Análise – The Green Knight

O ano já vai a mais de metade, e os grandes lançamentos de peso, aproximam-se a passos largos para as premiações, mais antecipadas, de 2021. Mas antes de lá chegarmos, um ou outro filme de grande qualidade, vai estreando nas sombras dos blockbusters do momento, como The Suicide Squad ou Black Widow. É este o caso que aqui temos, da mais recente produção de David Lowery, também conhecido por A Ghost Story (2017), que nos traz uma experiência diferente do habitual. Não é um filme para todos, irá com certeza agradar os mais cinéfilos, e desiludir quem espera uma experiência mainstream e digerível. Com isto em mente, vamos então à análise.

Esta longa-metragem que teve como base um romance medieval do século XIV, Sir Garwain And The Green Knight, oriundo do vasto leque de contos do King Arthur. Apesar de não estar muito a par da mitologia arturiana, o filme faz um ótimo trabalho em dar as ferramentas necessárias, para o espectador entender tudo aquilo que está a ser apresentado. Ainda que haja uma camada muito subjetiva, aberta a todo o tipo de interpretações. De uma forma geral, a narrativa foca-se em Gawain (Dev Patel), sobrinho do King Arthur (Sean Harris), fruto de uma relação com Morgan Le Fay (Sarita Choudhury), a sua mãe, considerada uma bruxa pelos restantes aldeões.

O jovem cavaleiro, pouco experiente e inseguro, vê-se confrontado com uma situação inusitada. Pois durante uma celebração na mítica Round Table (Távola Redonda) um ser misterioso intitulado de Green Knight (Ralph Ineson), instiga o grupo de cavaleiros que, no caso de lhe vencerem, receberão o seu machado verde, mas com um revés, pois dali a um ano, o vencedor teria de pagar da mesma moeda, sendo decapitado. Ao que Gawain, sedento por uma aventura heroica, digna do reportório do seu tio, é o único a responder à chamada. Ao decapitar a criatura, Gawain terá agora de embarcar numa jornada de auto descoberta e crescimento pessoal, em busca de cumprir a fatídica promessa.

Como se trata de uma história imbuída, no tal imaginário arturiano, Lowery não se acanhou e recheou The Green Knight com uma aura fantasiosa e épica, um pouco como Excalibur (1981), embora com os pés mais assentes no chão. Pois apesar de tudo, o diretor preferiu jogar também com a humanidade das personagem, dando um toque mais emotivo, à viagem de Gawain. Porque além de combater perigos irreais, enfrenta outros tantos concretos e identificáveis, como a insegurança, a indecisão, a cobardia e a falta de características do arquétipo heroico, como a coragem, a destreza e a lealdade.

Por ser uma narrativa que coloca os holofotes no sobrinho do King Arthur, este último e o resto do elenco de personagens, acaba por ficar em segundo plano, em termos de presença e desenvolvimento. Por um lado, esta decisão é compreensível, até porque segue à letra o trilho da obra onde foi inspirado, por outro lado, é pouco flexível, ao evitar pelo menos explorar um pouco mais das personagens secundárias, dando-lhes alguma relevância narrativa. Até porque grande parte destas personagens é interpretada por atores muito competentes, como Alicia Vikander (Ex Machina) ou Barry Keoghan (The Killing Sacred Deer).

Seja como for, não é de todo, nas questões narrativas, que o filme brilha, embora estas estejam adequadas. É pois na parte técnica que The Green Knight ganha outro estatuto, que o eleva no meio de tantos outros filmes deste ano. Primeiro não há como fugir ao elefante na sala, sim, o filme é da tutela da A24, uma empresa que se tem demarcado por apoiar, e sobretudo distribuir, filmes independentes, tais como Room (2015) ou The Lighthouse (2019) que se mostraram verdadeiros sucessos. Como tal, esta simbiose entre as partes envolvidas (diretor/estúdio) flui com naturalidade, e isso traduz-se em determinadas escolhas que agradarão os cinéfilos mais assíduos.

Nomeadamente a cinematografia. Não é assim tão comum, ver um trabalho assim tão polido, tanto ao nível de ambientes internos, como em ambientes externos, onde tudo ganha uma grandeza e profundidade diferente. Somos projetados num mundo rico em detalhes, quase como se fossemos uma testemunha dos eventos, ao lado de Gawain, é esse o nível da fasquia, que The Green Knight se coloca a entregar. Até porque quem ficou a cargo desta tarefa foi Andrew Palermo, que também trabalhou em A Ghost Story (2017), mas aqui o próprio, bate um novo recorde da sua carreira. É para todos os efeitos, o ponto que mais saí a favor da experiência do filme.

Portanto é uma experiência que mergulha o espectador, muito antes de lhe deixar fazer perguntas sobre aquilo que está a ver, sendo isso deixado para o clímax final. É por isso, um filme com maior ausência de cenas de ação ou surpresas/reviravoltas, é para ser desfrutado enquanto produção audiovisual de enormíssima qualidade, facto este que pode afastar o público casual de o ver. Por falar nisso, é também nos elementos sonoros que The Green Knight brilha novamente, a mixagem de som é invulgar, sendo por isso original, uma vez que foram tomadas determinadas liberdades criativas, que a conduziram, a tornar-se memorável, mesmo até quando já o tinha acabado de ver dias depois.

Esta junção de múltiplas vertentes técnicas bem trabalhadas como se não fossem por si só suficientes, são acompanhadas pela interpretação pujante de Dev Patel, que se afasta a milhas, de outros trabalhos seus, como Slumdog Millionaire (2008), que o colocou na ribalta, ou The Personal History Of David Copperfield (2020), mais recentemente. É, e arrisco dizer, a melhor prestação da carreira deste ator, consegue transmitir tanto da personagem de Gawain, fazendo e dizendo tão pouco. Ao contrário, nos momentos em que o faz, sai-se igualmente bem, até porque estava longe de ser fácil, se colocar nos pés do sobrinho de King Arthur.

Narrativamente falando, esta atuação só foi possível, graças ao extensivo espaço deixado em aberto pela estrutura do filme. Pois, sendo pautado por um ritmo lento, permite à personagem principal, crescer e se desenvolver, à medida que vai enfrentando todo o tipo de adversidades. É mais do que algo palpável, é uma viagem metafísica diria eu, que vem muito da edificação da personagem, que se faz, acima de tudo, no seu interior, ao invés de ser algo externalizado.

The Green Knight abre margem para inúmeras interpretações, para além daquele que puxa a mitologia arturiana. Cada um poderá ver esta jornada de auto descoberta, como algo simbólico ou até se rever nela, em alguns momentos. Até porque se for dirigida de forma literal perde grande parte da sua essência, e não é esse o suposto.

 

The Green Knight é, facilmente, o filme mais ambicioso da carreira de Lowery, mas simultaneamente, o mais difícil de recomendar. Está longe de ser um filme para todos, em especial para o típico público de massas, sendo por isso ideal para quem está familiarizado com as questões técnicas de cinema, daqueles que tanto pautam os inúmeros clássicos do meio.

Se a tocha intensa do filme são as questões visuais relacionadas e não só com a cinematografia, a interpretação de Dev Patel é pois, quem leva esta tocha nas mãos. Caso prefiram algo mais descontraído e literal, há muitos outros filmes por aí para ver, mas caso sejam fãs assíduos de cinema, The Green Knight é um filme obrigatório, ficando assim a minha total recomendação a essas pessoas.

Positivo:

  • Realização de excelência;
  • Cinematografia;
  • Ambientação e sonoridade;
  • Experiência arrojada no meio audiovisual;
  • Nova abordagem da mitologia do romance medieval de King Arthur;
  • Dev Patel entrega, possivelmente, o melhor papel da sua carreira;

Negativo:

  • Poderia haver maior espaço para as personagens secundárias;

João Luzio
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