Análise – Cry Macho

Poucos são os diretores de cinema que se podem gabar de uma carreira tão extensiva e premiada, como a de Clint Eastwood. Mas primeiro um pouco de contexto. Eastwood ficou conhecido mundialmente, através da sua atuação na trilogia de westerns spaghetti de Sergio Leone dos anos 60, em clássicos como The Good, The Bad And The Ugly (1966), e como agente de autoridade pouco convencional na vasta franquia de Dirty Harry (1971). Nos anos que se seguiram, optou por conciliar a carreira de ator, com a estreia, na cadeira de realizador.

Obras como Unforgiven (1992) e Million Dollar Baby (2004) são exemplos disso mesmo, tendo até acumulado vários prémios de excelência por este vasto reportório. Em anos mais recentes, já com uma idade avançada, era esperado que se fosse retirar de cena, mas não foi o que aconteceu, tendo novos êxitos com The Mule (2018) ou Richard Jewell (2019). Se olharmos para o panorama nacional, vemos que Manoel de Oliveira é um exemplo claro da resiliência de certas figuras no meio, tendo este o recorde de realizador em funções por mais tempo, até aos 106 anos de vida, aquando da sua morte.

Portanto, Clint Eastwood ter protagonizado e realizado Cry Macho (2021) aos 91 anos, já não parece algo tão difícil de imaginar. Assim, após vários anos engavetado em Hollywood, Cry Macho (2021) baseado no livro de mesmo nome, de autoria de Richard Nash, chega às salas de cinema distribuído pela Warner Bros e também em simultâneo ao HBO. Antes de mais, devo confessar que esta é a análise mais difícil que já fiz até ao momento. É um misto de emoções: por ser um grande admirador do trabalho e carreira de Eastwood; pelo filme em causa ser, potencialmente, a sua última obra e pelo resultado agridoce que acabou por ser.

A história é bastante clara. Mike Milo (Clint Eastwood) uma ex-estrela do mundo de rodeo, forçado afastar-se  devido a um acidente grave, vive agora uma vida pacata, longe dos holofotes, no Texas. Até que o antigo cowboy é contatado pelo seu último patrão, Howard Polk (Dwight Yoakam), em vista a cumprir uma dívida passada: Mile terá de viajar até ao México, e encontrar o filho de Howard, o jovem rebelde Rafael (Eduardo Minett), entregando-o de volta ao seu pai, que quer recuperar o tempo perdido com este último.

No decorrer deste resgate, Mike embarca numa verdadeira jornada de descoberta com o jovem mexicano, ao mesmo tempo que, inevitavelmente, terá de confrontar alguns dos fantasmas do seu passado. Outras personagens têm também alguma relevância, numa narrativa por si só já bastante focalizada, tais como Marta (Natalia Traven), que irá ajudar o par principal durante a sua travessia. Como se pode ver por esta simples premissa, está à vista, de que se trata de uma reimaginação daquilo que foi feito em Gran Torino (2008).

Contudo, aqui a dupla com potencial para devolver algo de especial, rapidamente cai por terra, muito pela pouca experiência de Minett ao nível da atuação e à vontade em cena. Depois se somarmos, o já habitual ‘homem de poucas palavras’ a uma idade avançada, torna a dinâmica entre os dois um tanto monótona e enfadonha, embora, estejam guardados os melhores momentos, ao nível de diálogos, para a reta final (pena os trailers terem revelado estas cenas).

Sendo que ao nível de atuações, este argumento serve para a generalidade das personagens secundárias. Onde transparecem um estado de espírito muito distante daquilo que é ambientação da obra, isto é, muito pouco convincentes e destoantes. Além disso, tirando uma ou outra fala de diálogo, pouco pano de fundo lhes é dado. E sendo um ‘road trip movie‘ era mais do que essencial, criar personagens cujas interações com o par principal, causassem algum impacto, e em todo o caso, empatia com o espectador, mas é de longe o oposto.

Fora isto, a narrativa em si, não tem grande surpresas, é uma trajetória bastante direta ao ponto. Ainda que o título por si só seja bastante sugestivo, que de início parece que se propõe como uma jogada para a desconstrução e/ou crítica à masculinidade, não é de todo o caso. Fazendo o título alusão ao nome do galo de luta (macho) de Rafael, que proporciona uma ou duas trocas de palavras, bem encaixadas, perto do clímax. Foi uma oportunidade perdida. Eastwood e tantos outros da sua era moldaram um arquétipo masculino, a partir de personagens como Rambo, James Bond ou John McClane, que muitas gerações de jovens copiaram e projetaram em si mesmos.

Clint Eastwood é por excelência a figura do cowboy, da presença misteriosa de poucas palavras, que faz e acontece. Esse tempo já vai longe, o mito caiu por terra, dando lugar a outros tantos novos. Por isso, Cry Macho (2021) é também palco para uma auto reflexão da própria carreira do ator/realizador. Mike é uma personagem totalmente diferente daquela que o próprio nos habituou no passado. Eastwood em cena mostra que deveria ter se afastado do lugar de ator principal, pois a personagem nos livros foi desenhada para alguém nos seus 30 e poucos anos.

Portanto, opção de atuar aqui, espelha-se na mobilidade, já cansada, do astro de western, onde são alteradas inúmeras cenas importantes, adaptando-se a obra cinematográfica, à idade avançada do ator. Sendo a presença do dublê mais do que óbvia, quando se trata de momentos que envolvam maior adrenalina, como no rodeo. Por isso, assim que Mike e Rafael se reúnem, o tom do filme é subvertido, tornando-se praticamente numa leve comédia, onde a crítica e reflexão, dá lugar a momentos com pouco nexo ou importância na história.

Surpreendentemente, é nas questões técnicas, que Cry Macho (2021) se destaca um pouco mais. A cinematografia é impecável, sendo reminiscente de um padrão que já nos tem habituado do passado. É aquilo que se entende por neo western puro. A fotografia é a cereja no topo de bolo, há tempo para as cenas de desenvolverem, criando uma simbiose perfeita com a iluminação e o cenário de fundo. Adiciona-se a esta equação a banda sonora, em específico, as faixas instrumentais, que vão beber ao género country, para assentar durante as múltiplas paisagens do interior americano e do México.

Juntando as peças todas, temos uma experiência muito aquém daquela que Clint Eastwood nos habitou, enquanto realizador. Embora tivesse imenso potencial para, uma vez mais, entregar algo único, aqui é feito muito pouco neste sentido. Está longe de ser uma despedida condizente com tudo aquilo que temos visto até aqui do astro da sétima arte, embora, seja uma experiência completamente digerível.

Confesso que as minhas expectativas possam ter influenciado a minha apreciação geral do filme, e que por isso, me deixou com um sentimento forte de desilusão. Mas convém reforçar que, colocando este olhar de proximidade com a carreira de Clint Eastwood de lado, quem vê de fora, poderá apreciar Cry Macho (2021) pura e simplesmente pela sua simplicidade e minimalismo narrativo.

Positivo:

  • Clint Eastwood de volta às grandes telas;
  • Cinematografia;
  • Banda sonora;
  • Fotografia sublime;
  • Tentativa de passar uma mensagem social relevante;

Negativo:

  • Relação entre Mike e Rafael deixa a desejar;
  • Atuações pouco convincentes;
  • Personagens secundárias;
  • Final anti climático;
  • Algumas cenas arrastam bastante o ritmo do filme sem necessidade;
  • Está longe de chegar aos pés da restante filmografia do realizador;

João Luzio
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