Análise – Offline (Por Ana [Hermy] Pinto)

Realizador: Guilherme Trindade
Guião: Guilherme Trindade, João Harrington Sena
Elenco: Duarte Gomes, Iris Cayatte, Sara Barros Leitão, João Nunes Monteiro, Emília Silvestre, Ana Bustorff
Género: Tentativa de comédia/retrato social/auto proclamado “Slice of Life”
Duração: 1h 57m

A Academia RTP é uma escola/incubadora de projetos para jovens da área dos multimédia e de onde saem muitos conteúdos, uns mais interessantes que outros e que, de outra forma, talvez não vissem a luz do dia. De entre as produções desta geração de jovens criativos, saiu o filme que desta vez está em análise: Offline.

Resultado da ideia original de Ivone Rodrigues, Offline é um filme que pretende ser uma abordagem ilustrativa bem humorada às gerações mais jovens (entenda-se, até aos 30/40 anos) que cresceram numa era já dominada pela tecnologia e que foi moldada muito graças à sua influência nos mais diversos setores da vida quotidiana.
A narrativa principal gira em torno de dois personagens aparentemente opostos: Tiago, um professor de história com imensa resistência às tecnologias e que não tem um computador ou sequer um telemóvel. Está num constante conflito entre o “não preciso para nada destas modernices/vocês já não sabem aproveitar a vida no mundo real” e o “está muita coisa a passar-me ao lado porque não estou a par das outras pessoas/a minha chefe vai despedir-me porque falto a reuniões convocadas por e-mail”.

No pólo oposto está Rita, que é vizinha de Tiago, e é programadora informática. Trabalha a partir do seu quarto e vive sobrecarregada entre o seu ganha-pão, as distrações – com as quais todos estamos tão familiarizados – que existem pela internet fora, o desenvolvimento do seu próprio jogo e manter algumas funções básicas, que aparentemente não são prioritárias. Outra das características desta personagem é o seu problema de “social anxiety”, que faz com ela evite ao máximo qualquer contato com outras pessoas, principalmente em contexto de cara-a-cara. Tal como seria de esperar, a interação de ambos ao longo do filme resulta não só de um interesse romântico, mas também do caminhar para um ponto de equilíbrio entre estes dois mundos que representam excessos pouco saudáveis.

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Entretanto, temos um leque interessante de personagens secundários e que, para o bem do desenvolvimento de todos os temas que se pretendiam abordar, têm quase tanto destaque como os ditos protagonistas. Existe a representação dos Youtubers – os novos entretainers – com os personagens “Sailor Spoon” e “Davintji”, dando uma amostra do que é a cultura pop predominante na era digital, com os videojogos e a cultura japonesa a dominar as formas de entretenimento prediletas desta geração. Depois temos os restantes jovens, que utilizam as tecnologias para extender mais ainda a sua rede social e estabelecer relações entre si. Estabelecer, efetuar e terminar. Tudo online!… no Offline. [Desculpem, escapou-me…]

Offline está recheado de referências ao universo da cultura pop, internacionais, sim, mas tem também alguns – vá, muitos – cameos de product placement de origem nacional, tais como o filme do Capitão Falcão, os jogos Smash Time e Strikers Edge e a plataforma de crowd funding PPL. As referências estão por toda a parte que se veja neste filme, desde sequências que nos remetem para o videoclip “Bad Day” de Daniel Powter, mas com outra música de fundo, a apontamentos para intensificar macros à là Scott Pilgrim, props espalhados pelos cenários ou mesmo atividades dos personagens.

Parece-vos tudo bem até agora? Apetecível? Das duas uma: vão já ver o filme ou continuem a ler, porque daqui para a frente é sempre a descer.
Começo por falar do ritmo, não tanto do filme como um todo, mas da justaposição de cenas absurdamente longas que não acrescentam nada à narrativa, com outras em que o enredo nos é enfiado tipo colher pela goela abaixo (sim, provavelmente a culpa é tua, Sailor Spoon; deve ser o teu super poder). Não é que eu não goste de África dos Toto ou de ver o pôr-do-sol em speed motion – é um plano que dá uma trabalheira do caraças para conseguir, acredito – mas com tantos temas interessantes em que foram pegar, muitos deles beneficiariam de ter mais tempo de antena para ser explorados devidamente.

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Pegando por aqui, este é outro dos pontos que me “encanita”: para mim, a beleza da 7ª arte é ver pegarem num tema e ilustrarem-no com situações práticas das coisas a acontecer e deixar que o seu desenlace nos faça suscitar uma opinião sobre o mesmo. Ora, em Offline muitas das vezes quando se quer abordar um assunto pertinente, colocam-se duas personagens a contracenar, falando seriamente sobre o tema, sendo que cada um contribui para acrescentar diferentes argumentos para o mesmo ponto de vista, ou um deles tem apenas como função encadear os pensamentos do outro com frases e/ou perguntas meio apatetadas. Como uma conversa que se tem entre amigos, e a qual já tivemos, talvez, mais do que um par de vezes. Mas agora vamos ver essa conversa, só que em filme. [sorriso sarcástico para o leitor]

Outro dos problemas do filme – e eu sei que é um projecto a roçar o amador (é indie, vá), mas ainda assim houve gente da RTP que o aprovou como sendo profissional o suficiente para passar no principal canal público nacional – é a representação. Ou a direção de atores. Ou as duas! Há nomes sonantes no elenco, como Ana Bustorff e Emília Silvestre, com um vasto currículo, mas os seus papéis estão naquele limiar entre o exagerado e o realista que dá a sensação que o diretor de atores às tantas se acobardou com o currículo das senhoras e não querendo ser “o mandão”, diz um “Ah, ya, ‘tá ótimo assim. Obrigado. Último take!”. Outros atores também já com alguma pedalada também não parecem fazer melhor brilharete por semelhantes motivos. E depois há o diretor de casting, que decidiu ser ele próprio um ator. E não obstante ter uma presença bastante carismática, o seu exagero – apesar de provavelmente ser isso que pretendiam para o personagem – deixa algum desconforto ao espetador. E depois temos o cúmulo: a turma do professor Tiago. Talvez um trabalho de edição diferente não desse tanto a sensação de que os miúdos estavam à espera de uma deixa para dizer algo ou reagir em uníssono, mas convenhamos que mesmo a nível individual, acho que só a miúda graxista de óculos terá alguma esperança de futuro nestas andanças. Há, no entanto, alguns bons momentos, com destaque para as interações entre Rita e a sua BFF Sailor Spoon, quem têm momentos que nos parecem mais genuínos.

Para concluir – desculpem a maçada – deixo aquilo que é para mim o resumo da minha opinião geral sobre o filme: não tem exagero suficiente para ser uma sátira bem sucedida nem está realista o suficiente para funcionar como retrato social. Ou, para resumir nas palavras do Tylarth: Cringe, The Movie.

Positivo

  • Temas interessantes
  • Referências que nos deixam no mínimo com um sorriso
  • Foi um bom esforço, equipa!…

Negativo

  • Decisões de realização/fotografia estapafúrdias
  • Acting fraco e constrangedor em muitas ocasiões
  • Não conseguiram atinar com o tom do filme (não é comédia, não é drama)
  • Não chega para por quem está de fora a pensar sobre estes assuntos com mente mais aberta, porque tudo parece meio patético
  • Ritmo da narrativa que varia entre lento inútil e rápido de mais
  • Cringe, cringe, cringe, por favor! Quase dá para falecer.

pn-razoavel-2016

Alexandre Barbosa

Também conhecido como Tylarth, sou um grande fã de videojogos no geral e séries de TV.

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Alexandre Barbosa

Também conhecido como Tylarth, sou um grande fã de videojogos no geral e séries de TV.

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    Proponho adicionar um ponto de destaque: – Possui a música Africa dos Toto.