Análise – Samurai Jack T1-T5

A propósito do lançamento de Samurai Jack: Battle Through Time, e do embalo de Ghost Of Tsushima, não há melhor altura, do que agora, para revistar esta série tão marcante do início dos anos 2000. Samurai Jack foi uma série de animação criada por Gendy Tartakovsky, que estreou em 2001 no Cartoon Network, alcançando a marca de quatro anos de longevidade até 2004, assim foi recebendo novos episódios ao longo tempo, totalizando quatro temporadas até então. É considerada como uma das melhores séries animadas deste século, graças aos seu estilo de animação, temáticas obscuras e pacing semelhante a uma obra cinematográfica.

Todavia, após a quarta temporada, a série foi cancelada pela estação que a transmitia, sendo que nunca houve um final concreto de como acabaria a esta história. Com efeito, em 2017, graças ao Adult Swim, Samurai Jack regressou com uma quinta temporada, composta por dez episódios, que marcou também o retorno de Tartakovsky ao meio da animação.

Neste universo, uma força misteriosa representada pela figura de Aku, o antagonista principal da série, cujas habilidades vão desde a conjuração de feitiços a poderes de metamorfose, chega à Terra com a ambição de conquistar e escravizar todos aqueles que se opõem ao seu domínio. Contudo, um lendário guerreiro da era do Japão feudal e o seu exército fiel, conseguem derrotá-lo e aprisioná-lo numa mística katana, a única arma capaz de ferir a criatura malígna.

Com o passar do tempo, esta lendária figura, treina o seu filho para o eventual regresso da criatura demoníaca. No entanto, oito anos depois, Aku é libertado da katana, e por consequência retalia brutalmente todo aquele reino que o tornou cativo. Contudo, o descendente do lendário guerreiro, agora na posse da famosa katana, sobrevive ao massacre, e na tentativa de se vingar, viaja pelo mundo fora, onde aprender todo o tipo de artes marciais e técnicas de sobrevivência. Após esse longo treino, o jovem samurai retorna ao reino conquisto por Aku, e no confronto com este último praticamente derrota-o.

No entanto, instantes antes do samurai finalizar o golpe letal na figura demoníaca, este último abre um portal do tempo, que envia o samurai para um futuro distante, onde o seu poder já seria absoluto, capaz de o derrotar. Assim este guerreiro vê-se preso num mundo distópico, onde Aku é a lei, e onde para além do seu reino natal, todo o restante planeta fora conquistado pelo seu domínio. As primeiras pessoas que o encontram, apelidam-no de Jack, nome este que o protagonista adota dali em diante.

Neste seguimento, a maioria dos episódios retratam Jack a lidar com vários obstáculos que se cruzam no seu caminho, para encontrar um portal do tempo, que o envie de volta para a sua era, e onde pode derrotar Aku, que no futuro se encontra demasiado forte para este o derrotar. O futuro distópico é habitado por outras espécies alienígenas, rôbos, monstros e até animais falantes. Certas àreas são tecnologicamente bastante avançadas, comparando com o Japão feudal, tendo inclusive carros voadores. Há também outras comunidades que escaparam do domínio de Aku, como monges de Shaolin.

Em termos de estrutura, a maioria dos episódios segue uma lógica isolada do seus semelhantes, sendo que cada um conta uma história diferente, onde Jack terá de lidar ou como uma criatura poderosa ou resolver uma ocorrência perigosa que aflige determinada zona. Ambas as situações têm como consequência a necessidade de autosuperação e aprendizagem por parte do protagonista, por isso, mesmo que se possa apenas assistir aos episódios de forma aleatória, ou apenas ver alguns destes, todos contribuem para desenvolver e construir a personalidade de Jack, que é dos pontos mais importantes da série.

As quatro primeiras temporadas, com a exceção de alguns episódios específicos, entram nesta lógica, portanto cabe ao espectador escolher o que quer ver e que por ordem ver, nada é necessariamente obrigatório, para se entender o fio condutor da narrativa. Sendo neste sentido a introdução colocada no início de todos os episódios, uma boa forma de comunicar com o espectador mais distraído da série. Adicionalmente, estas quatro temporadas focam-se muito mais no worldbuilding e no envolvimento de Samurai Jack, naquele universo, do que qualquer outra coisa.

Já a quinta e última temporada tem uma história mais desenvolvida, na medida em que os episódios seguintes reflectem as escolhas dos anteriores, isto é, está presente o conceito de continuidade. Esta há diferença das outras, passa-se cinquenta anos desde que Jack ficou preso no futuro, o qual se encontra bastante debilitado mentalmente, com várias alucinações e momentos de desespero, por ter não sucedido em voltar no tempo, e destruído Aku. De outra perspectiva, neste futuro ainda mais distante, formou-se um culto a Aku (que virou praticamente um entidade divina nesta altura) de várias jovens assassinas, cujo o único objetivo consiste em encontrar e matar o Samurai Jack.

E para dificultar a situação, não só Jack é incapaz de envelhecer, devido à exposição de não se encontrar na sua época temporal correcta, como também perdeu a sua katana. Daí que esta temporada retrate o jovem samurai no seu ponto mais baixo de toda a série. Elemento este, que resulta em alguns momentos onde o protagonista é assombrado por uma visão sua do passado, que lhe atormenta por ter falhado em salvar o seu reino e de ainda não ter destruído Aku. O resto da história continua a partir daqui.

Posto as questões de narrativa de lado, outro grande trunfo de Tartakovsky foi ter apostado, e muito, num estilo da animação inovador. Aqui cada mínimo detalhe, na paisagem ou no plano mais próximos, têm um contorno e grafismo trabalhado com cuidado, independentemente de as primeiras quatro temporadas estarem, de alguma forma, “ultrapassadas” no que diz respeito ao aspecto geral. Ainda assim Tartakovsky apostou numa estética minimalista, que torna Samurai Jack numa série muito mais visual, do que focada em diálogos e na história.

Por falar nisso, todas as cenas de ação e de batalha na série, são reminiscentes de filmes clássicos de Samurais (como os de Akira Kurosawa), e estão muito bem executadas. Daí que Samurai Jack, enquanto obra, comunique com o espectador através dos estímulos visuais. Adicionalmente, a banda sonora joga com o silêncio e os ruídos de fundo, para intensificar os momentos, e para que o espectador se possa focar precisamente no que está a ser apresentado à sua frente. Tartakovsky queria que tudo o que estive na ecrã tivesse uma importância e um significado para ali estar, nada é colocado por acaso. Outros aspectos como o trabalho de vozes, está bem executado, sendo a voz de Aku muito memorável e especial.

Por último, como cresci a assistir Samurai Jack, a decisão de dar um desfecho digno à série com uma nova temporada, foi muito acertada, a qual se tornou, efetivamente, a minha temporada favorita, por ser ainda mais madura e complexa em relação às anteriores. Contudo, não sou grande fã do final, uma vez que deixa imenso a desejar, não que seja mau, pois claramente não o é. Mas senti que foi um desfecho muito apressado e até anti-climático, para aquilo que havia deixado anteriormente em aberto.

Samurai Jack foi uma lufada de ar fresco, no que diz respeito ao tom mais juvenil que as restantes produções da Cartoon Network, adotavam na altura. Assim sobrevive à passagem do tempo. E ao receber uma atualização moderna, torna-se uma adição mais que bem-vida, para esta nova geração que a veja. O estilo e tom de Tartakovski nunca foi replicado desde a estreia de Samurai Jack tornando-se por isso uma das pérolas da animação, que ficará com certeza para a história, por ser tão única e viva. Tanto que com quase vinte anos desde a sua estreia, ainda há novidades a chegar, do já mencionado, Samurai Jack: Battle Through Time.

Positivo:

  • Visualmente incrível e detalhado;
  • Animação e estilo artístico único;
  • Aku é um vilão marcante e carismático;
  • Cenas de ação bem executadas;
  • Tom maduro e dark;
  • Sustenta-se sozinho, sem a bengala da nostalgia;
  • Desenvolvimento e construção de Jack;
  • Mantém-se atual para as novas gerações;
  • Trabalho de vozes;

Negativo:

  • Há episódios que não justificam a sua presença;
  • Final anti-climático que deixa a desejar;

João Luzio
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