Análise – Batman: The Long Halloween

(Nota: Esta análise irá incluir tanto a primeira parte, como a segunda parte do filme, lançadas a 22 de Junho e 27 de Julho, respetivamente)

Nos anos 90, o vigilante encapuzado mais conhecido da DC, estava num processo de reconstrução ao nível das comicsbooks. Vários artistas pegaram na personagem e moldaram-na à sua visão, entre eles, os já aclamados à época, Tim Sale, na parte gráfica, e Jeph Loeb, na história. Do trabalho de ambos saiu uma graphic novel (denominação para uma comicbook de luxo, mais complexa, com foco na narrativa) com treze edições entre 1996 e 1997.

Batman: The Long Halloween, conseguiu ser uma obra bastante premiada e elogiada. Por sinal até aos dias de hoje é considerada uma das melhores histórias no que toca ao vigilante de Gotham City. Por isso, não é de estranhar que tenha chegado uma adaptação cinematográfica da graphic novel em causa. Para além do facto de que a DC concluiu o seu universo cinematográfico animado no ano passado, com Justice League Dark: Apokolips War, e iniciado outro novo, a partir de animações como Superman: Man Of Tomorrow, a verdade é que se trata de uma ficção isolada.

Também não é novidade que a DC já publicou outras adaptações, de graphic novels aclamadas, como Batman: The Killing Joke (2016) ou Superman: Red Son (2020), portanto, entre o círculo de quem acompanha este tipo de produções, as expectativas estavam elevadas para esta, com base na segurança e qualidade que os outros filmes davam. Mas o que faz Batman: The Long Halloween ser tão especial? Bem, e indo já de encontro ao enredo, o principal factor está relacionado com a temática da história. Não se trata apenas de mais uma história do Batman, do bem contra mal, do ‘vilão do dia’, não.

É pois uma narrativa com ênfase no lado “detectivesco” da personagem, fugindo ao padrão da época. Trazendo ao de cima um lado mais sombrio deste mundo, com mistérios, corrupção e reviravoltas à mistura. A ambientação rege-se pelos primeiros tempos de atividade do morcego encapuzado, onde a cidade é governada, nas sombras, por uma rede de criminosos da mafia italiana: a família Falcone e Maroni.

Contudo, surge um invulgar promotor público, que não se deixa envolver nesta teia de corrupção e com grande senso de justiça, Harvey Dent. Consequentemente ocorre o pontapé de partida do primeiro acto, que é a morte de um dos membros da família Falcone, o sobrinho do chefe da família, Johnny Vitti.

Com base neste acontecimento, seguem-se outros similares, onde são assassinados mais membros da família de Falcone, que ocorrem todos num feriado, daí que o potencial assassino tenha sido apelidado de Holiday Killer. Toda esta sequência irá resultar na união pouco convencional, entre Batman, Jim Gordon, capitão da polícia de Gotham City e Harvey Dent, onde almejam não apenas capturar o dito criminoso, como cessar a continuidade do império das famílias italianas na cidade.

A obra original, por ter treze edições, acaba por incluir um assassinato em cada uma delas, tendo em mente um feriado americano nacional, contudo, aqui no filme de duas partes, esta estrutura cai por terra. Dando lugar a algo mais linear, e sobretudo, mais acelerado, que pouca margem de manobra deixa para explorar e construir as personagens principais e secundárias.

Esta situação acaba por quebrar 1/3 daquilo que faz graphic novel ser tão boa, que é mesmo o tempo dedicado a cada um dos intervenientes e na sua relação com a onda de assassinatos. Menosprezando por isso um desenvolvimento digno daquilo que seria esperado desta adaptação. Como se não bastasse, alguns vilões marcantes da galeria do Batman, que também dão as caras na obra homónima, têm aqui muito mais tempo de exposição do que seria de esperar, cortando por isso tempo de antena, que poderia ter sido usado para colmatar as falhas narrativas que mencionei anteriormente.

Por um lado, é sempre bom marcarem presença, nomeadamente Joker, mesmo assim como referi foi um elemento mal usado. Posto isto, aqui na adaptação a direção até que não desilude e consegue, mesmo com debilidades narrativas, criar um clima de suspense em torno de qual é a verdadeira identidade do assassino. Proeza esta que surpreende, pois Chris Palmer, diretor do filme, é novo neste campo. E como é impossível de não fazer, quando se trata de uma adaptação, é fazer comparações. E sem rodeios, digo desde já, que com as mudanças pela negativa que aqui foram feitas, quebram pela metade aquilo que poderia ter sido uma adaptação muito boa.

Não que tenha algo contra alterações (até porque na maior parte das vezes são para melhor), mas quando estas vêm para estragar algo que por si é de extrema qualidade, não me parece justo não considerar a ausência de uma abordagem mais literal da obra, que seria win-win para ambos os lados. Considero assim que quem desconhece totalmente a obra original, irá saborear muito mais o filme, do que quem está familiarizado, estando por isso a minha opinião por parte deste último de alguma forma tendenciosa.

Há até espaço, tal como aconteceu antes, para uma boa homenagem aos filmes de mafia, sobretudo, à trilogia The Godfather, onde as influências e referências são bastante palpáveis. E isso acaba por contribuir a favor da generalidade da produção. Fico feliz que Palmer não tenha descartado este elemento, que aqui até acabou por ajudar muito mais, embora, quem desconheça estes filmes de Francis Ford Coppola acabe por passar indiferente, mas fica aqui o mérito reconhecido.

Também relativamente ao traço da animação fui contra, mas por uma razão muito lógica. Se considerarmos que é possível utilizar um estilo artístico próximo da obra onde se baseia, tal como The Dark Knight Returns (2012-2013) fez, é de apontar o facto de aqui não se ter seguido o mesmo caminho. Ainda para mais, porque a graphic novel tinha um traço tão único e marcante, que seria algo criativamente tentador não trazer para o ramo cinematográfico, no entanto, a direção criativa, apostou no seguro, com um traço próximo aos filmes anteriores.

Mas claro, ao contrário do que possa parecer, nem tudo é assim tão mau. As personagens, embora necessitassem de maior exposição, conseguem captar atenção e ser bons estudos de personagens, especificamente quanto a Harvey Dent, que assume contornos mais sérios. Também Catwoman ganha maior destaque aqui no filme do que antes, mesmo com algumas mudanças pautadas em diálogos e cenas extra.

Por outro lado, Bruce Wayne/Batman acaba por ficar, não ironicamente, nas sombras do roteiro, não levando a sério o seu verdadeiro potencial enquanto detective. Sendo que até em alguns momentos o espectador chega mais rápido à solução do que o protagonista, ao contrário do que acontece na graphic novel, onde o pensamento de ambos anda ao mesmo passo.

As cenas da ação estendem-se mais aqui, abrindo planos maiores, com foco na coreografia em tela. Mesmo que na generalidade, tenham sido poucas. Fora isto, destaca-se uma já esperada, boa prestação ao nível do trabalho de vozes. Pois a DC sempre habitou os fãs, nas suas produções animadas, a um elenco competente, capaz de emular o espírito das encarnações das grandes telas, não desiludindo.

Por último, deixo em aberto, quanto à longevidade, pois embora compreenda o porquê de ter sido partido em dois, a opção de poder ter sido transformado numa produção episódica teria caído que nem uma luva, levando em conta a estrutura e sequência da narrativa.

Com muitas expectativas em cima, e mesmo com um bom historial de adaptações conseguidas, Batman: The Long Halloween acaba por devolver uma experiência muito distante da original, que acaba por comprometer a qualidade de uma das melhores histórias algumas vezes criadas da personagem.

Como última nota, deixo a ressalva, tal como se tornou hábito da minha parte em análises de adaptações, que compensa muito mais ficar a conhecer a graphic novel, uma vez que terá um impacto no leitor, muito diferente  do que aquele que o filme dará, sendo a diferença bastante visível para quem consumiu ambos.

Positivo:

  • Direção de Chris Palmer;
  • Trabalho de vozes;
  • Personagem de Harvey Dent;
  • Mistério bem construído;
  • Filme adequado para quem nunca leu a obra original…

Negativo:

  • …mas é uma adaptação francamente inferior;
  • Ritmo corrido;
  • Certas alterações criativas destoam da essência da obra;
  • Bastantes mudanças face ao original, que pouco acrescentam, sem grande payoff;

João Luzio
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