Uma vez li que, se andássemos muito depressa (ainda mais do que no Mégane RS), o tempo andava para trás. É algo parecido ao que estou a sentir, desde que comprei a PS Vita, no final do ano passado.
A PS Vita, como sabem, é uma consola portátil toda para a “frentex”. Faz tanta coisa que até se tornou um pouco incompreendida. Não é a mais vendida, a mais barata ou a mais acarinhada. Mas é boa, bonita, poderosa e eu gosto dela. É tão poderosa, aliás, que, assim que a comprei, só me apetecia ter os jogos da Playstation, a primeira de todas. Eu até tenho a Playstation original e também podia perfeitamente ir à “PS Store” – através da PS3 – descarregar essa saudade toda (e os jogos, já agora). Mas porque esperei eu tanto tempo para jogar algo velho, e logo com tamanho poderio tecnológico nos meus polegares? Enfim, e nos outros dedos, já que atrás também existe um painel táctil. Posso não ter grande justificação, mas sinto que é o sítio certo para jogar os clássicos.
CTR: Crash Team Racing. Maravilhoso. O primeiro jogo que acabei na Vita tem 15 anos. Ora bolas, mais valia ter comprado uma “PolyStation”. Haverá certamente jogos bons para uma consola nova, por que tenho de ir tão longe? É o poder da nostalgia… É que para além de ser um bom sentimento, é um sentimento que dá dinheiro (não a mim, claro). E ganhar dinheiro é outro bom sentimento. Principalmente com coisas que estavam arrumadas no baú velho do sótão, que só trariam prejuízo e dores nas costas, se lá quiséssemos ir buscar.
Não me lembrava disto assim. Será que ainda tem bons gráficos?
É também o poder da nostalgia que faz com que surjam tantas remasterizações para alta definição de jogos não tão antigos assim. Aliás, são tão recentes que nem percebo bem o alarido que há à volta de, por exemplo, um Final Fantasy X HD. Há meses que ouvimos falar dele (já saiu? Espero que sim) como se fosse algo novo. Algo revolucionário. É, curiosamente, algo que todos querem… outra vez! Eu não percebo o alarido, de facto. No entanto, sinto uma enorme vontade de comprar os tais jogos da “PSX”. Ok, já percebo o alarido…
Inicialmente era contra as remasterizações para alta definição, nos jogos. Prendia-se essencialmente com o acto de querer espremer mais uns trocos de algo que já não tinha dado mais. Se não deu para mais na altura, por que razão haveria de dar agora, com gráficos e jogabilidade datada? E ainda me incomoda um pouco. Talvez porque “perdem” tempo a vender o passado, em vez de mostrar-nos o futuro. Se canalizassem todos os recursos para um jogo novo e original, todos ganhavam. Ou quase.
Porque há sempre “Velhos do Restelo”. Há sempre gente com o típico “no meu tempo é que era”, e sinto que alguns jogos ficam parados no tempo por causa disso. Mas ficam para cuidar melhor de si. Evolução em vez de revolução. É como um VW Golf (lá vêm outra vez os carros). Eu posso não gostar muito do Golf, mas a verdade é que tem levado uma evolução lenta mas consistente, que lhe permite ser um dos melhores da actualidade. Embora eu preferisse um Mégane RS, claro. Aposto que a maioria de vós não sabe distinguir um Golf VI de um VII, se o virem na rua a passar. Aposto que muitos nem sabiam que o Golf já ia no VII.
Há jogos-Golf. O Gran Turismo é um jogo-Golf. Os FIFA são jogos-Golf. Até os jogos de golfe são jogos-Golf. E pode haver remasterizações de jogos-Golf, surgindo um efeito bola-de-neve (nesse caso, sugiro uma versão “4motion”, de tracção às quatro rodas, para melhor aderência), em que se recupera algo que continua igual, precisamente porque se foi recuperando do passado, ao longo das gerações. Confuso? É possível. A verdade é que pode evoluir pouco, mas basta comparar com uma versão da mesma coisa muitos anos antes para se ver que, afinal, até compensa esperar.
Porque é que já não sou contra as remasterizações ou contra relançamento de jogos iguais aos do milénio passado? Bom, talvez por ter bebido dessa água e me ter mordido o bichinho. Posso continuar com a mesma opinião de que as produtoras deviam canalizar fundos para novas aventuras, mas não há nada de negativo em fazer reviver algo que outrora fora grande. Ajuda a solidificar a imagem de uma marca, a criar relações mais fortes com os consumidores de sempre e a apresentar aos mais novos as velhas (novas) maneiras de jogar.
E enquanto escrevia o artigo, ganhei finalmente a coragem de gastar dez eurinhos nuns jogos que adorava quando era mais novo: Spyro the Dragon. Joguei o primeiro até à exaustão, adorei jogar uma vez o segundo e joguei apenas a demonstração do terceiro. Era uma questão de tempo até tê-los nas mãos, outra vez. Uma questão de muito tempo, diga-se.
”Start”: o botão de entrada no passado. Irónico.
Lá cantava o Rui Veloso, “nunca voltes ao lugar onde já foste feliz”. Mas o Fox diz: porque não? Eu sei que não vai ser a mesma coisa. Já não sou uma criança livre, despreocupada e sem responsabilidades. Sou apenas uma criança. E é bom sentir-me assim.
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