Análise – Soul

No início do ano de 2020, tinha-se iniciado uma nova fase para a gigante do cinema de animação, a qual tinha como missão, criar daí em diante, produções totalmente novas, que remetem-se ao primórdios dos seus valores originais. Refiro-me, como é óbvio, à Pixar, que todos tão bem conhecemos, por ter criado inúmeros mundos e personagens tão icónicos e presentes na nossa infância, e na atualidade. Onward prometia ser isso mesmo, o início de um futuro que, ambicionava voltar às origens, no entanto, o resultado final não foi o melhor, nem o mais esperado. Aliado às condições sociais que provocaram o mau desempenho das bilheteiras mundiais, e à fraca competência de fazer jus à proposta inicial, fizeram esta nova fase, começar de uma forma não tão desejada.

Ainda assim, com o aproximar do tempo, avizinhava-se Soul, que seria a segunda tentativa de entrar com o pé direito, de vez, nesta nova abordagem de negócio. Para este trabalho foi escolhido o veterano, Pete Docter, conhecido por Up (2009) e Inside Out (2015) que, volta novamente, ao cargo de director, e conta ainda com a presença de Dana Murray e Mike Jones, enquanto produtora e argumentista, respectivamente. Tal como aconteceu com outros filmes durante este período pandémico, Soul que originalmente estava previsto chegar às salas de cinema, é transportado para o universo do streaming, chegando ao Disney Plus.

Há semelhança de Inside Out (2015) , a Pixar decide explorar, uma vez mais, um conceito metafísico, aquele que diz respeito à essência da nossa própria alma. Neste sentido, Soul dá-nos a conhecer Joe Gardner (Jamie Foxx), um professor de música, cuja paixão por esta área, mais especificamente o jazz, o fazem viver e ansiar por uma carreira de sucesso enquanto músico. As suas ambições são finalmente ouvidas, quando Joe recebe uma proposta, de um ex-aluno seu, para uma audição, que lhe permitirá tocar juntamente com uma talentosa artista de jazz, Dorothea Williams (Angela Bassett) e a sua banda.

Contudo, e como não podia deixar de ser num filme da Pixar, nada é tão fácil quanto realmente parece, pois no meio do seu entusiasmo, Joe sofre um acidente mortal. Sim, a poucos minutos do filme começar, o nosso protagonista morre. Mas agora, a perspectiva é alterada para um mundo fantasioso, uma pseudo representação do mundo onde as almas que, falecem vão parar, o Great Beyond. Inconsolado com tal situação, o protagonista acaba por escapar para outro patamar, o Great Before, local de onde as almas surgem e formam a sua personalidade.

A partir daqui, para além de uma aventura recheada de altos e baixos, e muitas surpresas, Joe irá ter de vivenciá-la juntamente com uma jovem alma rebelde e muito pouco convencional, a 22 (Tina Fey). A viagem não será a mais clara, pois ambos representam posições opostas e até contrastantes um do outro, mas terão de aprender a conviver entre si, de maneira a descobrir não só como escapar daquele lugar, mas sobretudo para descobrir, quem sabe, qual é realmente o sentido da vida.

Por esta altura, até mesmo ideias improváveis como aquela que Soul apresenta, não são totalmente descabidas, em termos de filmes de animação com um tom mais sério, como é o caso de Grave Of The Fireflies (1988) ou de Anomalisa (2015). E levando em conta, o contexto mundial em que foi lançado, a sua proposta não podia ser o mais conveniente. De facto, Soul é um filme que será muito mais apelativo a um público mais maduro, e talvez aquele que deste estúdio melhor se encaixa nesta posição, devido às questões morais e filosóficas que traz para cima da mesa. Embora um público mais juvenil não consiga ver a real mensagem que Pete Docter pretende transmitir, estes poderão encontrar um porto seguro em 22, que serve como uma espécie de alívio cómico para todo o escopo dramático da história, se bem que até esta personagem tem a sua dose de momentos de amadurecimento.

O Great Before transmite sob uma configuração abstracta, aquilo que é um género de um centro de aprendizagem, só que dedicado à construção daquilo que irá definir a nossa alma e, respectivos atributos pessoais. Os vários elementos induzidos na história são colocados progressivamente, e de forma adequada, para que aquando do clímax, tudo faça sentido, e dê um sentimento de auto-realização no espectador, algo que é raro ver atualmente, em especial em produções de animação.

No fundo, o espectador descobre aquele mundo, juntamente com Joe, e tudo aquilo que este implica na personagem. Pois para além do arco criado para a personagem principal, cada espectador retirará algo deste filme, destas personagens e das situações criadas, e esta sinergia entre audiência-filme, torna toda a experiência mais interessante e convidativa à partilha e discussão de ideias após a sua exibição.

Não podia deixar de falar, dos aspectos técnicos que, por si só já são de extrema qualidade, mas que aqui são um pilar fundamental daquilo que é a proposta narrativa de Soul. A exposição ao quotidiano da vida de pessoas afro-americanas é relevante, algo que necessitava já de algum tipo de representação no meio da animação. Aqui esta é fielmente retratada, cuja representação vai desde os mais variados maneirismos, até à mais ínfima referência do dia-a-dia destas pessoas, que só vem reforçar o peso cultural e autenticidade da obra.

Mais, a própria banda sonora vai buscar muita da sua génese a esta cultura tão rica, passando sobretudo pelas mãos de Jon Batiste que, entrega uma composição de jazz recreativa e poderosa. Por oposição, no mundo das almas, a sonoridade alterna para um estilo mais electrónico, sob autoria de Trent Reznor e Atticus Ross.

A audácia de querer desafiar o seu público, já tão exigente, ao buscar temas existenciais, mostra o quão a Pixar se encontra bastante à frente do seu tempo. Somando ao facto, de que realmente não existe uma resposta concreta que complete o significado do seu final aberto, faz com que Soul seja realmente uma aposta a passos largos da via autoral, afastando-se progressivamente da procura de conteúdo mastigado, que o mercado mainstream tanto despeja anualmente. Este pode muito bem ser o filme que catapultará a Pixar para projectos muito mais individuais e ímpares, tendência que levará o resto da indústria a adaptar-se, inevitavelmente, com o tempo.

Regressando aos aspectos cinematográficos propriamente ditos, devo elogiar também o trabalho de vozes, pois a escolha de cada ator, nomeadamente de Jamie Foxx, não podia ter sido a mais acertada, tendo em consideração o próprio percurso da carreira deste artista. A animação encontra na sua direção visual, o equilíbrio certo entre a recriação do foto-realismo de New York City, e da subjetividade e disfiguração do Great Before. Nenhum dos lados se sobrepõe entre si, tudo tem o tempo de atena certo.

Menos bem conseguido, foi o desenrolar de algumas personagens secundárias, que apenas servem como fio condutor entre cada segmento do filme, embora tivessem potencial para carregarem mais algum teor emocional à história, caso esta tivesse sido maior do que uma hora e meia. Mesmo assim, a execução de Soul acaba por compensar face a estas pequenas falhas, pois acaba por seguir aquela lógica de «o que importa é jornada e não o destino».

Soul é uma experiência sublime, que nos apresenta uma história sob a ótica de uma personagem com motivações e crenças universalmente identificáveis, capazes de nos mostrar a que ponto alguém irá para descobrir o prazer de viver. Juntamente com uma linguagem metafísica e existencial, cultivadas ao longo dos anos por um portfólio de histórias, que só a Pixar sabe contar. Assim temos a receita ideal para harmonia entre, os primeiros passos na via autoral do estúdio, e a necessidade de existirem mais obras “fora da caixa” que são comercialmente fiáveis.

O talento e êxito pessoal não são tudo na vida, e Soul presta atenção a uma sociedade cada vez mais individualizada, demonstrando o quão importante termos presente a simplicidade na nossa vida. Se ainda não assistiram a este novo filme, recomendo vivamente darem uma vista de olhos, porque no final da experiência será muito enriquecedor.

Positivo:

  • Mais um grande filme de Pete Docter;
  • Transmite uma mensagem atual, desafiante e poderosa;
  • Premissa original;
  • Composição musical;
  • Personagens facilmente identificáveis;
  • Equilíbrio entre o mundo real e o Great Before;
  • Representação adequada da cultura afro-americana;
  • Pontapé de partida para a criação de mais filmes autorais da Pixar;
  • Prestação do elenco de vozes;

Negativo:

  • Humor não será apelativo para todos os públicos;
  • Pouco aproveitamento das personagem secundárias;

João Luzio
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