Em 2020, a Netflix já tinha lançado tanto a primeira parte, Siege, bem como a segunda parte, Earthrise, da trilogia em formato episódio de Transformers: War For Cybertron. Um ano depois, para a surpresa de muitos, chega a última parte, que conclui este épico confronto entre Autobots e Decepticons. Na altura, tinha considerado Siege, um excelente ponto de partida, que conseguiu entregar uma experiência digna de todo o legado de Transformers e ainda ser algo refrescante, com temáticas mais maduras e sombrias.
Seguindo-se Earthrise, que ficou muito aquém da anterior, embora positiva, Servindo mais como ponte entre a parte inicial e a final. Agora, com Kingdom chegando à reta final, daquilo que é o lore de Transformers, esta tinha tudo para terminar com chave de ouro, e ser a melhor adaptação alguma vez feita da saga. De facto, sim, a trilogia de Transformers: War For Cybertron é a melhor coisa que saiu da franquia, desde a série animada dos anos 80, dando dez a zero, a qualquer outro filme/série que saiu nos últimos quarenta anos.
No entanto, a qualidade exímia da primeira parte, fez com que as duas continuações parecessem relativamente inferiores. Embora o sejam, há que reconhecer o mérito, pois avaliando como um todo, torna-se uma produção obrigatória para qualquer um que se diz fã deste universo.
Individualmente, e ao contrário do que queria que tivesse acontecido, não, Kingdom não fecha a série com chave de ouro, pois está envolvida em alguns dos mesmos problemas que pautaram a parte dois, mas já lá irei. Vamos primeiro à história. Seguindo a continuidade deixada em aberto por Earthrise, o resquício da resistência dos Autobots, liderados por Optimus Prime, aterram violentamente no planeta Terra, juntamente com os seus rivais, Decepticons, que sofrem do mesmo destino.
Ao invés de encontrar o AllSpark, que serviu de mecanismo narrativo para mover a história até então, dão-se de caras com os Maximals e os Predacons. Ambos são versões de uma linha do tempo futura e alternativa, dos Autobots e dos Decepticons, respectivamente. Isto porque, a série ao abraçar o canon de Transformers, acaba por inevitavelmente trazer as viagens no tempo para cima da mesa. Estes dois novos grupos são de um universo invulgar, onde o AllSpark nunca foi levado de volta para Cybertron, logo, numa versão onde Prime fracassou.
Sendo que os poucos que sobreviveram, viajaram no tempo, para o presente da série, onde os Maximals, aguardavam a chegada de Prime, e os Predacons por Megatron. Cabe agora aos Autobots chegar ao AllSpark antes que este caia nas mãos erradas novamente, evitando repetir-se assim a derrota de Optimus Prime.
Está claro, com esta conjuntura em jogo, que a narrativa ficou mais complexa em comparação às anteriores. Não apenas em torno das temáticas de ficção científica, mas até da própria carga emocional e senso de urgência, que agora está mais elevado do que nunca. Criando por isso, uma ambientação muito palpável, que deixa o espectador realmente investido em cada uma das personagens individualmente, contrariamente, à forma descartada que certas escolhas criativas de temporadas anteriores, tratavam os integrantes de cada fação.
Há portanto, um peso e medida, adequado para cada personagem, sendo um payoff digno daquilo que foi a sua prestação até então, sobretudo para Bumblebee, Megatron e Starscream. O tom sério foi mantido, perto daquele visto em Siege. Foi um elemento que receei que alterassem com o decorrer da série, mas felizmente mantiveram. Pois para todos os efeitos, a série tem em vista um público mais adulto, que cresceu a assistir aos Transformers nos anos 80/90, ou seja, o equivalente à Generation I da Hasbro.
Até mesmo o visual foi sempre mantido e bastante fiel, embora, consoante as novas personagens que vão danda caras, tenha havido maior liberdade criativa para alterações significativas. Nomeadamente com esta terceira temporada, que deu um visual mais digno à linha de figuras de ação, dos Maximals/Predacons, que assumem a forma de animais selvagens e até pré-históricos.
Para quem é conhecedor das nuances deste universo, já percebeu a qual fonte a série foi beber para inspiração. Claramente, houve uma tentativa de replicar elementos de Beast Wars, de onde várias personagens são tiradas diretamente de lá. Não que isso interfira, no mau sentido na narrativa, muito pelo contrário, estas ideias que podem parecer discrepantes no papel, ajudam a mover a história adiante, e até preenchendo alguns vazios no desenvolvimento de personagens secundárias novas. Foi uma novidade incontestavelmente bem executada.
Quanto àquilo que conhecemos, a série, infelizmente, retoma a monotonia dos discursos e desenlaces narrativos que tanto atrapalharam em Earthrise, Outra questão menos bem conseguida, está relacionada com o tratamento da conclusão da trilogia, onde seria de esperar que todas as pontas seriam amarradas. Ainda que seja isso que acontece em boa parte, há aparentemente, outras tantas pontas soltas, deixadas por resolver, a partir daquilo que se vê nos momentos perto dos créditos.
Quem sabe uma trilogia só para Beast Wars ou uma adaptação de Combine Wars? Só o tempo o dirá. Há que reconhecer que o final, que seria para fechar tudo, é atropelado do ponto de vista narrativo, ao ficar à mercê da vontade dos executivos por mais, mais e mais. É satisfatório por um lado, ao haver mais conteúdo novo no horizonte, mas por outro lado, ainda havia muito dizer, em específico naquilo que diz respeito, ao arco de War For Cybertron. Que é o que realmente importa aqui, neste momento.
Não dei muita importância às questões técnicas e similares, uma vez que se mantém consistentemente intactas no decorrer da trilogia. Tal como fiz questão de enfatizar na análise de Earthrise. Olhando como um todo, digo que esta trilogia é uma fantástica ode a Transformers, como há muitas décadas não se via igual, portanto, para quem está reticente pelo menos devia dar uma chance à primeira temporada.
De forma muito sintética, se foram adeptos do que viram até aqui, quer na ótica de fãs de longa data, quer na posição de meros espectadores casuais, vale a pena terminarem a trilogia, e quem sabe até como forma de abrir o apetite para o que poderá estar por vir no futuro. Caso já tenham perdido parte do interesse na segunda temporada, Kingdom embora seja superior, não vos irá trazer ao nível da primeira, sendo a minha recomendação destinada a quem gostou, na generalidade, do que viu até aqui.
Positivo:
- História mais complexa;
- Personagens novas;
- Referências a Beast Wars;
- Temática em torno da ficção científica;
- Vista como parte de todo, até funciona bem;
- Mantém o padrão de qualidade técnica das temporadas anteriores;
- Abre portas para uma possível continuação…
Negativo:
- Mas isso contribuiu para certos aspectos não terem a devida conclusão;
- Problemas da segunda temporada permanecem;





