. Infelizmente, não é algo que é aproveitado ao máximo. Seja como for, ainda em relação aos Deviants, leva-me a outro ponto questionável, o uso do CGI.

O Marvel Studios está mais do que em casa quando se trata de uso, e abuso, de efeitos especiais. No entanto, em Eternals (2021) é um elemento muito oscilante. Quando foca no esplendor dos cenários, em planos abertos em contraponto com a iluminação, uma característica vincada da realizadora do filme, tudo funciona. Onde temos a fasquia técnica num patamar elevado, onde nunca antes esteve. No entanto, nas cenas de ação, particularmente logo aquando da introdução dos Deviants e seguintes aparições, a qualidade cai abruptamente.

Causa algum estranhar, não só pelo orçamento envolvido, como pelo conhecido selo de qualidade Marvel. Faltou algum cuidado ao nível de polimento na fase de pós-produção, de tal modo, que se por um lado tem certas cenas de tirar o fôlego, tem também a pior cena que envolve CGI do reportório do MCU. O que com isto tudo, me levou a considerar, fazendo questão de frisar, que Eternals (2021) é o ‘menos MCU‘ face a todos os outros vinte e cinco filmes que lhe antecedem. É uma proposta inversa de tudo aquilo que foi visto até agora, e não necessariamente pelo lado positivo…

A famosa fórmula Marvel está cá, mas em doses menores. Sendo que o resultado disto deve-se à escolha da diretora Chloé Zhao, que trouxe ao de cima uma abordagem do cinema de autor para o mundo dos heróis da Marvel. Como é natural isto cria quase que um choque de egos, vincado durante toda a experiência, entre a mão criativa e corporativa de Kevin Fiege e as particularidades autorais e cinematográficas de Zhao, vencedora do Óscar de melhor filme e realização com Nomadland (2020).

Em forma de analogia, faz-me lembrar quando se faz um trabalho a pares, em que cada um é encarregue de fazer metade do projeto, e no final junta-se tudo. O que acontece muitas vezes, é que as partes embora tenham o mesmo fim em mente, não casam bem entre si, tendo estilos e abordagens distantes. É precisamente o que acontece aqui. As particularidades internas da produção do filme são desconhecidas (até ao momento), mas claramente, que ao se tentar encaixar um estilo de realização autoral numa receita com ingredientes imutáveis, tem muito que se lhe diga.

Eternals (2021) acaba por ser esse filho híbrido, entre manter as manhas de sucesso do passado, simultaneamente aliando a uma abordagem disruptiva e moderna. Sendo uma experiência difícil recomendação aos amantes do MCU e dos seus derivados. No meio disto tudo, nesta viagem conturbada que mistura fantasia e ficção científica com uma pitada de comédia, há também drama e romance. A relação de Sersi e Ikaris é genuína, tendo um payoff adequado para a maneira como as personagens foram apresentadas desde o início. Contudo, ao nível da estrutura é mesmo dos poucos elementos que se ajustam à forma como a narrativa se encaminha no final.

Não posso entrar em mais detalhes para não revelar mais do que aquilo que devia, mas aponto que o terceiro ato é a parte que mais sofre com todos os fatores que mencionei até aqui. Onde cede às raízes da fórmula Marvel entregando um desfecho muito aquém e, acima de tudo previsível, mesmo quando apontava ser o completo oposto. Poderia rivalizar enquanto final mais surpreendente ao lado de Avengers: Infinty War (2018), mas não, não é o que acontece no filme. Não há um sentimento de conclusão congruente com tudo aquilo que foi levantado no filme, deixando muitas pontas soltas.

Eternals (2021) surgia no catálogo da Marvel, como a produção mais arrojada e ambiciosa, que iria modernizar, por fim, uma fórmula saturada. Onde podia muito bem estar aqui a falar de uma das melhores experiências do MCU, mas infelizmente é o contrário. Está longe de bater no fundo, mas igualmente longe de se colocar perto dos melhores, querendo com isto de dizer, que não é propriamente fácil de recomendá-lo, muito menos para quem já não tem simpatia com o subgénero de super-heróis.

Mesmo com o esforço visível da realizadora para encaminhar este universo para novos horizontes, com um elenco de luxo e muito potencial de inovação em cima da mesa, ao final do dia, acaba por ser, no pior dos casos, dos filmes que mais deixam a desejar do estúdio. Uma coisa é certa estas personagens voltarão, de alguma maneira no futuro, com ou sem Chloe Zhao, mas esperemos que quando regressarem lhes seja dada uma experiência digna do seu legado.

Positivo:

  • Elenco;
  • Conflito interno entre os membros dos Eternals;
  • Abraça o lado mais cósmico da Marvel;
  • Desenlace da relação entre Ikaris e Sersi;
  • Algumas cenas são cinematograficamente interessantes;
  • Tentativa de modernizar a típica experiência do MCU, mas…

Negativo:

  • …devolve uma longa-metragem, francamente, decepcionante;
  • O aproveitamento dos Deviants é um desastre;
  • Escassa construção e desenvolvimento de parte dos Eternals;
  • Momentos de exposição em demasia;
  • Falta de coesão entre a realização de Chloé Zhao e a fórmula do MCU;
  • Efeitos especiais com uma qualidade volátil ao longo do filme;
  • Terceiro ato e clímax;

João Luzio
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