Análise – Mank

Com a aproximação do final do ano, e respectivo encerramento da época cinematográfica, começam-se a fazer contas em relação aos potenciais candidatos, e também vencedores, da edição dos Óscares 2021. Apesar de ter sido um ano conturbado devido às condições provocadas pela pandemia mundial houve espaço, muito graças aos serviços de streaming, para que alguns filmes se conseguissem destacar, entre eles The Trial Of The Chicago 7 ou Da 5 Bloods, entre outros.

Neste âmbito a Netflix decidiu, à semelhança do que fez no ano anterior com The Irishman (2019) de Martin Scorsese, trazer um director de renome de Hollywood para produzir um filme totalmente original capaz de concorrer às grandes premiações mundiais. Assim surgiu Mank, dirigido por David Fincher, também conhecido por Fight Club (1999) e Zodiac (2007), que chegou recentemente a este serviço de streaming.

No entanto, e apesar do recém-lançamento, trata-se de um projeto, outrora arquivado na longa lista de filmes que nunca chegaram a ver a luz do dia, pensado por Jack Fincher, o pai do director em questão, nos anos 90, que quando faleceu em 2003, não conseguiu ter a sua visão colocada em prática. Somente, foi retomado por David Fincher em 2019, com respectivo lançamento internacional a 4 de Dezembro deste ano.

E do que nos fala Mank? Primeiramente, há que entender que se trata de um filme biográfico baseado em acontecimentos da vida de Herman J. Mankiewicz (abreviado Mank), argumentista e responsável pelo desenvolvimento do guião, de um dos grandes clássicos do cinema, Citizen Kane (1941). Esta experiência criada por Fincher pretende, sobretudo, recontar certos eventos que decorreram durante o tempo em que Mank escrevia o futuro guião de Citizen Kane, da pressão exercida por Orson Welles (director deste filme) e também das várias influências que os estúdios de Hollywood e respetivos cenários políticos da altura, influenciaram o resultado do trabalho de Mank.

Antes de avançar para mais detalhes quanto à história e questões técnicas, vale sempre a pena referir, que se torna crucial que o espetador tenha, no mínimo, assistido ao clássico Citizen Kane, senão, irá ser praticamente impossível aproveitar a experiência que Mank (2020) entrega. Não esquecendo, que ainda recomendo, adicionalmente, uma pesquisa antes e após o filme com mais detalhe, sobre os bastidores por detrás da polémica e controversa produção de Citizen Kane, e da relação entre Mank e Welles.

É (em menor grau) como pedir a alguém que veja The Disaster Artist (2017), sem ter visto The Room (2003), pois não só, não irá entender grande parte do que se está passar, como também não irá perceber o porquê de se ter feito um filme acerca da vida de Herman Mankiewicz. Há filmes que mesmo exigindo o conhecimento de um dado contexto histórico, dão todas as informações ao espetador, para que este consiga entender a generalidade da obra, tal como aconteceu em The Post (2017) de Steven Spielberg, já outros, como é o caso, não perdem tempo a informar o espetador, assumem que este tem todas as ferramentas necessárias para entender aquilo que está a ser apresentado.

Posto isto, Mank (2020) inicia-se em 1940, quando a RKO Pictures dá total permissão de liberdade criativa, a Orson Welles (Tom Burke), para produzir a obra que desejar. Consequentemente, Welles entra em contacto com Mank (Gary Oldman) de forma a recrutá-lo para o papel de argumentista do seu novo projeto. A partir disto, a narrativa constrói-se sob a forma de sucessivos saltos temporais, que irão ao encontro de determinados momentos chave, que explicam o propósito de algumas decisões executadas em Citizen Kane. Saltos estes, que vão desde diálogos entre Mank e a sua secretária e datilógrafa, Rita Alexander (Lily Collins) ou da tensão entre o protagonista e William Hearst (Charles Dance).

Complementarmente, os diálogos presentes estão recheados de teor social e político da época, o que pode afastar a atenção do espetador mais casual, e aproximar e agradar o espetador entendido no assunto. Mesmo assim, certas situações vão tão a fundo nos temas abordados, que chega a parecer algo totalmente distante do propósito central, fazendo-me esquecer que estava a assistir a algo acerca da vida de Herman Mankiewicz. O que me leva, novamente, ao facto de que Mank (2020) será algo difícil de engolir para alguém alheio a estas temáticas, por outro lado, certos momentos podem ser totalmente aproveitados, indo ao encontro do carisma das personagem e da forma como as situações são (re)contadas.

Uma das questões, que volta a vir à tona, em Mank (2020), e que é um dos principais pontos centrais da história, diz respeito à polémica de quem realmente deve receber os méritos pelo roteiro/guião de Citizen Kane. Questão que levou à escrita de vários livros (como aquele escrito por Brian Kellow) e que ocupou vários investigadores, críticos e cinéfilos sobre o assunto. De forma efectiva, Mank (2020) assume uma posição própria, contrária àquela entendida como certa na época em que Citizen Kane foi exibido originalmente. Contudo, não chega a ser algo sufocante, capaz de enviesar o espetador a tomar um determinado partido ou lado da história – todos os factos são apresentados de forma clara, e o que não é, fica à margem da interpretação do espetador, mas nada que estrague a experiência.

Indo ao encontro do elenco, este foi mais um de peso, tendo não apenas veteranos da velha guarda como Gary Oldman, Charles Dance ou Bill Nye, mas também alguns que têm vindo a marcar o cinema do século XXI, como Amanda Seyfriend ou Lily Collins. De todos estes, sem dúvida que é Oldman quem mais se destaca enquanto Herman Mank. O seu trabalho envolvia, não apenas, ser fiel à personagem, mas agir de acordo com a época, apropriando-se de maneirismos bem conseguidos. Devo dizer, que a sua atuação foi de tal forma impactante, que consigo muito bem, vê-lo como potencial vencedor do Óscar de melhor actor na época de 2021. No entanto, devido à sua centralidade na história, e embora todo o restante elenco tenha feito um bom trabalho, acabei por sentir que mais personagens teriam sido favorecidas, caso lhes tivessem dado mais tempo de antena.

A escolha de ser um filme filmada a preto e branco, encaixou que nem uma luva, quer por se tratar, em menor grau, de uma homenagem à produção de Citizen Kane (que também foi filmado a preto e branco), como também à própria época do final dos anos 30 e início dos 40, que tanto marcou Hollywood. O uso desta técnica, não fica apenas pelo vislumbre visual, pois é aproveitada para enfatizar de determinadas cenas, como na presença de fumo, como no movimento em cena das personagens, coisa que, a título de exemplo, Schindler’s List (1993) de Steven Spielberg, fez muito bem.

A relação entre Mankiewicz e William Hearst é também palco de observação e análise neste filme. Para quem nunca viu Citizen Kane, este filme tem como protagonista a personagem de Charles Foster Kane, que nada mais é do que uma pseudo personificação de William Hearst, que existiu na vida real, interpretado pelo diretor do filme, Orson Welles. De forma sintética, nesta história, Kane é retratado como um homem financeiramente poderoso, dono de um jornal influente, que retém grande atenção do público, o qual no final da sua vida, acaba por desvanecer e perder relevância.  Em Citizen Kane de forma direta e indireta, várias são as críticas tecidas a Hearst (através da personificação de Kane), coisa que o próprio não gostou, e fez questão de boicotar o filme, antes e após o seu lançamento, uma vez que estava em causa a alegada adulteração e exposição da sua vida pessoal. Daí que a presença de Hearst no filme seja relevante para se entender com maior profundidade a sua rivalidade e antagonismo com Mank.

No final, e embora seja uma obra biográfica, Mank (2020) consegue cumprir a sua função de (re)contar um lado da história da produção de Citizen Kane, ao dar o holofote principal a Herman Mank. Num sentido mais amplo, Mank (2020) é também uma love letter à Hollywood de outrora, que Fincher consegue recriar com grande fidelidade. O diretor consegue assim criar um paralelo com a atualidade, que permanecerá intemporal: da jornada do autor enquanto rema rumo à conclusão da sua obra, lidando e indo contra o vento da burocracia e pressão dos grandes estúdios de Hollywood.

Não obstante, devido aos pré-requisitos de informação e contexto que esta obra exige do espetador casual, torna-se difícil, senão impossível, como referi, recomendá-lo para este último. Mank (2020) poderá para alguns cair, infelizmente, na categoria de “Filme Pretensioso”, no entanto, para quem tem conhecimento dos contornos por detrás, do aclamado Citizen Kane, irá saborear e aproveitar a experiência criada por David Fincher na sua plenitude. Deixo assim, à diferença das outras análises feitas por mim, uma nota extra, de que não valerá muito a pena verem esta obra senão souberem das tais referências que evidenciei anteriormente.

Positivo:

  • Cinematografia e edição executadas com mestria;
  • Love letter para quem aprecia cinema;
  • Recriação da época notável;
  • Apropriação adequada de ser filmado a preto e branco;
  • Atuação de Gary Oldman;
  • Fotografia sublime;
  • Tornar-se-á um clássico memorável e imtemporal;
  • Profundidade da meta linguagem do guião;
  • Interseção entre contexto social e a história do cinema;

Negativo:

  • Para todos os efeitos, é um filme de nicho;
  • Por vezes dispersa-se e afasta-se do conflito central do enredo;
  • Personagens secundárias abafadas em favor da presença de Gary Oldman;
  • Dependente do conhecimento do espectador acerca de Citizen Kane e do seu contexto;

João Luzio
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