Análise – Lightyear

Logo após uma trilogia bem amarrada e uma sequela inusitada, a Pixar decide prolongar a estadia de Toy Story através de um spin-off focado na figura do ilustre astronauta. Andy, o rapaz dono dos brinquedos, tinha um filme preferido, que era nada mais nada menos, do que a longa-metragem que aqui temos. Razão pela qual o levou a adquirir uma figura de ação de Buzz Lightyear, inspirada nesta obra. Esta experiência de metalinguagem serve para dar a conhecer ao público e aos fãs, a história do famoso ranger espacial, além de tentar se interligar com a extensa mitologia do universo de Buzz, presente em todos os filmes de Toy Story.

Assinala-se o regresso da Pixar às estreias em salas de cinema, depois de dois anos de ausência, e  também por ser o primeiro projeto realizado por Angus MacLane, que já havia trabalhado, no passado em algumas curtas-metragens, para o estúdio. Ao que inicialmente levava a querer que Lightyear se iria basear na série animada Buzz Lightyear of Star Command, se percebe que é algo feito de raiz. Uma história de origem que abraça uma panóplia de outras obras de ficção científica como Silent Running (1972), Interstellar (2014) e First Man (2018), para mencionar algumas.

É com esta influência criativa em mente, que Lightyear começa por introduzir o protagonista numa missão conjunta com Alisha Hawthorne num planeta remoto. Complicações ocorrem e Buzz juntamente com a sua comandante e respetiva tripulação, acabam encalhados e com poucas perspectivas de voltar ao seu destino de origem. Ciente das suas capacidades, o obstinado astronauta persiste em arranjar uma solução para tirar todos daquela situação. Somente na posse de um combustível que lhes permita atingir a velocidade de hiperespaço é que poderão sair da região hostil repleta de insetos grutescos.

Várias tentativas são feitas para alcançar tal objetivo, mas sem sucesso. No meio disto Buzz torna-se um homem fora do seu tempo, ao ficar preso num futuro distante. Partindo desta introdução até criativa, a Pixar passa o testemunho à fórmula de filmmaking tão característica da Disney. Transitando para uma história do bem contra mal, composta por um elenco de personagens caricatas que irão fazer companhia ao herói, sem contar com o temido vilão. Reside neste argumento metódico o principal entrave de Lightyear, ao se assentar em inúmeros elementos genéricos, que estão longe de se encaixar no estilo e abordagem do estúdio que nos trouxe The Incredibles (2004), entre tantos outros êxitos da animação contemporânea.

Ainda que tenha vincando uma posição inicial um tanto negativa, a verdade é que o filme tem também bastante de bom a entregar. Começando pelo próprio ranger espacial. O desenvolvimento prestado, desde a primeira à última sequência para com esta personagem, demonstra que houve um entendimento do mesmo, com um arco bem amarrado e um amadurecimento visível. No entanto, é uma proposta contrastante com a que conhecemos, por ser mais prática, o que pode afastar alguém que procure algo semelhante ao que já viu relacionado a Buzz Lightyear

Por isso, o filme sabe trabalhar o astronauta dentro do escopo de ficção científica misturando alguma aventura e, infelizmente, demasiada comédia, que ficou reservada para o restante elenco. A propósito disto, é nas personagens secundárias que se torna demasiado notório a sombra do registro da empresa mãe. No intercalar do segundo ato, estas são apresentadas e tornam-se presença fixa pelo resto da longa-metragem. O que não só retira atenção do protagonista, como altera substancialmente o tom de Lightyear para um espetáculo de humor exagerado, através de Mo (Taika Waititi) e Darby (Dale Soules), que nada de relevante trazem para uma história de pouco mais de hora e meia de duração.

Quando isto resulta e é bem aplicado, devolve uma das mascotes animadas mais carismáticas dos últimos anos: Sox (Peter Sohn), um pequeno adorável gato robótico, que serve de sidekick e rouba todas as atenções sempre que aparece. Deixando outras personagens de parte que poderão revelar algum ponto importante do enredo, vou direto para Zurg. Da mesma maneira que Buzz é uma personagem destoante da que vimos em Toy Story, o mesmo se pode dizer do vilão aqui. Sem entrar em  spoilers, além de pessoalmente ter gostado da ambição e coragem ao complexificar uma história com um público juvenil em mente, não foi de todo a melhor aposta. A justificação dada para lá de forçada, tem várias pontas soltas, que faz muito pouco sentido.

É que a ideia vendida a partir de trailers e de todo o aparelho de marketing é que se iria explorar, explicar ou pelo menos contextualizar certos elementos que vimos na versão em brinquedo. Seja Zurg proclamar-se pai do astronauta no segundo filme, os três aliens do Pizza Planet ou até da obsessão de Buzz em destruir a temível estação espacial capaz de aniquilar planetas, que vimos no clássico de 1995. Nada disto é abordado ou sequer mencionado, tirando o facto de Buzz fazer  relatórios de bordo em forma de monólogo e uma ou outra referência visual. Foi uma enorme oportunidade desperdiçada (ainda para mais se forem fãs como eu) que retira parcialmente razão de ser, da existência de Lightyear.

O que não desilude é de facto os artifícios técnicos. É a obra mais visualmente bem executada da Pixar, que lhe faz valer a visualização numa sala IMAX. Criando todo um cenário imersivo, com destaque para as cenas no interior das naves e nas sequências no espaço. As personagens têm traços mais realistas, o ambiente espacial vive pleno em tela, pena que poucos cenários macro são explorados para além do ecossistema de um único planeta. Até porque estamos a falar de um ranger do espaço que embarca em várias missões ao redor da galáxia, infelizmente não foi para aqui que MacLane queria direcionar a narrativa. Ainda assim é de louvar a direção artística da longa-metragem que empenhou-se em emular uma aventura nos cosmos, de pura ficção científica.

A banda sonora de Michael Giacchino, que não necessita de apresentações, está igualmente bem conseguida, tendo uma música tema, a meu ver, memorável (embora reconheça que possa estar na minoria). E desde Soul (2020) que não sentia o selo de qualidade ao nível de sonoridade da Pixar tão em forma como aqui. Ainda dentro do que se ouve, estava bastante reticente quando anunciaram que Chris Evans iria dar a voz a Buzz Lightyear e esse sentimento manteve-se durante os primeiros minutos do filme. Contudo, rapidamente entranhei esta diferença na dobragem, conseguindo reconhecer alguns traços de Tim Allen mais para o final.

O primeiro ensaio no campo dos spin-offs foi bem conseguido por parte da Pixar. Uma película que se constrói nas bases de uma clássica aventura de ficção científica, e que se afasta fortemente da contraparte dos filmes dos brinquedos. Quando Lightyear se apresenta como um filme do estúdio e trabalha sobre isso, sucede em entregar uma experiência visualmente fascinante e um estudo de personagem adequado, mas quando se aproxima das artimanhas copiadas de uma típica longa-metragem da Disney, falha redondamente.

Personagens secundárias aborrecidas, carregadas de um teor cómico exagerado, que servem apenas para uma piada de efeito, e um plot-twist inoportuno e pouco fundamentado, colocam Lightyear drasticamente abaixo daquilo que se espera vindo do historial da Pixar. Porém, fechando os olhos a isto, há ainda uma grande fatia da experiência que se rodeia da ambientação espacial, de viagens no tempo e da invasão de robôs, que o tornam recomendável para qualquer fã do género, e obviamente, dos próprios fãs de Toy Story a quem este spin-off é dedicado.

Positivo:

  • Premissa;
  • Primeiro ato sólido;
  • Desenvolvimento de Buzz Lightyear;
  • Sox é extremamente carismático;
  • Giacchino entrega outra exímia banda sonora;
  • Prestação do elenco de vozes;
  • Qualidade da animação atinge o pico máximo;
  • Prato cheio para fãs de ficção científica;

Negativo:

  • A partir do segundo ato em diante tem momentos cómicos em demasia;
  • Personagens secundárias estereotipadas;
  • Plot-twist prescindível e com várias pontas soltas;
  • Oportunidade desperdiçada por não usar o lore presente em Toy Story;
  • Reduz-se à fórmula trivial da Disney de como fazer um filme;

João Luzio
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