Review – Octopath Traveler 0

Octopath Traveler 0 chegou ao mercado no final de 2025 como uma prequela ambiciosa que redefine os alicerces da franquia HD-2D da Square Enix. Sim, eu sei que demorou um pouco mais a analisar, mas tinha de haver espaço para o último grande JRPG de 2025. Originalmente inspirado nos conceitos do título mobile: Champions of the Continent, este jogo foi completamente reconstruído para consolas e PC, eliminando mecânicas de gatcha e microtransações para oferecer uma experiência de RPG tradicional de alta qualidade. Situado anos antes do primeiro jogo, o título transporta os jogadores de volta ao continente de Orsterra, mas desta vez com uma estrutura narrativa e de jogabilidade que se afasta significativamente das edições anteriores.

A maior inovação começa logo no início, com o sistema de criação de personagem. Pela primeira vez na série, vocês não escolhem um dos oito heróis predefinidos para começar a jornada. Em vez disso, criam um avatar personalizado, conhecido como o Portador do Anel, definindo a sua aparência, voz e até motivações iniciais. Este protagonista silencioso serve como o centro gravitacional de uma história focada na reconstrução da sua terra natal, Wishvale, que foi devastada por vilões em busca dos anéis divinos. Esta mudança confere um tom mais pessoal e focado à narrativa, resolvendo a crítica comum de que os personagens dos jogos anteriores se sentiam desconectados entre si.

A estrutura da história é dividida em três arcos principais que representam a Riqueza, o Poder e a Fama. Cada caminho apresenta um vilão memorável e genuinamente cruel, como o dramaturgo Auguste, cujas ações dão ao jogo um tom muito mais sombrio e maduro do que estamos habituados a ver em Octopath anteriores. A liberdade de abordar estes arcos na ordem que preferirem mantém-se, mas a escrita sente-se mais coesa, pois o destino de Wishvale serve como um fio condutor constante que une todas as vossas ações no mundo de Orsterra.

O sistema de combate foi expandido para permitir o controlo de oito personagens em simultâneo no campo de batalha. Divididos em duas linhas de quatro, os combatentes da frente executam os ataques e sofrem o dano direto, enquanto a linha de trás recupera energia e aguarda o momento estratégico para intervir. O clássico sistema de Break e Boost continua a ser o pilar central, mas a gestão de oito membros exige uma camada extra de planeamento táctico. Saber quando trocar um guerreiro já cansado por um suporte fresco vindo da retaguarda é a chave para vencer os confrontos mais exigentes do jogo.

O recrutamento de aliados é outro ponto de destaque, com mais de 30 viajantes únicos que podem ser convidados para a vossa equipa ou para habitar em Wishvale. Cada um destes personagens possui a sua própria história e habilidades de campo, as Path Actions, que permitem obter itens, informações ou assistência em batalha. Embora nem todos os aliados recebam o mesmo tempo de antena narrativa que o protagonista, a diversidade de especializações e sinergias que eles trazem para o combate de oito jogadores oferece uma profundidade estratégica quase inesgotável para quem gosta de otimizar equipas.

A reconstrução de Wishvale introduz mecânicas de construção de cidade que funcionam como um excelente complemento ao RPG. Através de uma grelha intuitiva, podem colocar edifícios, quintas e decorações que não servem apenas para fins estéticos. Evoluir a cidade desbloqueia recursos vitais, como novas armas, itens de cura raros e até dojos onde os aliados que não estão na equipa ativa podem treinar e ganhar experiência. Há um ciclo de progressão satisfatório entre explorar o mundo para encontrar materiais e ver a vossa aldeia crescer e prosperar, algo que já não se via desta forma desde Dark Chronicle.

Visualmente, o estilo HD-2D atinge um novo patamar de detalhe e polimento. Octopath Traveler 0 utiliza o motor Unreal Engine 4 de forma impecável, com efeitos de partículas, iluminação dinâmica e profundidade de campo que dão vida às florestas nevadas e desertos de Orsterra. A banda sonora, novamente composta por Yasunori Nishiki, é soberba e consegue evocar nostalgia enquanto introduz novos temas épicos que se adaptam perfeitamente ao tom mais dramático desta prequela. A produção técnica é irrepreensível, misturando o charme dos pixéis clássicos numa apresentação moderna.

No que toca ao desempenho técnico, o jogo brilha particularmente nas plataformas de nova geração. Na PS5 e no PC, é possível atingir resoluções de 4K com taxas de fotogramas que chegam aos 120 FPS, garantindo uma fluidez total nas animações de combate. Os tempos de carregamento são quase inexistentes graças ao uso de unidades SSD, o que torna a exploração de masmorras e cidades muito mais ágil. A otimização geral é sólida, permitindo que mesmo computadores mais antigos consigam correr o jogo com uma qualidade visual satisfatória. Para os utilizadores da Nintendo Switch 2, a experiência é muito positiva, com o jogo a correr de forma estável a 60 fotogramas por segundo na resolução máxima da consola. Existe uma diferença notável na densidade de objetos que podem ser colocados em Wishvale em comparação com a Switch original, mas o hardware mais recente da Nintendo consegue manter a integridade visual e a fluidez necessária para um RPG desta escala. A portabilidade da consola continua a ser uma das formas mais agradáveis de consumir este tipo de aventura longa.

A versão PC oferece as maiores opções de personalização, permitindo ajustar sombras, efeitos de pós-processamento e suporte para ecrãs ultra-wide. Esta flexibilidade é ideal para quem deseja apreciar todos os detalhes da arte HD-2D num monitor de alta fidelidade. O jogo suporta comandos e também uma interface de teclado e rato bem adaptada, embora o género peça claramente o uso de um comando para uma navegação mais natural pelos menus de batalha e de construção.

O desempenho em dispositivos portáteis como a Steam Deck é classificado como verificado e funciona de forma exemplar. Como se trata de um jogo que não exige processamento gráfico extremo de polígonos 3D complexos e sim pixel art, a Steam Deck consegue manter uma excelente autonomia de bateria enquanto corre o jogo a 60 FPS estáveis. A natureza episódica das histórias dos vilões e a gestão da cidade tornam Octopath Traveler 0 um companheiro de viagem ideal, permitindo sessões curtas de jogo que contribuem para o progresso geral da vossa reconstrução de Wishvale.

Assim sendo, Octopath Traveler 0 é uma evolução necessária e bem-vinda para a série. Ao trocar a estrutura de oito histórias independentes por uma narrativa centralizada e personalizável, a Square Enix conseguiu criar um RPG mais coeso e emocionalmente impactante. O sistema de combate de oito personagens e a mecânica de construção de cidade elevam a jogabilidade a um novo nível de entrega. É um título que vale bem a pena tanto para veteranos da franquia como para novos jogadores que procuram uma porta de entrada épica e polida no mundo do HD-2D.

Daniel Silvestre
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