Análise – Da 5 Bloods

A interrupção da exibição de filmes durante o período da pandemia, fez com que inúmeras produções fossem adiadas, no entanto, nem todos tiveram o mesmo destino, pois aproveitando a onda crescente de popularidade dos serviços de streaming, várias películas cinematográficas foram lançadas neste enquadramento. Um dos grandes filmes a sair este ano, era o tão aguardado próximo filme do aclamado director, Spike Lee, chamado de Da 5 Bloods, que teve o seu lançamento com estreia exclusiva na Netflix.

Apesar de várias obras cinematográficas que saem diretamente nos serviços de streaming serem classificadas, erradamente, como «filmes de série B», este não é de todo o caso. É um filme que tem todo o gabarito e nível de qualidade  que já nos habituamos nas grandes produções de Hollywood, e desde já digo, que este título poderá ser muito bem um dos grandes filmes indicados à edição dos Oscars 2021.

Tanto que o filme começa expondo vários factos, que irão ser importantes para entender o historial das personagens que serão introduzidas na narrativa. Muhammad Ali ou Malcolm X são figuras recorrentes na história, que aparecem sobre forma de citação ou mesmo através de analepses, pois Spike Lee reforça continuamente que a étnia negra teve um papel crucial nas grandes guerra do século passado. Constatando que mais de 850 mil indivíduos da étnia negra lutaram nestes eventos para obter a liberdade dos EUA, mas que eles próprios nunca verdadeiramente a obtiveram.

O filme tenta misturar elementos de outras películas clássicas de guerra, como Platoon de Oliver Stone ou Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, só que desta vez dá protagonismo a outra perspectiva dos mesmos eventos, aquela que diz respeito aos tais membros da étnia negra que combateram na Guerra do Vietname a favor do seu país americano. Aqui, acompanhamos quatro membros veteranos de guerra, do grupo 5 Bloods: Paul ((Delroy Lindo), Eddie (Norm Lewis), Melvin (Isiah Whitlock), Otis (Clarke Peters) e Norm (Chadwick Boseman), sendo que este último morreu no Vietname.

No entanto, apesar de morto, Norm é presença assídua, levando em conta que o filme transita entre memórias do passado e a ação no presente. Neste aspecto, o filme utilizou as mesmas técnicas de CGI, ao estilo The Irishman. para rejuvenescer os atores no passado. Adicionalmente, sempre que há uma transição, a própria configuração de exibição muda: ora no passado vemos através de 4:3, ora no presente vemos como 16:9, o que acaba por criar uma imersão de tal grandeza, que parece quase que foram feitos dois filmes distintos, que aqui foram encaixados.

Voltando a Norm, o antigo líder é idealizado pelos restantes 5 Bloods, tanto que estes últimos embarcam numa jornada para retornar à localização onde perderam Norm. E junto do seu falecido corpo, encontra-se igualmente uma caixa com barras de ouro vietnamita lá dentro, fruto de uma emboscada de um avião inimigo nos tempos de guerra de outrora. Assim a história gira em torno destes ex-soldados e respectiva ligação. Onde, adicionalmente, David (Jonathan Majors), filho de Paul, embarca também nesta viagem, de forma a recuperar não só o corpo de Norm e enterrá-lo em solo americano, como também fortalecer os laços de ligação com o seu progenitor.

Para Paul, a guerra endureceu a sua personalidade, tornando-o, por consequência, apático à nova vida pós guerra, e ficando traumatizado com os eventos que se sucederam. Paul é “visitado” por assombrações de Norm, cuja morte esteve relacionada de alguma forma com este soldado, mas que para efeitos de não estragar a revelação, não irei explorar mais esta temática. Por outro lado, a presença do ouro naquela região faz o que restou dos 5 Bloods questionarem-se acerca daquilo que realmente importa e se estão lá mesmo para fazer jus à morte de Norm, ou pela mera ganância.

De facto, os elementos de suspense de Da 5 Bloods estão todos diretamente relacionados com as grandes reviravoltas da narrativa, pois o resto do enredo é uma espécie de viagem de autoreconciliação das personagens com o seu passado trágico, o que se traduz em momentos mais calmos e de reflexão, ambientados nas selvas do Vietname. Por falar em ambientação, esta foi reforçada pela presença das cenas nos locais marcantes da Guerra do Vietname. Aqui cria-se um paralelo entre o que foi o passado do povo vietnamita, com o desastre deixado no presente. Assim uma das grandes mensagens da obra prende-se com a transformação, quase profética, enraizada da “never-ending-war“, não apenas aquela sentida em terreno vietnamita, mas sobretudo naquela deixada nas várias famílias afro-americanas, que tentaram e tentam sobreviver por igualdade e justiça.

Surpreendentemente, Da 5 Bloods é o primeiro grande filme que sob a perspectiva de soldados da étnia negra na Guerra do Vietname. E Lee não tem receio em demonstrar todo o massacre, de forma explícita, do sangue derramado dos vários patriotas que sofreram na pele com a guerra. É impossível assistir a Da 5 Bloods e não associar às recentes injustiças que tiveram palco nos EUA em Minneapolis. Spike Lee claramente denotou a sua posição quanto a esta temática, através deste filme, não deixando ninguém indiferente. O que não é de todo novidade, levando em conta que este director é já conhecido pelos seus filmes que defendem várias causas de igualdade racial.

A banda sonora está repleta de músicas dos anos 60 e 70, que marcaram esta fase da emancipação da étnia negra nos EUA, o que vem enfatizar ainda mais a sua mensagem referente à igualdade racial, com faixas como “Got To Give It Up” de Marvin Gaye ou “Bring The Boys Home” de Freda Payne. Há também outras faixas, que como já referi, fazem uma boa homenagem ao famoso Apocalypse Now, com a música “Ride Of The Valkyries” de Richard Wagner.

Spike Lee construiu um filme sobre a amizade de um grupo de soldados veteranos de guerra e daquilo que tiveram de enfrentar. Da 5 Bloods pode muito bem ser interpretado desta forma. No entanto, o filme tem muitas mais camadas que levarão o espectador mais atento, a refletir sobre determinadas questões pertinentes que marcam o dia-a-dia da atualidade. É talvez a melhor produção que saiu este ano, e não apenas porque saíram poucas películas, mas sim porque é efetivamente uma lufada de ar fresco, não só no género de filmes de guerra, mas sobretudo, na perspectiva que adota, dando voz a uma minoria que é pouca representada, neste tipo de filmes americanos.

Positivo:

  • Elenco;
  • Banda sonora;
  • Ambientação fidedigna;
  • Analepses cumprem a sua função;
  • Trabalho de direção bem executado;
  • Mensagens poderosas e pertinentes;
  • Homenagem aos grandes clássicos de guerra;

Negativo:

  • Primeiro acto arrasta-se um pouco;

João Luzio
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