Análise – Judas And The Black Messiah

Com o aproximar da grande premiação dos Óscares 2021, começam-se a fazer contas quantos aos potenciais vencedores desta edição, nas mais variadas categorias, sendo a “Best Picture” a mais cobiçada de todas. Como tal não podia deixar de passar a ocasião, sem dar a conhecer os meus favoritos da temporada, de entre os quais Mank já havia sido abordado. Para além deste último e de Nomadland, o filme de Shaka King, Judas And The Black Messiah tem surpreendido pela positiva vários festivais de cinema pelo mundo fora (sendo um dos preferidos da academia), e sido nomeado inclusive já em várias categorias, ganho até algumas, quer nos BAFTA, como nos Globos de Ouro. Portanto serve a presente análise para dar-vos a conhecer este filme nomeado, que tem grandes chances de levar a estatueta de ouro para na casa na noite de 25 de Abril.

Judas And The Black Messiah, distribuído pela Warner Bros, apresenta-se como uma obra biográfica que retrata um dos eventos mais marcantes das vidas de Fred Hampton (Daniel Kaluuya), antigo líder do partido dos The Black Panther, e de William O’Neil (Lakeith Stanfield), ex-informante do FBI. É esta dualidade de protagonismo que molda toda a estrutura e carga dramática do filme. Embora esta temática não seja novidade no meio da ficção (veja-se o caso de BlacKKKlansman (2018) de Spike Lee) é inegável a sua importância na história dos EUA e do povo afro-americano, especialmente nos dias de hoje. Com um título sugestivo, o filme abre portas a todo um conjunto de questões que se levantam à medida que o espectador acompanha o desenrolar da história, portanto acaba também por servir como ponto de reflexão para o público.

Aqui o contexto histórico é de extrema relevância, no sentido em que tudo o que acontece logo nos primeiros minutos de filme, através da apresentação de vários factos e imagens reais, serve para apresentar ao espectador aquilo que serão informações preciosas que o ajudarão a entender as motivações por detrás das personagens. Assim O’Neil, após uma tentativa de furto falhada, é levado por um agente do FBI, Roy Michell (Jesse Plemons), que o encarrega de se infiltrar na organização dos The Black Panther, servindo assim de espião daquilo que o grupo andaria a planear. Tal situação foi provocada devido à ascensão de movimentos revolucionários afro-americano em território norte-americano nos anos 60, que segundo o outrora director do FBI, Edgar Hoover (interpretado aqui por Martin Sheen), punham em risco a segurança nacional do país.

De outra perspectiva, é apresentado a visão de Hampton, enquanto figura central dos The Black Panther, que é o elemento agregador e moral da história. Aqui vemos o árduo trabalho posto em prática por este grupo face à repressão que o povo afro-americano vivenciava, que por sua vez, traduz-se também na sua própria visão da história ao espectador. Outros membros também têm espaço de destaque, como a futura mulher do líder, Deborah Johnson (Dominique Fishback), outro elemento humanizador da narrativa e ainda de Jake Winters (Algee Smith) e de Jimmy Palmer (Ashton Sanders), co-fundador do partido em Chicago. Há ainda partes para outros grupos revolucionários, como os The Crowns ou os The Young Lords, mas é nos The Black Panthers que toda a história vai convergir.

Como referi, a presença de dois protagonistas ocasiona a separação da narrativa em dois lados distintos, que se intersectam entre si várias vezes ao longo da história, e que por sua vez servem de base para toda a sucessão de reviravoltas do filme. É possível ver-se ambos os lados da moeda sem necessidade de ocultação de factos mais sensíveis, o que resulta em cenas fortes e marcantes, que claramente irão captar bastante o espectador. Ainda assim, o tempo do filme não é repartido de forma igual por ambos, a meu ver, O’Neil acaba por ter mais espaço para destacar-se do que Hampton, mesmo que o título da obra seja dividido pelos dois, sendo Judas o infiltrado e traidor e The Black Messiah, o líder dos The Black Panther.

Há medida que a história se desenrola, é notável a competência do guião em não criar personagens “preto no branco“, isto é, mesmo que o espectador observe as atitudes imorais de O’Neil há espaço para humanizar a personagem, através do desconforto e preocupação do mesmo para com os membros dos The Black Panther. E por mais que possa parecer uma pequena nuance da narrativa, rapidamente torna-se algo muito mais poderoso, ainda para mais com a sua aproximação face a Hampton e na sua subida na hierarquia do partido. Com toda a certeza um dos pontos que mais agarrou ao filme e me fez preocupar, genuinamente, com o destino de cada uma daquelas pessoas, mesmo que o seu destino já tenha sido traçado nos acontecimentos reais que deram mote ao filme.

Esta ambiguidade da personagem de William O’Neil acaba por criar um paralelo semelhante àquele visto em The Departed (2006) de Martin Scorsese, onde temos momentos que torcemos pela personagem e julgamos que irá mudar de postura,  e outros onde simplesmente ficamos incrédulos, com vontade de odiá-la. E para todos os efeitos, este fator de envolvência faz parte daquilo que um filme pode [e a meu ver deve] provocar na audiência, mesmo que seja um misto de emoções contrastantes ao longo da obra, quase como um carrossel de emoções, sem grande previsibilidade, entre cada subida e descida.

A cinematografia, de extensos planos de câmera, é um elemento que está bastante bem conciliado com a banda sonora, tornando as cenas mais vivas e os momentos mais intensos e sérios. Neste aspecto há também espaço para música de época, com alguns tons de jazz e instrumentos de percussão. O tom do filme, apesar de dramático e trágico em grande medida, tem alguns fragmentos de esperança que se manifestam a partir das sucessivas intervenções revolucionárias de Hampton nos seus discursos ao povo afro-americano. As questões raciais são outro aspecto da ordem do dia, e Judas And The Black Messiah  acentua, e bem, este longo capítulo de injustiças, todo ele ligado, direta ou indiretamente, ao historial do partido The Black Panther tão presente na obra.

Por mais que Shaka King seja um diretor totalmente competente, senti que a certos diálogos e a forma como estes eram encaixados entre cada sucessão de cenas, podiam estar mais polidos e um pouco melhor trabalhados. Por outro lado, tratando-se de uma obra biográfica, consigo fazer vista grossa a este assunto, uma vez que a esmagadora maioria do que é dito tem um fundamento histórico por detrás, daí que se tivesse havido maior distanciação, poder-se-ia ter algo bastante infiel ao que realmente aconteceu naquele período conturbado de 1966.

Com um elenco de peso e um director talentoso a suportar o projecto, está claro que Judas And The Black Messiah apresenta-se como um forte candidato a ganhar na noite dos Óscares 2021, no entanto, não ao ponto de eu puder afirmar, com grande à vontade, que será ele o vencedor da cerimónia. Seja como for,  e apesar da obra não ir a  fundo em certas questões que aborda, torna-se, para já, um dos grandes filmes americanos a ser lançado este ano. Caso procurem uma história baseada em factos reais, com atuações louváveis e convincentes, Judas And The Black Messiah é uma óptima escolha, até mesmo para um público mais casual.

Positivo:

  • História envolvente;
  • Elenco;
  • Cinematografia;
  • Carga dramática;
  • Dualidade de William O’Neil;
  • Contraponto entre o lado de cada protagonista;
  • Contexto histórico fidedigno;

Negativo:

  • Certos diálogos precisavam de ser afinados;
  • Demora a ganhar o ritmo certo;

João Luzio
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