Análise – Severance T1

A Netflix começou a tendência de desenvolver produções completamente originais para o seu serviço através de House Of Cards. A concorrência também ganhou terreno na guerra do streaming, graças à sua oferta diversificada. Resultado disto é Severance, a nova grande aposta da Apple TV+ para 2022. Desde a estreia que esta série norte-americana captou as atenções, ao servir de chamariz para várias teorias, que a internet se dedicou a decifrar até mesmo após a estreia do último episódio. Ben Stiller afasta-se da atuação para realizar a sua primeira produção de nove episódios, dos quais dirigiu seis.

Sendo esta criada e escrita por Dan Erickson, marcando a sua grande estreia. Foi uma série que apareceu e rapidamente se espalhou em popularidade por todos os lados, um pouco pelo boca a boca, e já é um grande êxito, a confirmar-se, a melhor do ano até ao momento. Isto pode-se explicar se observarmos que Severance mistura dois tipos de séries de TV que o público adora: aquelas com humor negro e personagens marcantes (The Office/Fargo) e aquelas que abrem as portas a mistérios e teorias com teor de ficção científica (Twin Peaks/Dark).

A própria premissa da série deixa qualquer um curioso. Ambientado numa realidade onde as pessoas separam a sua vida pessoal da vida do trabalho de forma literal. Numa espécie de work-life-balance deturbado, onde existem duas personas de nós mesmos, sendo que nenhuma compartilha as vivências ou memórias entre si. Mas somente quem se decide sujeitar a este procedimento ao trabalhar na Lumon Industries, onde toda a ação principal ocorre. É impossível não associar este argumento a algo tirado de um episódio hipotético de Black Mirror, pois é sobretudo por essa atmosfera de ficção científica que a série se guia.

Se a premissa não foi cativante o suficiente, então os enigmas e perguntas que pairam no primeiro episódio serão definitivos em vos agarrar a assistir o episódio seguinte, e a não querer mais largar.  Na linha da frente do enredo está uma equipa do departamento de Macrodata Refinement, que nem eles, nem o público, sabe efetivamente o que fazem no dia-a-dia de trabalho (um pouco como a realidade não é verdade?). Nela temos Mark (Adam Scott), o protagonista, e os seus dois colegas, Dylan (Zach Cherry) e Irving (John Turturro).

O conflito surge na entrada da recém contratada Helly (Britt Lower) que estranha as nuances do começo da sua inédita vida enquanto persona corporativa, quase como um bebé recém-nascido que tenta assimilar tudo pela primeira vez. Isto resultado de ter a sua mente fragmentada em duas. Uma personagem muito importante, pois serve enquanto os olhos dos espetadores, em que ambos tentam entender o que se está a realmente a passar. O elemento distópico entra em jogo quando nos apercebemos que quem está lá dentro não pode verdadeiramente sair, pois automaticamente a sua persona pessoal, quem a pessoa realmente é, assume o controlo do corpo.

Olhando de fora parece ideal. Quantos de nós não gostávamos de puder estar sempre num estado de ócio, e deixar as preocupações do trabalho arrumadas a um canto? A série leva isto a outro nível mais profundo, levando o tema para discussão. Sendo que quem está lá dentro, é como se estivesse a viver num eterno purgatório, para sempre preso no trabalho. Levanta inúmeras questões filosóficas e de ética, que são abordadas na própria série, pelas personagens de Devon (Jen Tullock), irmã de Mark, e Ricken (Michael Chernus), o seu esposo e escritor de livros de autoajuda, que são contra esta prática, de rutura da mente, por parte da Lumon.

Ainda que a empresa crie um ambiente exageradamente acolhedor, tratando os seus funcionários de forma infantil, torna-se claro que há algo de muito errado e sinistro a desenvolver-se de fundo. Faz lembrar-me de The Truman Show (1998), onde a grande corporação tudo vê e controla.  Este mistério é bem intercalado, pois o argumento de maneira eficiente constrói situações em que o outie (quem está de fora da Lumon) de Mark vai descobrindo informações e desvendando a teia de conspirações, tentando de alguma forma libertar o seu innie (quem está dentro da empresa). Sem aparente comunicação entre as partes, irá ser uma tarefa complicada.

O elenco conta com a presença de dois ilustres atores de cinema, John Turturro (Do the Right Thing) e Christopher Walken (The Deer Hunter). Duas personagens que acrescentam bastante em termos da construção e dinâmica de um ambiente de escritório. Nesse aspecto, Severance tem vários pontos a somar numa ambientação impecável. Os cenários replicam toda uma estética corporativa, onde predominam as cores azuis, verdes e brancas, e onde reina um sentimento de claustrofobia. Noutras ocasiões, para demonstrar uma sensação de isolamento, o posicionamento da camera joga com grandes enquadramentos, mesmo que nada em especial seja para ser notado.

Chega até a dar alguns toques no surrealismo de David Lynch, pois de forma perspicaz o argumento, ao mesmo tempo que nos tenta convencer da plausibilidade do universo apresentado, quer também causar um desconforto no espetador. Incomodo este que tem o intuito de chamar à atenção, muitas vezes sob o manto de foreshadowing. Este nível de minuciosidade é raro de encontrar em produções do género, daí que Severance, tente emular uma experiência cinematográfica, sobretudo nos momentos dentro da Lumon, daí talvez que me tenha agradado tanto.

É daqueles casos em que um segundo visionamento é extremamente enriquecedor. Stiller opta pela linguagem visual face à exposição em forma de diálogo, uma preferência que pessoalmente concordo bastante. Nem sempre é preciso mastigar e explicar ponto a ponto ao espetador, deixar à interpretação e atenção de cada um, provoca outro tipo de experiência, que hoje em dia é cada vez mais escasso. Isto para dizer que Severance é uma série inteligente e trata o público como igual. Os seus nove episódios são concisos, não ocupam mais tempo do que é necessário, com uma história muito bem amarrada. Ficando uma última nota para a banda sonora, em particular a música tema, que fica na memória e insere-se devidamente na temática.

Onde a comédia satírica de escritório se encontra com o suspense psicológico e mistério está lá o mais recente sucesso da Apple TV+. Uma série obrigatória para quem gosta de uma boa conspiração, que levanta muitas questões atuais, na forma como a nossa sociedade poderá se tornar num futuro não muito longínquo. Não podia aguardar com a maior das expectativas para a segunda temporada, talvez seja mesmo esse o único defeito de Severance, ainda que com um final recompensante, fará qualquer um ficar com vontade de realmente desvendar o que a Lumon anda a esconder.

Positivo:

  • Enredo cativante do início ao fim;
  • Ambientação e imersão;
  • Mantém o espectador investido e interessado;
  • Banda sonora;
  • Direção de fotografia;
  • Qualidade dos aspectos técnicos beira uma experiência cinematográfica;
  • Catarse final bem executada…

Negativo:

  • …mas construída, em parte, só para fomentar expectativas desmedidas para uma segunda temporada;
  • Daí que o desfecho da série poderá não agradar a todos;

João Luzio
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