Rhydon é o “Verdadeiro” Primeiro Pokémon! – Sabiam que…?

Sabiam que, embora o Bulbasaur seja o dono do lugar #001 no Pokédex e o Mew seja o último da lista original, nenhum deles foi o primeiro a ser criado pela Game Freak? Se abrirmos as entranhas do código de Pokémon Red e Pokémon Green, (dos quais podem ler a nossa análise à versão Nintendo Switch aqui!) descobrimos que o primeiro Pokémon alguma vez programado foi o Rhydon. Na ordem de indexação interna (o sistema que o jogo usa para identificar cada criatura), o Rhydon ocupa o índice 01, enquanto o Bulbasaur aparece muito mais à frente, no 153.

Isto acontece porque o design original de Capsule Monsters (o nome provisório de Pokémon) era muito mais focado em monstros inspirados em dinossauros e kaijus (aqueles monstros grandes japoneses). Ken Sugimori, o designer principal, criou o Rhydon como o modelo de base para testar como as criaturas se comportariam em combate e nos menus. É por esta razão que, se repararem bem, as estátuas que decoram a entrada de quase todos os Ginásios e Liga em Kanto têm a forma exata de um Rhydon; é uma espécie de homenagem silenciosa ao “Pai” de todos os Pokémon.

Mas a curiosidade fica ainda mais estranha quando olhamos para os espaços vazios. O índice interno de Pokémon Red e Pokémon Blue não termina no 151; na verdade vai até ao 190. Isto prova que a equipa da Game Freak teriam planeado originalmente 190 Pokémon para a primeira geração. No entanto, devido a limitações de espaço no cartucho do Game Boy e a decisões de equilíbrio de jogo, 39 dessas criaturas foram removidas à última hora, sendo algumas “guardadas” para a geração seguinte (Johto).

É aqui que surge o famosíssimo MissingNo. (Missing Number). Ao contrário do que muitos pensavam nos anos 90, o MissingNo. não é apenas um erro aleatório de gráficos corrompidos. Ele é, na verdade, o “fantasma” desses 39 Pokémon que foram apagados. Quando o jogo tenta aceder a um dos índices entre o 1 e o 190 que não tem um Pokémon atribuído, ele recorre a um código de salvaguarda que gera aquele aglomerado de pixéis. O MissingNo. é, tecnicamente, o espaço vazio deixado pelos Pokémon que nunca chegaram a ver a luz do dia em Kanto.

Outro detalhe obscuro é o facto de muitos dos Pokémon que conhecemos hoje terem sido “separados” das suas famílias originais neste processo de retirada “forçada”. Por exemplo, existem evidências no código de que o Kangaskhan estaria relacionado com a linha evolutiva do Cubone, ou que certas formas bebés já estavam planeadas. Ao remover os 39 Pokémon, a Game Freak teve de reorganizar o Pokédex de forma a que a progressão fizesse sentido para o jogador, escondendo as lacunas através da ordem numérica que ficou finalizada.

Esta estrutura interna explica também a razão pela qual o jogo é tão instável e propenso a falhas. Como o motor do jogo ainda “espera” encontrar 190 bichos, qualquer manipulação de memória (como o truque do velho em Viridian City) pode fazer com que o sistema tente ler dados onde eles já não existem, resultando em encontros com criaturas de nível 255 ou fazer o glitch dos itens infinitos. É o típico castelo de cartas digital que se mantém de pé por um fio.

Apesar de ser uma falha de programação, este bug tornou-se uma das partes mais ricas da cultura dos videojogos. O facto de o Rhydon ser o #1 e o MissingNo. ser o resto que ficou para trás, transforma Pokémon Red e Pokémon Blue em algo mais do que simples jogos; são autênticas escavações arqueológicas onde cada erro conta uma história sobre o que o jogo poderia ter sido.

É irónico pensar que, enquanto milhões de crianças tentavam “apanhá-los todos”, o próprio código do jogo estava a tentar esconder o facto de que muitos já tinham sido perdidos para sempre antes mesmo de cadacartucho chegar às lojas.

Daniel Silvestre
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