Análise – Dreams

Sempre gostei de mexer em ferramentas de criação de videojogos. Fi-lo com vários programas, diversas ferramentas e todas elas tinham algo em comum, poder fazê-lo sem utilizar código. Assim, todas as ferramentas que utilizei iam sempre dar à lógica. Dreams não é diferente nesse sentido, mas é das ferramentas mais completas e baratas que existem nesse campo.

Tal como Little Big Planet, Dreams entrega uma experiência completamente única aos jogadores, sendo em simultâneo um jogo, uma ferramenta de criação e um espaço para a comunidade que partilha esse gosto. A primeira regra, que não está implícita, mas que aprendi com a minha experiência com estas ferramentas é que tudo demora tempo, por mais fácil que pareça, se funciona bem e é espectacular podem crer que estão ali imensas horas.

Dreams enquanto ferramenta de criação tem uma introdução inteligente a pensar no jogador. Primeiro somos convidados a conhecer “Art’s Dream” um jogo concebido pela Media Molecule utilizando as mesmas ferramentas que são disponibilizadas aos jogadores e onde nos é mostrada a capacidade das ferramentas. Aqui vemos cinemáticas, diálogos, exploração e diversos tipos de jogabilidade. Este primeiro sonho passa também uma mensagem e é um ponto importante para qualquer criador.

Em simultâneo somos também apresentados ao nosso Imp, uma pequena criatura que funciona como ponteiro e é o ponto de interacção entre o mundo de Dreams e o jogador. Este pode possuir marionetas que passam a ser as nossas personagens e permite seleccionar vários objectos durante os sonhos ou mesmo utilizar os menus no modo de criação.

No menu principal podem então explorar as diversas criações publicadas por outros jogadores ou criar o vosso próprio sonho. Na criação do vosso sonho vão começar por interagir com um tutorial. Aqui vão aprender os básicos, desde movimentação de objectos, criação de objectos, activar condicionantes, entre tudo aquilo que é necessário para tornar o vosso sonho num jogo.

Por esta altura pairará no ar uma ideia, um nível, um jogo ou algo verdadeiramente parvo, genial ou incrível e porque não, todos ao mesmo tempo? É normal. Depois de nos apresentarem as ferramentas podemos sonhar e fazer quase tudo. Infelizmente é aqui que o sonho pára para muitos. É realmente necessária muita paciência para tornar um sonho realidade, mesmo que a início pareça algo simples irão sempre existir obstáculos, estes irão exigir tempo para serem ultrapassados. E tempo é a chave de Dreams.

Eu já tive mais tempo livre na minha vida, sem dúvida, e ao tentar mexer nas ferramentas de criação lembrei-me de imediato dos meus primeiros passos a mexer nas ferramentas de Little Big Planet e semelhantes. A início existiam aquilo que posso denominar “as grandes trapalhadas quase funcionais” que mais tarde foram substituídas pelas “pequenas trapalhadas funcionais” e eventualmente por um interruptor e meia dúzia de plataformas. Esse processo foi feito por tentativa e erro, exploração de alternativas e demorou tempo. A razão pela qual lhes chamo trapalhadas é porque elas eram isso mesmo, enormes monstruosidades que cumpriam um objectivo e nem sempre funcionavam, mas eram minhas. Com o tempo fui melhorando mas nunca as esquecerei e foram elas que me permitiram evoluir. Com Dreams passa-se o mesmo, existem diversas maneiras de obter os mesmos resultados, a dimensão da trapalhada depende de vocês.

Conforme fui mexendo em Dreams, fui-lhe apanhando o jeito. É complicado e a diversidade de ferramentas permite fazer praticamente tudo. Desde criar novos objectos ou sons existem muitas maneiras de chegar onde queremos. Se se sentirem muito orgulhosos do que fizeram podem partilhar o vosso sonho e objectos com a comunidade que por sua vez poderá experimentar o que andaram a fazer e até utilizar as vossas criações em futuros sonhos. Dreams para criadores acaba por ser uma ferramenta onde não é complicado começar mas é bastante exigente para que se consiga fazer algo fantástico.

A grande diferença entre Dreams e os restantes jogos que nos permitem criar níveis é que Dreams é uma ferramenta de criação de videojogos, não apenas criar um nível com um conjunto de regras já conhecido. Cabe-nos a nós definir as regras. Desde as condições de vitória ou derrota, se a câmara é fixa ou não, existem inimigos? Existem vidas? Temos armas? É um jogo por turnos? Tudo será definido pelo jogador. Claro que existem imensas possibilidades mas com cada possibilidade vêm regras, restrições e disciplina. Embora seja fácil começar a mexer em Dreams, e diria que o mais simples até é criar um jogo de plataformas em 3D, pois é o mais imediato, é uma ferramenta que exige dedicação.

Do lado do explorador podem neste momento encontrar diversos jogos já disponíveis através do Dream Surfing. Podem pesquisar por temas, sonhos mais jogados ou com mais likes. Na minha primeira visita como explorador encontrei criações verdadeiramente espectaculares, desde re-imaginações de videojogos feitos por fãs (estou a olhar para ti Sly Cooper) a jogos completamente originais de todos os géneros e feitios: simuladores de croquetes, aventuras na primeira pessoa, dramas ou até recriações de momentos únicos. Se o podem sonhar é possível de (re)criar.

A questão que mais me atormentou enquanto explorava Dreams foi mesmo a parte da diversão. Como devem calcular existem diversos tipos de criações e nem todas são boas. Existem muitas criações que simplesmente não são divertidas ou são demasiado ambiciosas e estão lá a título de “work in progress” ou até mesmo criações que foram lançadas com o único intuito de ganhar um troféu ou semelhante. Este tipo de criações ainda compõem uma quantidade considerável do que vão encontrar, tal como seria de esperar e acontece tal como noutros jogos do género. Na minha experiência é aborrecido dar de caras com este tipo de criações até certo ponto.

Se estivermos a falar dos que estão num estado de “work in progress” existem uma larga fatia que são já jogáveis e contam com bom conteúdo e acabei por os adicionar  a uma lista que me notifica quando saem novos updates, é bom ter essa opção. Depois temos criações que estão lá só por estar e acabamos por entrar e sair das mesmas de forma rápida e sem olhar para trás e isso fez grande parte da minha experiência quando procurei por jogos que não estivessem nos melhores pontuados ou mais jogados. O facto de não existir um compromisso por parte do jogador ou do criador faz com que muitas vezes entremos dentro de um sonho olhamos em volta e se não nos sentirmos atraídos pelo que vemos, partimos para o próximo. A segunda parte do sonho até pode ser espectacular, mas se o primeiro impacto não me intrigar ou agradar o mais certo é nem ver o que se segue.

Das várias criações disponíveis existe então de tudo e dado o conceito de Dreams algumas das melhores criações são as verdadeiramente únicas, aquelas que não vemos serem publicadas de forma constante no mercado. Ideias que giram em torno de uma mecânica, pequenos conceitos que nascem e se criam durante uma Game Jam, que são organizadas frequentemente pela Media Molecule em Dreams, estão muitas vezes entre aquelas que mais me agradaram.

Dreams é uma ferramenta poderosa e cheia de potencial, pode ser utilizada para diversos fins e qualquer um pode pegar nela e começar a criar em pouco tempo. Uma vez mais o limite de Dreams está nas mãos da sua comunidade, com uma ferramenta tão poderosa nas mãos de tão diversas mentes o complicado será decidir o que jogar primeiro, pois a cada momento que passa existe algo mais para explorar. Quer sejam criadores ou exploradores, se partilham do amor pelos videojogos, em Dreams irão certamente encontrar algo para vocês.

 

Positivo

  • Art’s Dream é um excelente ponto de partida
  • Existem já imensos projectos de boa qualidade para experimentar
  • Imensas possibilidades
  • Fácil de começar mas exige dedicação do jogador

Negativo

  • O Dualshock 4 funciona mas não é o mais indicado para o modo criação

Latest posts by Alexandre Barbosa (see all)
Share

You may also like...