Análise: Dallas Buyers Club – O Clube de Dallas

Film-Toronto Preview

Dallas Buyers Club é um bom exemplo do que é feito no cinema independente. Indiscutivelmente, não é necessário um orçamento milionário para executar um grande filme. A receita é muito simples, implica um naipe de bons actores (que valorizam a qualidade em detrimento dos “zeros” no cheque), ideias “giras” para a realização e uma história emocional (não confundir com emocionante).

Dallas Buyers Club não é o maior candidato aos Óscares da Academia de 2014, mas respeita alguns parâmetros fundamentais do cinema contemporâneo, levantando questões sociais, entretendo, motivando os realizadores, que não estão na elite, a acreditarem nas boas ideias, desde que tenham algo para dizer.

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Inspirado em eventos reais, Dallas Buyers Club narra a história de Ron Woodroof (interpretado por Matthew McConaughey), um cowboy habituado a excessos (drogas e prostituas), que descobre possuir o vírus do HIV. A descoberta obriga ao início de uma odisseia, que visa melhorar a vida dos portadores do vírus, vítimas de uma legislação que ignora as necessidades dos doentes e vulnerável ao poder das indústrias farmacêuticas.

O elenco é composto por actores pouco conhecidos (Denis O’HareSteve Zahn Michael O’Neill), mas competentes. Quem se destaca é Jared Leto, que regressa à Sétima Arte após seis anos a perseguir outros sonhos. Leto interpreta Rayon, um travesti toxicodependente que adere ao negócio de Ron Woodroof. Tal como McConaugheyLeto é vítima de uma transformação visual incrível (Hollywood fica taralhouca quando os actores ganham/perdem peso), mas as interpretações de ambos os actores podem ser consideras de notáveis (Leto atinge “aquele momento” que determina a justiça da nomeação para o Óscar de Melhor Actor Secundário). Quem está muito bem é Jennifer Garner, que, sem ninguém dar por isso, desempenha uma das melhores interpretações da carreira.

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A realização de Jean-Marc Vallée não é brilhante, mas inteligente. A produção não possuía muitos recursos (poucos cenários e infraestruturas limitadas), mas Jean-Marc Vallée cumpre no que lhe competia, uma realização emotiva, concentrada nas reacções dos personagens e repleta de grandes planos, que convidam o espectador à intimidade do personagem (estás a tirar apontamentos Steve McQueen?). Por vezes, o neorrealismo do cinema moderno (camera ao ombro) é maçudo, mas tendo em conta a realidade em Dallas Buyers Club, é aceitável.

Nos restantes domínios técnicos, a direcção de fotografia é fabulosa (o que é que os directores de fotografia andam a comer hoje em dia?), com tonalidades frias e estéreis, mesmo no uso do amarelo e do vermelho. Realce também para o fabuloso trabalho de caracterização.

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Dallas Buyers Club não é um filme capaz de mudar a interpretação do mundo e da vida, mas é um filme bastante consistente, que respeita a narrativa clássica e aponta o dedo a questões sociais pertinentes (a saúde é um negócio, quando julgamos um direito). O personagem principal descreve uma transformação social e psicológica, atravessando uma jornada do ponto A, ao ponto Z. Curioso é o paradoxo de que o vírus da SIDA transformou o protagonista numa pessoa melhor.

Num ano diferente, Dallas Buyers Club ficaria à sombra dos grandes palcos, mas tendo em conta a mediocridade dos candidatos de 2014, é justo realçar a honestidade do filme em questão. É simples, não se coloca nos bicos dos pés para se fazer notar, nem acotovela a concorrência para chegar à frente. É uma história com enorme dimensão humana, com interpretações fantásticas e uma moral positiva.

 

Positivo

  • Dinâmica entre Matthew McConaughey e Jared Leto
  • História
  • Dureza dos temas
  • Arco do personagem principal

 

Negativo

  • Produção simplista
  • Apesar da fantástica interpretação de Jennifer Garner, não há necessidade para um interesse romântico
  • Por vezes, remonta à receita de Breaking Bad

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