Análise – Bill & Ted: Face The Music

Durante as décadas dos anos 80 e 90, várias franquias nasceram, que apesar da idade, ainda mantém presença nos dias de hoje, como Ghostbusters ou Terminator. Como era habitual, nem todas recebiam o mesmo protagonismo, sendo que muitas das franquias acabaram por ficar «presas» na época em que estrearam. Para a surpresa de muitos, de entre as inúmeras franquias, foi a de Bill & Ted que ganhou uma continuação directa, agora em 2020. Contudo sendo esta, para a grande generalidade do público, uma franquia desconhecida, Dean Parisot, o director deste filme, tinha um trabalho díficil nas mãos.

Verdade seja dita, nem Bill & Ted’s Excellent Adventure ou Bill & Ted’s Bogus Journey, de 1989 e 1991 respectivamente, eram de alguma forma referências cinematográficas. Contudo, na época em que saíram, conseguiam entreter minimamente, sendo escolhas ideias para se assistir ao domingo à tarde na televisão. Ainda assim, não traziam nada de novo, nem no género de aventura, e muito menos no género da comédia.

De alguma forma, ao longo dos anos foi mantendo uma base fiel de fãs, que lhe permitiu receber, agora, uma segunda continuação, que estava prevista ser lançada no cinema, mas que devido à situação global provocada pelo COVID-19, resultou na chegada desta produção para ramo de streaming online. Não apenas isto, uma vez que o ator Keanu Reeves, está de regresso aos grandes ecrãs, graças à recente popularidade da saga John Wick, que resultou na sua consagração como uma das grandes estrelas de Hollywood, mas sobretudo, como um ícone da cultura pop atual.

Bill & Ted: Face The Music é sobretudo, um regresso de Alex Winter, que durante muito tempo esteve ausente do ramo da atuação. Outras personagens, como Death (William Sadler) ou Jonathan Logan (Hal Landon Jr.) regressam nesta nova aventura, sendo o restante elenco, uma novidade nesta saga. Tais como, Billie Logan (Bridgette Lundy-Paine) como filha de Ted ou Thea Preston (Samara Weaving) como filha de Bill, que são também uma espécie de contraparte mais nova da dupla de protagonistas. Abordando já este aspecto, ambas as filhas destes personagens, conseguem replicar bastante bem a essência dos filmes originais, uma vez que imitam fielmente as atitudes e gestos que outrora Bill e Ted faziam constantemente nos primeiros filmes.

Posto isto, a premissa principal desta continuação, leva Bill e Ted numa corrida contra o tempo, para escreveram uma música que terá a função de unir o mundo. Contudo, após vários anos de fracassos, a dupla de protagonistas parece ter perdido o charme, de outrora. O que por consequência, os leva, ao invés de tentarem compor por si mesmos a letra, a viajar para o futuro, de maneira a roubarem a tal música de si mesmos, numa altura em que esta já havia tido bastante sucesso.

Mesmo assim, esta missão está longe de ser fácil, pois além do factor tempo, têm de fugir de uma inteligência artificial que os persegue incessantemente. Para além disto, as suas versões do futuro que se irão deparar ao longo da aventura, serão um obstáculo, como também resultam nos momentos mais cómicos (o que já é dizer muito, pois estas cenas não são assim tão recorrentes). O pequeno cameo da personagem de Death, é muito bem-vinda, uma vez que se encaixa muito bem na história, para além de ser sempre uma adição carismática.

Apesar do subtítulo «Face The Music» esta aventura de Bill e Ted tem muito pouco deste elemento, o que acaba por ser um tanto discrepante com aquilo que prometia nos prévias promocionais. Nem mesmo, o desfecho final faz jus àquilo que queria entregar no início do filme, sendo algo bastante inferior. Contudo, Bill & Ted: Face The Music consegue ser igualmente rápido e engraçado como os seus antecessores. Mas como deixei subentendido, não inova, nem traz nada de novo, nesta saga de nicho do século passado.

Alex Winter consegue encaixar-se mais rapidamente na personagem, do que Keanu Reeves, no entanto, ambos cumprem o seu trabalho, e parece quase estamos a ver uma continuação que saiu ainda nos anos 90. Vale ressalvar, que nenhum destes atores, voltou ao projecto por questões financeiras, mas porque adoravam com o maior respeito possível, estas personagens e universo tresloucado. Por outro lado, a questão do pseudo conflito de casamento, entre estes protagonistas e respectivas esposas, não se encaixa nada bem, naquilo que é o estilo e direção artística do filme, sendo algo demasiado distante, até do tom que estabeleceu no começo.

Não há como esconder que esta produção é efetivamente de baixo orçamento, o que se reflecte nos elementos CGI e também nos cenários e respectivos adereços. Ainda assim, o carisma da dupla, consegue prender o espectador suficientemente bem, deixando o longe de notar algumas falhas técnicas. Ainda assim, alguém atento irá notar estes aspectos, de uma forma bem notória. Bill & Ted: Face The Music consegue ser também um filme de família, no sentido em que o build-up todo, giram em torno da passagem do testemunho da banda para as filhas dos protagonistas. O que até faz um melhor trabalho, do que Indiana Jones And The Kingdom Of The Crystall Skull de 2008.

Seja como for, Bill & Ted: Face The Music é um daqueles filmes que se encaixa bem na lógica de filmes da sessão da tarde, cuja decisão de o lançar diretamente em streaming, acabou por-lhe beneficiar mais, ao invés de ter chegado aos grandes ecrãs. Os fãs conseguirão extrair muito mais desta experiência, face ao espectador casual que entrar neste filme de pará-quedas. Mantém a essência do original, mas não é o suficiente para entreter as audiências de hoje, tendo em conta o padrão de qualidade exigido atualmente. Alex Winter e Keanu Reeves transmitem uma sensação de prazer e diversão, ao desempenharem estes papéis mais uma vez, o que até serve em benefício do filme.

Em suma, Bill & Ted: Face The Music apenas é recomendável para os fãs veteranos, ou a quem assistiu as obras que o antecedem na época em que foram lançados. Quanto à restante parte do público (que é a maioria) irá sentir-se bastante desiludida e confusa no final da experiência, sem perceber qual a verdadeira génese da saga Bill & Ted.

Positivo:

  • Serve como uma continuação fiel dos filmes originais;
  • Prestação de Alex Winter e Keanu Reeves;
  • Elementos narrativos nonsense;
  • Algumas decisões criativas;

Negativo:

  • Apenas recomendável aos fãs;
  • Não comunica tão bem com as novas gerações;
  • Não acrescenta nada de novo à franquia;
  • Efeitos especiais e aspectos técnicos sofrem com o baixo orçamento;

João Luzio
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