Análise – Resident Evil Village

Resident Evil 7 foi bem recebido pela maioria dos jogadores e fãs da série, as suas novas abordagens e jogabilidade vieram trocar as voltas ao esperado e Resident Evil Village vem aprimorar essa experiência. Village é uma sequela direta, jogamos na pele de Ethan Winters e durante a sequência de jogabilidade inicial, onde tudo parece estar bem de mais, a pergunta: “Onde é que isto vai tudo correr mal?”, não parava de me assaltar o pensamento. Para o melhor e pior, a minha resposta não tardou, e em poucos minutos passei de estar numa bela casa prestes a comer uma deliciosa refeição, para o meio de uma tempestade de neve e uma vila saída de um sonho moribundo do Conde Drácula.

Aquilo que move Ethan desta vez é a busca pela filha de 6 meses que desaparece após um acidente de carro, que ao que tudo indica, foi propositado. É com esta missão que chegamos a uma vila presa no tempo, os habitantes parecem saídos do século XVII ou XVIII, mas conscientes de que existe um mundo lá fora. Ao longo da narrativa de Resident Evil Village vamos aprendendo um pouco sobre o local e de como Mother Miranda e os seus 4 “filhos” controlam estas terras.

Village faz um trabalho excelente na primeira hora de jogo e na forma como nos recebe. Em muito pouco tempo somos desorientados e atacados pelo desconhecido. Criaturas estranhas e violentas perseguem-nos pela vila que parece um labirinto, aprendemos a bloquear portas e tentar dispersar os monstros com alguns truques, mas também nos são dadas as primeiras armas. Ao contrário de Resident Evil 7, nos primeiros 30 minutos terão convosco uma faca, pistola e caçadeira, companheiros inseparáveis da nossa aventura.

É uma introdução violenta e repleta de stresse que tenta a todo o custo causar o pânico no jogador. Este foi o sentimento que me acompanhou durante a campanha, pânico, o medo está lá como consequência, mas não é o foco. Existe uma sequência no jogo que falha redondamente em entregar uma experiência interessante devido a mecânicas bastante comuns em vários jogos do género. Como consequência senti que estava a jogar um jogo diferente e bastante inferior durante essa secção.

Cada um destes 4 “filhos” entrega uma experiência diferente de jogo. Por exemplo, a área da Lady Dimitrescu faz lembrar as sequências do Mr. X ou Nemesis de jogos anteriores, onde a qualquer momento podemos começar a ser seguidos e a única opção é arranjar forma de continuar em frente. Cada um destes 4 personagens conta com uma personalidade distinta pelo que os encontros que temos com estes personagens ao longo dos seus arcos acabam por ser pontos de interesse. Cada um governa sob uma zona distinta que somos obrigados a explorar e todos os locais são bastante diversificados, fazendo com que possam existir várias situações únicas.

Como Village é um jogo mais orientado para a ação do que o seu antecessor, a munição é mais abundante, mas sem exageros. Cada bala é bastante preciosa e o jogo tenta ensinar-nos a escolher as batalhas, afinal, alguns dos inimigos podem não ser ameaças para a progressão. Numa área relativamente avançada do jogo, altura pela qual aprendi essa lição, apercebi-me de que estava a ficar sem balas e que até o Duke tem quantidades finitas de itens para vender. Mesmo que possamos criar munição com os componentes que encontramos, por vezes é apenas o suficiente para conseguir sobreviver, uma espécie de balão de oxigénio. Estes jogos psicológicos em conjunto com a atmosfera de cada local acabam por causar o pânico e levam-nos a cometer erros.

Os inimigos de cada zona são também eles diferentes e contam com pontos fracos e comportamentos distintos. A diversidade é muito bem-vinda, especialmente depois de Resident Evil 7 ter reutilizado imensas vezes os mesmos inimigos.

A exploração em Resident Evil Village é bastante recompensadora, quase todos os inimigos deixam um objeto ou consumível para trás e em quase todos os recantos há um tesouro para apanhar. Derivado aos puzzles que barram a nossa progressão, vamos percorrer várias vezes as mesmas áreas, no entanto, e ao contrário do esperado, há sempre algumas diferenças quando percorremos os mesmos ambientes, pequenas áreas que ficam acessíveis, novos atalhos ou um novo inimigo a patrulhar os corredores.

No que toca a puzzles, e ao contrário do que esperava, nunca me senti frustrado. Foi sempre muito claro o que tinha de ser feito, mesmo que envolvesse alguma astúcia, nunca me senti impossibilitado de progredir. A única exceção é a vila, local que liga os vários cenários do jogo, o facto de ser visitada constantemente, implica que alguns locais estejam bloqueados e termos que progredir na história para os desbloquear torna-se cansativo e frustrante. Perdi bastante tempo a procurar por algo impossível de conseguir nesse preciso momento e quando desistia e continuava a história, a resposta tornava-se óbvia ao conseguir o objeto que me faltava nessa nova área.

Uma adição a Village que gostei bastante, são algumas nuances do estilo RPG. Através de um NPC chamado Duke, vamos poder aceder a uma loja onde podemos comprar armas, balas e modificações para as armas, mas também pedir para serem preparados alguns pratos que aumentam a nossa vida, velocidade e resistência se tiverem os ingredientes necessários. Este sistema faz com que toda a exploração seja recompensadora, pois acaba por contribuir para a evolução de Ethan. Existem várias armas e variações para encontrar e mesmo com o inventário limitado, nunca senti falta de espaço.

As mecânicas de combate funcionam bem, mas a movimentação em certas situações é pouco prática, especialmente quando tentamos fugir por entre os inimigos. Apontar armas é bastante simples e funciona bastante bem, nem sempre é fácil apontar devido às situações stressantes a que estamos expostos, mas isso é algo que aprecio. No caso da PS5 os gatilhos do comando adaptam-se muito bem a cada arma e é muito satisfatório sentir a tensão das várias armas. A vibração também não fica atrás e por várias vezes senti pequenas vibrações no comando que complementaram a experiência da maneira adequada.

A história faz um bom trabalho ao impulsionar a série em frente, ligando vários pontos entre vários jogos. Ao longo da campanha fui várias vezes surpreendido pela positiva e mesmo quando a história me levou por caminhos previsíveis, senti que estava a percorrer um cominho que fazia sentido. Os personagens estão bem trabalhados e tendo em conta a presença de cada um, senti-me satisfeito com as suas prestações e pela altura que os créditos terminaram fiquei satisfeito. A exceção é mesmo a área que referi anteriormente nesta análise onde tudo me pareceu desperdiçado, inclusivamente a antagonista dessa zona.

Visualmente é bastante apelativo na sua versão PS5. Toda a aventura foi bastante fluída, loadings praticamente inexistentes e por vezes, mesmo com imensas coisas a acontecer no ecrã, o jogo manteve um desempenho impecável. Onde o jogo fica a desejar é na interação com o cenário onde certos objetos não são afetados pelas nossas ações. Vasos e janelas que não partem, portas e gavetas que não abrem, etc. Tirando os objetos marcados a amarelo como destruíveis, os restantes podem ou não ser afetados, não existe uma boa consistência.

Na componente sonora temos também dois pontos principais. As vozes estão bem ajustadas e fazem uma entrega emocional bastante boa. O som ambiente, por seu lado, é dos aspetos mais inquietantes de Village. Por várias vezes ouvi passos vindos de uma divisão adjacente que me deixaram em alerta, um bater de portas ou grunhidos de um dos vários lycans que deambulam pelos corredores. Estes sons foram na sua maioria precisos e contribuíram de forma positiva para o aumento do meu pânico.

Resident Evil Village é um jogo que vive sobretudo da sua campanha, mas foi desenhado para ser jogado várias vezes. Após concluir o jogo pela primeira vez, vão-vos ser atribuídos pontos com base nas proezas desbloqueadas que podem ser utilizados para comprar extras como melhoramentos ou munições infinitas para as armas num “New Game Plus” e ainda o modo: Mercenários. Este modo coloca-nos numa arena fechada e dá-nos um limite de tempo para matar um dado número de monstros, uma boa adição ainda que apenas para 1 jogador.

Quando cheguei a este ponto fui invadido por um sentimento nostálgico de uma era que recompensava os jogadores com uma quantidade enorme de extras, senti-me recompensado por todo o esforço colocado ao longo da campanha, não foi apenas um troféu, foi conteúdo extra para explorar no jogo. Desde comentários dos criadores a arte conceptual, existem imensos extras para apreciar e podem comprar ainda mais conteúdo com os pontos que referi. Confesso que tinha saudades deste género de abordagem num videojogo. Uma agradável surpresa.

Resident Evil Village surpreende pela sua abordagem que substitui o medo pelo pânico, tal como Resident Evil 4 fez outrora. Existe conteúdo suficiente para largas horas de exploração e adrenalina, os fãs podem contar com imensos desafios e conteúdo extra que explora todo o universo de Resident Evil. É um jogo que proporciona uma experiência intensa e recompensadora que recomendo facilmente.

 

Positivo

  • Explorar é recompensador;
  • Repleto de momentos de ação e tensão;
  • Mundo interessante e bem construído;
  • Ambiente e atmosfera muito bem conseguidos;
  • Modo Mercenários;
  • Imensos extras que aumentam o tempo de jogo;

Negativo

  • Interação com objetos está muito limitada;
  • Uma das sequências de jogo falha em entregar a experiência pretendida ao utilizar mecânicas e conceitos sobre-utilizados em jogos do género.

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