Recuando até ao início do projecto PróximoNível, o compromisso assumido na rubrica de Cinema, consistia na análise e observação privilegiada da evolução dos videojogos no Cinema. O caminho não seguiu a proposta inicial, mas a jornada tem sido interessante. Aliás, desde o início da rubrica, o único filme baseado num videojogo a chegar aos cinemas portugueses foi Silent Hill: Revelação (fraquinho). Contudo, existe uma esperança optimista nas adaptações de Warcraft e Assassin’s Creed.
Com o sucesso da franchise Velocidade Furiosa (um filme inspirado no conceito de Need for Speed), fazia sentido um filme de Need for Speed baseado em… Need for Speed, embora o jogo original da EA (cheguei a jogá-lo na Sega Saturn) não respeitasse o título (os carros andavam a velocidade moderada e o jogo estava no mercado para ombrear com Porsche Challenge da PS1). Porém, o conceito ficou na retina e prometia uma franchise mais forte nos anos vindoiros. O mundo dos videojogos inclinou para Gran Turismo e Burnout, mas a saga Need for Speed voltou à ribalta com o conceito Underground, o derradeiro enquadramento que o público pretendia. Afinal a velocidade não era a recompensa máxima, os meliantes do sofá queriam fugir à polícia e desempenhar façanhas artísticas/arriscadas. É mais ou menos isso que Need for Speed – O Filme tem para oferecer.
Tobey Marshall (interpretado por Aaron Paul de Breaking Bad) é um jovem piloto/mecânico que participa em corridas de carros. Devido aos problemas financeiros, e ao apelo da adrenalina, Tobey aceita competir com Dino Brewster (interpretado por Dominic Cooper) numa corrida ilegal, da qual resulta a morte de Pete (interpretado por Harrison Gilbertson). Apesar da responsabilidade de Dino no acidente, o personagem foge, ficando Tobey com a culpa. Tobey passa uma temporada na prisão, regressando com o intuito de limpar o nome e castigar Dino.
O elenco de Need for Speed é interessante. Aaron Paul e Dominic Cooper dispensam apresentações, bem como a restante equipa, que inclui Kid Cud, Imogen Poots, Ramon Rodriguez, Dakota Johnson e Michael Keaton (acréscimo de qualidade).
A realização de Scott Waugh está de acordo com os pergaminhos do realizador, ou seja, bastante agitada, enérgica e influenciada pelo estilo de Michael Bay. A comparação com James Wan é inevitável, apesar da realização madura de Velocidade Furiosa, Scott Waugh não se limitou ao “certinho” e arrisca com algumas iniciativas interessantes, nomeadamente, zooms com travelling em sentido oposto e utilização da GoPro.
A edição de Need for Speed parece retirada de um videoclip, com planos em microssegundos e sensação de dinamismo. A mistura sonora, fundamental para um projecto deste nível, também está positiva, mas o que salta à vista é a formidável direcção de fotografia. Que tratamento de imagem notável, sobretudo nos ambientes nocturnos, com especial atenção para as luzes no panorama urbano.
Será impossível produzir um bom filme inspirado em videojogos? Parece que sim, tendo em conta que nem a equipa da DreamWorks chegou lá. Need for Speed não é um mau filme per si, mas poderia estar muito melhor. Para tal, seria necessário compreender o que está bem em Velocidade Furiosa. Apesar da tontice da franchise, são personagens fortes e carismáticos. É motivo para corar, mas Vin Diesel e companhia conseguem manter viva a chama do hipnotismo da franchise.
Em Need for Speed, o foco está nos carros e nas cenas de acção. Não é mau e, crédito seja feito, respeita a essência do videojogo, mas o protagonismo deveria estar no condutor (nós no videojogo e Tobey Marshall no filme). Outro tiro ao lado é a forma como os eventos encaixam (não confundir com a trama, que está aceitável). Need for Speed – O Filme teria vencido se a história começasse, como dizia Aristóteles, In medias res. Isto é, com o desejo de vingança assumido desde o início. Se o vilão é evidente mal entra em cena, não havia necessidade para construir a história até ao Inciting incident, momento que nem sequer obriga o protagonista a atravessar por um grande dilema no plot point. Se as causas e as consequências tivessem sido conjugadas, o filme teria evitado as temporadas na prisão, que decorrem num estalar de dedos, e alimentado o desejo de vingança no espectador.
Outro problema do filme é Aaron Paul. O actor ainda não descolou do personagem de Breaking Bad, e, para agonizar ainda mais, a produção tentou aproveitar a popularidade de Jesse Pinkman em favor de Need for Speed. Não foi uma boa aposta, pela postura, visual do personagem e enquadramento, o espectador fica com a sensação de que Need for Speed é a continuação do último episódio de Breaking Bad.
Need for Speed – O Filme tem momentos com qualidade, os set-ups resultam e o clímax é recompensador. O romance funciona muito bem, apesar de colado com cuspe num primeiro momento. Se compararmos Need for Speed com os restantes filmes baseados em videojogos, Need for Speed é uma obra-prima, mas há um concorrente forte e experiente na competição cinematográfica com carros em alta velocidade. Teria sido tão simples, bastava um protagonista tridimensional e uma narrativa organizada de forma diferente.
Positivo
- Realização
- Clímax
- Automóveis
- Romance
- Michael Keaton
Negativo
- Protagonista
- Organização da narrativa
- Incoerências na realidade estabelecida
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