Se existe uma Maçonaria secreta em Hollywood, Martin Scorsese tem de estar integrado. É uma figura única do cinema, com um cunho pessoal e uma visão 2.0 do que é a linguagem cinematográfica. Um cineasta notável, que vê constantemente o estilo emulado (certo Bem Affleck?).
Durante cinco anos, The Wolf of Wall Street esteve em pré-produção (Scorsese acreditava no projecto), um período de análise e construção que procurou elaborar uma obra que escamoteasse um alicerce da sociedade capitalista, nomeadamente, a Bolsa de Valores. Como é que os ratos dançam quando o gato não está em casa? É essa a lógica aplicada de quem gere o dinheiro das famílias.
A história, inspirada em factos reais, narra a ascensão e queda de Jordan Belfort (interpretado por Leonardo DiCaprio), um stockbroker (corrector de acções) de Wall Street, acusado e condenado por corrupção, abuso de confiança e actos ilícitos. Além de Leonardo DiCaprio, o elenco de The Wolf o Wall Street conta com um naipe curioso de actores. Não são as superestrelas de American Hustle, mas estão quase lá.
Jonah Hill (recebeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Actor Secundário), Margot Robbie, Matthew McConaughey (podia ter duas nomeações este ano), Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Cristin Milioti, Christine Ebersole e Shea Whigham integram um elenco insuspeito e surpreendente, no qual cada actor tem direito ao seu momento. Contudo, as luzes da ribalta incidem com grande intensidade sobre Leonardo DiCaprio, que, caso a performance fosse avaliada ao estilo das Olimpíadas, regista o máximo pessoal. A interpretação de Leonardo DiCaprio está perfeita, Jordan Belfort é um turbilhão de emoções, que oscila num estalar de dedos do grotesco para o admirável. Após uma carreira a trabalhar com os melhores (Nolan, Tarantino e Spielberg) seria justo que DiCaprio recebesse o prémio maior do cinema.
Quando Martin Scorsese dá um safanão involuntário na camera, a sabedoria é tal, que o enquadramento manter-se-á perfeito. Talvez seja um exagero, mas se os anos de prática não chegassem, o realizador tem uma visão estática inacreditável, aprumada com um domínio total do espaço cénico. É uma orgia de informação cada cena em The Wolf of Wall Street, com situações reminiscentes das páginas de “Onde Está o Wally?”.
O restante domínio técnico ao redor de Martin Scorsese está… assim-assim. Pode parecer chocante, mas quando o bife é bom, dispensa molhos e condimentos extra. Mérito, contudo, para a produção, fazendo um bom uso dos cheques em branco (a acção salta do escritório em euforia até à Suíça).
O Lobo de Wall Street está quase perfeito, talvez a obscenidade gráfica possa perturbar os mais sensíveis (cenas de sexo implícito e uso de drogas), mas a mensagem é transmitida sem pudores ou paninhos quentes. Jordan Belfort é uma versão distorcida de Robin dos Bosques (tira aos ricos e fica com o dinheiro), que serve de paradigma dos multimilionários (querem mais dinheiro e perdem a noção da linha que separa o certo e o errado).
Se Hollywood escolher The Wolf of Wall Street para melhor filme do ano, estará a recompensar um trabalho incrível de Martin Scorsese, que tem a ousadia de contrariar os manuais, violando a quarta parede e utilizando sucessivamente o voz-off do protagonista. Martin Scorsese tem uma longa tradição de injustiças (Raging Bull e Taxi Driver), sendo finalmente premiado num dos trabalhos menos conseguidos da carreira (The Departed). Será um duelo intenso com 12 Anos Escravo.
Positivo
- A performance de Leonardo DiCaprio
- Enquadramentos repletos de informação
- Elenco
- Violação da quarta parede
Negativo
- Poucas decisões do protagonista sobre pressão
- Matthew McConaughey por breves momentos
- As sucessivas F-Bombs tornaram-se maçudas
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