Análise – Tell Me Why

Tell Me Why é o mais recente jogo da Dontnod Entertainment, o mesmo estúdio que nos trouxe Life is Strange. A fórmula não é muito diferente. Os protagonistas partilham uma habilidade sobrenatural e a história que vamos desvendar é muito mais complexa do que aparenta.

Algo que não é segredo, mas que pode passar despercebido é que os dois protagonistas são gémeos. No entanto, Tyler é uma pessoa transgénero, identifica-se como o sexo oposto ao do seu nascimento e este é um dos catalisadores da história que está dividida em três episódios. Tudo começa com uma cena muito mal explicada onde a mãe dos gémeos, persegue o jovem Tyler de apenas 10 anos pela neve com uma caçadeira nas mãos e Tyler implora para que a mãe não dispare. No momento seguinte somos transportados para a esquadra, ficamos a saber que a mãe morreu e Tyler é enviado para um centro de acolhimento de jovens, enquanto a sua irmã Allyson, fica sob a guarda do xerife local.

O início atribulado é revisitado algumas vezes ao longo da aventura e tudo começa a encaixar. O jogo leva-nos a percorrer a casa de infância dos irmãos, localizações da sua cidade natal e pessoas com quem interagiam nessa altura. Através de investigações, conversas e análise de objetos vamos encontrar as pontas soltas de uma história bastante perturbadora, onde nada é o que parece. A parte mais bela desta história é mesmo a desorganização humana causada pela convicção das várias personagens que habitam este mundo.

Quer seja pelas suas várias temáticas de cariz sexual, psicológicas, religiosas, entre outras, que conseguem facilmente ferir suscetibilidades, é necessário ter uma boa compreensão dos temas presentes em Tell Me Why. A história está repleta de situações caricatas, situações que nos fazem pensar e necessitam de interpretação. Aquilo que me apercebi no decorrer de Tell Me Why é que a maioria destas personagens foi construída como um humano e não apenas para fazer parte da história. Fiquei impressionado com a forma como cada personagem é desconstruída e analisada pelos gémeos.

Durante o decorrer do jogo vamos encontrar várias personagens recorrentes, assim como localizações. Através da escolha de diálogos as nossas relações vão ser desenvolvidas de diferentes formas. Vão surgir situações baseadas em algumas escolhas que realmente importam, sendo que a maioria das decisões são adornos pontuais, dando apenas origem a falas mais amigáveis ou corrosivas sem grande impacto no contexto geral da história. Isto é algo recorrente neste género de jogos, a liberdade de escolha aparente é uma quase ilusão, acabando sempre por ter que passar por elas. Existem pequenas exceções durante a narrativa, mas de modo geral a fórmula é a mesma que vimos em tantos outros jogos do género.

As interações são orgânicas aquando de momentos de exposição e um pouco mais forçadas no que diz respeito a resolução de puzzles. Esta mudança ajuda o jogador a perceber o que é pretendido para atenuar situações frustrantes. Mesmo quando os puzzles têm uma resolução com vários passos, nunca me senti perdido e os comentários dados pelos personagens presentes, ajudam, tal como os poderes de que falarei mais à frente.

Tell me Why, à semelhança de outros jogos do estúdio, conta com um poder sobrenatural. Os gémeos conseguem comunicar entre si e ver as memórias um do outro, tal como eles se lembram delas. Quer isto dizer que, em alguns momentos, teremos que escolher qual das memórias é a real. Este é um poder bastante interessante e dá a oportunidade de abordar personagens de forma diferente. Quer seja quando estamos a resolver mistérios ou pequenas tarefas, estes poderes fazem parte integrante da jogabilidade e narrativa.

Conforme a história se adensa, fiquei cada vez mais interessado em ver a sua conclusão, ainda assim senti um problema constante em Tell Me Why. O pacing não está no seu melhor. Parece uma luta constante entre exploração e conversa em vez de algo natural. Existem vários momentos no jogo em que ações secundárias interrompem de forma constante o objetivo principal, ou até momento que se arrastam sem propósito. No entanto, mesmo estes momentos acabam por ter conteúdo que não está lá apenas para encher, existe muito conteúdo secundário que acaba por fortalecer a narrativa para aqueles que estejam dispostos a procura-lo, desde notas a pequenos troll colecionáveis.

Visualmente o jogo tem momentos impressionantes com vistas magníficas, o mesmo não se pode dizer durante a maioria do tempo de jogo, passado em casas ou demasiado perto de objetos. Tell me Why utiliza o aspeto cartoon realista, já característico da Dontnod e as animações estão dentro do registo do género. A componente sonora do jogo foi muito bem trabalhada. Quer se esteja a falar das vozes ou da banda sonora, Tell me Why consegue entregar uma experiência consistente.

2300 é um jogo de aventura que prima pela sua narrativa e conteúdo. O mistério que o jogador terá que desvendar, está repleto de reviravoltas e pela altura em que os créditos do 3º episódio começam, terão tido uma experiência completa que foi moldada, em parte, pelas vossas escolhas. Um jogo que irá fazer as delícias dos fãs do género.

 

Positivo

  • Narrativa principal
  • Personagens bem caracterizados e desenvolvidos
  • Paisagens de tirar a respiração
  • Poderes dos gémeos

Negativo

  • Momentos supérfluos que se arrastam
  • Algumas escolhas sem o impacto devido

 

 

 

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