Análise – Vampyr

Vampyr é o estranho cruzamento de um jogo de acção ligado por uma teia de histórias incrivelmente entrelaçadas que nos leva a pensar em cada acção que tomamos. Existem muitos jogos de acção, e existem outros tantos onde a narrativa é alterada pelas nossas escolhas, onde o mundo se altera conforme as nossas decisões e Vampyr conjuga tudo isso num único jogo mas não é perfeito, é um diamante em bruto.

A essência de Vampyr está no ambiente que foi criado de modo a proporcionar uma imersão bem sucedida, desde o visual escuro e sujo aos reflexos e interiores de luxo ou decrépitos, é uma cidade que exige ser explorada. Na rua podemos ter uma noite calma ou tempestuosa, normalmente chove, afinal de contas estamos em Londres. A chuva representa também várias técnicas que foram utilizadas e cuidados tidos na produção do jogo, existindo diferença entre superfícies onde esta embate e respectivos efeitos sonoros. Quando o nevoeiro aparece as ruas mudam um pouco e a verdade é que pelo menos na PS4 até causa alguns problemas de performance. Nos interiores das casas menos cuidadas existem imensas partículas de pó, o que por vezes se mistura numa espécie de motion blur bastante estranho sem nunca o ser.

Esta Londres está dividida em 4 distritos e todos eles interligados através de várias ruas e pontes. Existem parques e zonas de luxo, assim como ruas sujas e imundas, locais repletos de cadáveres e várias formas de explorar e abordar várias situações. As ruas de Londres estão repletas de perigos fora das áreas sociais, existem caçadores de vampiros, Skalls (sub-espécie de vampiro) e vampiros em busca de uma luta. Devido a uma Londres ligada na sua maioria por ruas estreitas com pequenos largos, é normal encontrar um grupo de inimigos e causar barulho suficiente para atrair outros grupos que estejam por perto, o interessante é que estes também se atacam entre si.

Falando então na exploração. Não existe fast-travel por isso vão ter que percorrer as ruas várias vezes, no entanto e tal como já vimos em Dark Souls, existem atalhos para desbloquear que vão facilitar esta travessia, caminhos que inicialmente duram 15 minutos passam a ser percursos de 2 ou 3 minutos. Os inimigos que patrulham as ruas são bastante diferentes entre si e alguns deles até impõem bastante respeito nos primeiros encontros. O jogo faz o excelente trabalho de ir aperfeiçoando estes grupos conforme avançam no jogo, por isso não se admirem quando começarem a ver situações complicadas ao conjugar diferentes tipos de inimigos.

No entanto Vampyr é um RPG e como tal a nossa personagem pode evoluir, para tal têm que ganhar exp. esta é atribuída de 3 formas: completar uma missão/objectivo, matar inimigos ou matar um npc, mas há um senão. Ao contrário do que seria de esperar, matar inimigos quase não atribui pontos de exp. num exemplo prático: matar um inimigo dá cerca de 5 a 15 pontos de exp., completar uma missão escassas centenas e um npc pode ir de 500 a 5000 ou 10.000, a qualidade do sangue é o limite. O que nos leva ao dilema inicial do jogo, somos um doutor que foi transformado em vampiro e tem que salvar vidas enquanto as tira para sobreviver, levando-nos então ao factor da dificuldade do jogo que não é uma opção de um menu, é na verdade o reflexo do vosso carácter. Dependendo do quão “boa pessoa” forem, mais difícil será o jogo. Na 1ª playtrough decidi não matar ninguém, o que resultou em momentos de frustração onde estava permanentemente em desvantagem, existiu sempre uma diferença de 10 níveis ou mais entre Jonathan e os inimigos. Por outro lado quando decidi ser um vampiro que se está nas tintas para os humanos o contrário aconteceu. Agora lembrem-se que este é um jogo de escolhas e consequências e o preço a pagar é bastante alto.

Existem mais de 50 npc divididos em 4 grupos. Cada npc é único na medida em que tem uma personalidade e história diferente, em cada grupo existem várias ligações entre estes npc e conforme a vossa interacção com estes, irão desencadear uma sucessão de eventos que vos pode levar a novas missões, segredos e alterar por completo o distrito. Como médico é o nosso dever entregar remédios aos doentes e como tal, enquanto conversam com os habitantes irão poder curá-los, quanto menos doenças e mais cidadãos vivos existirem num distrito mais seguro e mais informações conseguirão reunir. Se escolherem alimentar-se dos cidadãos e negligenciar a sua saúde irão fazer com que o distrito se afunde num caos absoluto e as consequências são bastante severas em termos de narrativa e alteração do mundo.

O jogo utiliza também uma mecânica que coloca a urgência da evolução de Jonathan numa balança onde o tempo e a condição da cidade estão em jogo. Sempre que queremos evoluir as nossas habilidades temos que dormir o que resulta no avanço do tempo e da própria cidade. Quanto mais acções tomarem antes de evoluírem, seja para prevenir doenças ou alimentarem-se dos cidadãos, maior será a mudança. Por norma os cidadãos vão ficando doentes e o seu estado de saúde impacta a moral da cidade, se por acaso estiverem numa demanda por não deixar Londres cair no caos, então passarão grande parte do tempo a percorrer as suas ruas a entregar medicamentos e a lutar para lá chegarem, como consequência irão também estar mais propícios dar de caras com eventos que exploram as várias facetas dos cidadãos.

Cada um destes cidadãos é único em termos de história, todos eles encontram-se bem delineados e guardam os seus segredos, vão aliás encontrar situações em que estes mentem e a dúvida fica no ar até darem a volta à situação.

De modo a explicar o funcionamento de Vampyr vou tecer uma comparação que parecerá absurda mas a verdade é que não está assim tão longe da verdade. Vampyr pode ser comparado a BloodBorne. O mapa está repleto de atalhos que vão desbloqueando conforme avançam na história e o combate é bastante rápido, baseando-se nos desvios, ataques e habilidades corpo-a-corpo ou à distância e uma habilidade de cura. Enquanto percorrem as ruas de Londres vão ser abordados por grupos de inimigos. Dentro destes, existem bastantes variações e desde velhotas que largam flatos perigosos, passando também pelas clássicas estacas de madeira e até cruzes que irradiam uma aura que nos seca o sangue, há mais do que suficiente para terem cuidado. O combate é bastante divertido e assim que conseguirem apanhar-lhe o jeito irão conseguir dar a volta às situações mais complicadas, mesmo que exista uma grande diferença nos níveis.

A acompanhar o combate está um arsenal variado e que pode ser afinado às vossas necessidades, para completar o sistema existem várias habilidades ao vosso dispor que podem ser desbloqueadas e melhoradas, aliás é ao melhorar estas que evoluem. Onde o jogo decide testar as vossas habilidades no combate sem piedade é nos encontros com Boss. Cada um deles é único e utiliza mecânicas que na sua maioria não voltam a ver em mais parte nenhuma do jogo. São sem dúvida um ponto alto da aventura.

Como um todo é um jogo que funciona bastante bem, as suas forças encontram-se no lado da história e na atmosfera criada, sendo que o combate não ficou para trás; como um conjunto acaba por funcionar melhor do que o esperado. Onde as coisas não correm tão bem é em termos de performance com alguns loadings inesperados quando interagimos com alguns npc ou simplesmente enquanto caminhamos entre ruas, por vezes aparece um loading inesperado. Os loadings são longos e acabam por ser aquilo que mais me chateou em todo o jogo, uma vez que para além dos que acompanham algumas transições de áreas também aparecem estes espontâneos. A banda sonora é um pouco repetitiva apesar de bem conseguida, a falta de variedade fez com que apenas um ou dois temas sobressaíssem dos demais e as vozes, na sua grande maioria, têm uma boa qualidade e transmitem emoções fortes.

Para ver tudo o que existe em Vampyr terão que ser audazes e sortudos, existem mistérios que só serão resolvidos pelos mais perspicazes e momentos que só serão vistos se estiverem no momento certo na hora certa. É um jogo que exige atenção e conta a sua magnifica história através do diálogo, documentos e do próprio ambiente, o mistério do jogo acaba por agarrar os fãs do género mas diria que este é um daqueles casos em que a viagem é largamente superior ao fio condutor. Senti-me atraído pelos dramas da maioria dos personagens que encontrei enquanto via o desenrolar de algo maior, foi deveras recompensador ver as minhas acções a mostrar consequências e subsequentemente terem um impacto no final do jogo.

Esta é sem sombra de dúvidas uma experiência que vale a pena pois conjuga o contar de uma história que pode ser drasticamente alterada por nós enquanto apresenta um sistema de combate bem conseguido e divertido. Apesar de não ter os valores de produção de alguns dos mais recentes jogos o seu foco na história, ambiente e combate acabou por compensar fazendo desta uma das aventuras obrigatórias de 2018.

Positivo

  • Ambiente
  • Personagens
  • Combate
  • Consequências das nossas acções

Negativo

  • Loadings espontâneos
  • Zonas com quebra de fluidez
  • Narrativa principal tem momentos muito bons mas também tem momentos mal aproveitados

Alexandre Barbosa

Videojogos e séries de TV são o seu meio de entretenimento favorito. Desde jogos de plataformas a RPGs todos os jogos são um hipotético interesse. Ganhou também alguns traumas com certos videojogos mas isso já era de esperar. Agora já posso parar de falar sobre mim na 3ª pessoa?

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