Análise – Sputnik

Durante as minhas várias tentativas de encontrar uma maior variedade de obras, para além daquelas oferecidas pelo mercado ocidental, dominado pela presença norte-americana, eis que me vejo diante um filme russo de ficção-científica, chamado Sputnik. Uma primeira impressão, pelo material comercial e respectivos trailers, pode rapidamente categorizá-lo como um filme tipo Alien de Ridley Scott. No entanto, durante a minha experiência com Sputnik, devo admitir que fiquei completamente espantado com a tamanha qualidade desta produção russa.

Dirigido pelo estreante cineasta russo, Egor Abramenko, este filme pretende abordar a temática de sci-fi, sobre a ótica do género de drama e mistério, ao contrário daquela que mistura esta última com o género de ação. Felizmente, como apenas cingi-me a alguns trailers, consegui não ter a minha experiência arruinada com spoilers e revelações da trama, o que é um factor crucial para aproveitarem ao máximo a experiência que Sputnik tem para vos oferecer.

Ao longo das duas horas de duração de Sputnik, julgava que a história iria para uma direção, para logo depois, seguir outra completamente diferente. Sendo que esta sensação que aqui vos descrevi, aconteceu-me pelo menos umas três vezes. Como levianamente pega em determinados elementos narrativos tão badalados do género de sci-fi, como o já referido Alien ou até do recente Venom, acaba por nos enduzir a determinadas expectactivas de onde a história nos quer levar. E assim, consegue sucessivamente renovar-se, e surpreender o espectador, várias vezes, com as suas revira-voltas inesperadas.

Quanto ao enredo propriamente dito, este tem lugar em 1983, durante o período da Guerra Fria, onde dois astronautas a bordo de uma nave, numa missão espacial, acabam por se deparar com algo inusitado – vêem algo a movimentar-se fora da sua nave. Subitamente, os controlos da nave falham, e apenas um destes astronautas, Konstantin (Pyotr Fyodorov) sobrevive  ao acidente. Regressado à Terra, este sobrevivente é levado para uma instalação militar, onde fica isolado em quarentena, pois algo de muito errado estava acontecer-lhe.

Devido à gravidade da situação, o responsável por esta base militar, o Coronel Semiradov (Fyodor Bondarchuk) vê-se obrigado a recrutar uma jovem psiquiatra, Tatyana Yuryevna (Oksana Akinshina), cujos os métodos pouco convencionais, podem ajudar no tratamento de Konstantin. De início, nem Yuryevna, nem o próprio espectador, recebe qualquer tipo de razão plausível que explique o tamanho sigilo e cautela, do isolamento forçado deste astronauta. Só à medida que a jovem psiquiatra se envolve profundamente no caso, e conhece outro médico nas instalações, Yan Rigel (Anton Vasiliev) é que a situação fica clara. Contudo, de forma a não estragar a experiência aos demais curiosos, não irei entrar em mais detalhes sobre a história em si.

Confesso, que até certo ponto no filme, me esqueci que Sputnik para além de um filme sci-fi, é também de horror. O que para uma produção russa, era o meu primeiro contacto com tal, e fiquei bastante satisfeito com a tamanha qualidade da produção, quanto a este aspecto. A forma como Egor trabalha os momentos de horror no filme é feita de uma forma, que lhe permite afastar-se da fórmula já desgastada das películas deste género norte-americanas. Aqui, joga-se sobretudo com a tensão do momento, e respectivas consequências. Nada de jump scares ou tentativas de replicar a saga The Conjuring ou de IT, pois Sputnik entrega algo completamente novo, com um estilo muito autoral e particular.

As banda sonora é outro ponto que joga bastante bem a favor de Sputnik, desde a música tema, aos mais suaves sons, que esta composição se encaixa que nem uma luva, no género, como também na proposta do filme. Para uma produção russa de médio orçamento, não estava nada à espera desta qualidade. A cinematografia, apesar de parecer à partida, muito semelhante a algo saído dos moldes da ficção americana, consegue sair dessa bolha, e mostrar uma estética e modo de filmar, que transparece uma sensação de claustrofobia. O que também acaba por ir ao encontro, de uma das premissas do filme, mas não irei entrar a mais a fundo nesta questão.

Muitas vezes, deparei-me com a mesma conclusão ao ver determinadas cenas, Sputnik pode ser definido com uma obra, filha de três pais, dos já mencionados Alien e Venom, juntamente com uma abordagem semelhante a Cloverfield. E que combinação brilhante esta. Consegue aproveitar elementos dos clássicos antigos e de outros modernos, reinventá-los e ainda dar algo a mais, neste tipo de narrativa. Somando o facto de que se trata de um filme produzido e escrito por uma equipa russa, o que não é de todo comum uma obra destas chegar ao ocidente, e ainda para mais ser recebida da forma como está a ser pela crítica internacional.

Depois de tanto o elogiar, também tenho de tocar nos pontos menos positivos, que até são poucos, mas pesam no resultado final. Primeiramente, o desfecho de Sputnik acaba por lhe prejudicar mais do que ajudar, no sentido em que até então, estava a inovar e a trazer conceitos e tramas diferentes, para subitamente, finalizar abruptamente a sua história, com uma conclusão de alguma forma dentro dos moldes, ou seja, previsível. Adicionalmente, todo o arco que envolve a personagem do Coronel Semiradov encaixa-se igualmente dentro da mesma crítica que apontei anteriormente, da sua previsibilidade, e até neutralidade do enredo neste aspecto.

Ao concluir a minha experiência com Sputnik, apenas uma coisa ecooava na minha mente – «tenho de dar mais chances a outros filmes internacionais, em especial produções russas». Efetivamente, esta película de Egor deixou um impacto bastante positivo, na minha pseudo-carreira cinematográfica, nunca havia pensado que um filme com tal origem pudesse entregar elementos e formas de contar uma história tão prazerosas e satisfatórias, como Sputnik o fez.

Para não falar, que sci-fi é o meu género favorito de filmes, o que também deixava a Sputnik uma tarefa díficil de cumprir, levando em conta a quantidade de obras deste tipo que já consumi, mas na sua generalidade conseguiu. Por todas as razões aqui mencionadas, deixo a minha grande recomendação, para darem uma chance a este filme russo, que tem tanto de bom para entreter até o espectador mais casual, de ambos os géneros de horror ou de sci-fi.

Positivo:

  • Direção de Egor surpreende;
  • Mistura de géneros;
  • Está ao nível de uma produção norte-americana;
  • Cinematografia bem trabalhada;
  • Desenvolvimento;
  • Reutiliza elementos conhecidos, e constroí algo de novo;
  • Banda sonora;

Negativo:

  • Conclusão abrupta;
  • Algumas sub-plots;

João Luzio
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