Análise – Gambito de Dama (The Queen’s Gambit)

Enquanto ainda andava de volta de Hi Score Girl, o Anime que me conquistou por completo no final do ano passado, a Netflix fez questão de me mostrar por diversas vezes que estava a estrear O Gambito de Dama ou inglês, The Queen’s Gambit. Apesar de me ter chamado a atenção pelo nome ser estranho ao não ser uma tradução directa do inglês que até iria fazer mais sentido, foi o olhar penetrante da personagem principal no destaque, Anya Taylor-Joy que me deixou a pensar na série.

Apesar de não ser um fã e jogador regular de Xadrez, sei as bases de jogo e algumas estratégias. Muitas delas, conheci até ao coleccionar os fascículos da versão Xadrez de Dragon Ball Z. Uma série com base neste jogo podia não ser a ideia mais apelativa para mim, mas nunca me vou esquecer que adorei o filme Rush e não gosto de Formula 1.

The Queen’s Gambit conta a história de Elizabeth Harmon, uma rapariga nova que se vê obrigada a entrar numa instituição para adopção após perder a mãe. Harmon não é uma criança tão inocente e bem comportada como tantas outras e depressa descobre que o seu lugar favorito não é estar nas aulas ou na capela, mas sim, fugir para a cave onde o contínuo da instituição lhe começa a dar as primeiras aulas de Xadrez. Sem surpresas para uma série com esta temática, Elizabeth mostra ser um prodígio do tabuleiro.

Desde esse momento até ao final da série, vamos acompanhando Beth na sua jornada de ascensão, subindo cada vez mais no mundo do Xadrez e passando de uma rapariga renegada para uma celebridade e forte concorrente dos maiores jogadores. Como é natural, uma grande carreira está sempre recheada de momentos altos e baixos e existem várias condicionantes que vão fazer com que Beth viva momentos bastante negros.

Contado com uma história de época (entre os anos 50’s e 60’s), O Gambito de Dama é uma das histórias mais reais e com hipóteses mais convencionais que vi nos últimos tempos. Grande parte das séries recentes está mais preocupada em mostrar constantemente o lado mais negro e levar as situações ao extremo com personagens levadas ao limite. No caso desta série, os seres humanos são mais reais e os problemas de vida parecem fazer mais sentido.

Desde pequena Elizabeth sabe como a vida é complicada e desenvolve um vício por tranquilizantes devido às regras do orfanato. Obcecada pela vitória, a hipótese de perder atira-a para momentos auto destrutivos e a realizar escolhas menos inteligentes. Apesar da sua calma e frieza, Harmon está muito bem equilibrada e não é uma personagem que nos faça sofrer ou pensar que está totalmente descontrolada. Tanto que a história está sempre a correr e raramente pára ao ponto de aborrecer ou criar monotonia.

Ao longo da história, Beth vai ter uma série de personagens adjuvantes que fazem parte da sua vida. Mais uma vez, ao contrário da maioria das séries, as personagens secundárias também são bastante humanas e sabem até onde vão os limites. Mesmo as que parecem mais calculistas não estão lá por maldade e não existem verdadeiros vilões. São várias as personagens que ajudam Elizabeth desde pequena e todas elas acabam por marcar a personagem de uma forma ou de outra.

No global, cada actor faz um grande trabalho, com destaque para Marielle Helle como Alma Wheatley, a mãe adoptiva de Beth. Moses Ingram como Jolene, a irmã de orfanato que ajuda Beth a adaptar à nova realidade. Thomas Brodie-Sangster como Benny Watts, um campeão de Xadrez extremamente convencido e e Harry Melling como Harry Beltik, um dos primeiros adversários que acaba por se tornar um grande aliado, Isla Johnston como uma pequena Beth Harmon e Bill Camp como o espetacular Mr. Shaibel, o senhor das limpezas do orfanato que ensina Beth a jogar.

Mesmo que existam aqui boas prestações, o destaque vai claramente para Anya Taylor-Joy, a personagem principal. Anya faz um trabalho soberbo como Beth Harmond roubando constantemente a cena a outras personagens, seja tanto a interagir como apenas a olhar para a câmara. Os momentos onde as partidas de Xadrez estão a decorrer são hipnotizantes e o olhar da actriz faz perfeitamente o papel de nos deixar completamente vidrados. De certeza que Taylor-Joy vai ganhar muito mais trabalhos depois desta série.

Sendo The Queen’s Gambit uma série sobre Xadrez, não podia deixar não falar do quão bem feito e interessante tudo parece quando se fala ou mostra o jogo. Desde os sonhos vivos de Beth onde as peças jogam no tecto, até às partidas em si, o Xadrez é tratado com imenso respeito e como uma arte. Cada vez que um tabuleiro está presente, as movimentações e interacções são feitas de forma a parecer o mais espetacular possível, o que é o que a série mais precisa.

Uma valente salva de palmas vai também para a recriação impressionante desta época, especialmente porque vai além das roupas, carros e casas, já que Beth viaja imensas vezes para zonas onde a cultura é bem diferente e o mundo tinha outro aspecto. A isto juntamos também uma boa banda sonora e um óptimo trabalho de pós produção que lhe dá as cores certas para as zonas certas.

Não estava nada à espera que o meu 2021 começasse com O Gambito de Dama, mas lá sucumbi à insistência do Netflix e não fiquei nada dececpcionado. Embora não tenha lido o livro, aquilo que foi adaptado para série, está muito bem feito e com um enorme respeito ao mundo do Xadrez. Também gosto do teor humano e menos calculista da série, fugindo ao estigma de quase todas as séries onde quase todos são uma ameaça.

Depois de terminar The Queen’s Gambit, percebo o motivo pelo qual houve tanta corrida aos jogos e livros de Xadrez nas lojas. A Netflix fez bem em apostar na série e os actores fizerem um excelente trabalho em lhe dar vida. Deviam haver mais séries com a capacidade desta de contar uma história humana sem precisar de dramatizar tudo. Se o que leram aqui vos parece bem, então evitem ver qualquer trailer antes de ver a série, a experiência será muito melhor.

Positivo:

  • Anya Taylor-Joy é cativante
  • História deixa pouco tempo para respirar
  • Boas personagens secundárias
  • Xadrez parece sempre épico
  • Recriação histórica

Negativo:

  • Momentos sentimentais adicionam pouco
  • Pontas soltas na origem da personagem

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