Review – Stellar Blade

É incrível aquilo que um jogo consegue fazer por um género e mudar o panorama do mundo dos videojogos. Há uns anos atrás, Stellar Blade teria sido um jogo de acção talvez ao estilo de Ninja Gaiden ou até um Bayonetta, mas o aparecimento de Demon’s Souls, que veio a ajudar a massificar o estilo SoulsLike, fez com que tudo mudasse e muitos jogos passaram a usar este formato, o que é o exemplo híbrido que aparece no novo exclusivo da PS5.

Criado na Coreia e transformado num lançamento exclusivo pela Sony, Stellar Blade é uma das grandes apostas do ano e é certamente um jogo que já não estamos assim tão habituados a ver. A estética vai beber certamente aos jogos coreanos com personagens dentro de um estilo muito próprio, onde se mistura depois com elementos e cenários mais ocidentais que parecem saídos de um jogo ocidental. Num todo, Stellar Blade parece uma mistura estranha de conceitos, mas é isso que o faz ser ainda mais interessante.

Aqui jogamos com EVE, uma enviada de uma colónia de sobreviventes da terra que tiveram de fugir dela devido a uma súbita entrada de uma entidade alienígena. Anos depois, estes anjos são a saída de emergência para acabar com esta praga conhecida como Naytibas. Se esta trama vos faz lembrar Nier Automata, é excatamente porque muito do que aqui está, parece ter sido inspirado pela obra de Yoko Taro, desde o conceito pós-apocalíptico, até ao mistério por detrás do que se passa. Apesar disso e de ter uma construção até bastante cuidada, foi daqueles jogos que demorou a agarrar-me, especialmente por parecer que nos arrasta para um cenário vazio e sem grande explicação, após um momento inicial mais caótico.

Felizmente, depois do primeiro cenário que serve quase como que um tutorial, Stellar Blade começa a ficar mais forte e apresenta mais do seu mundo e personagens, o que lhe dá um pouco mais de vida, mas não totalmente, pois algum do mundo parece bastante artificial e nem todas as personagens são ajudadas pelos actores de voz, que vão de bastante bom, até bastante desvanecido ou errático. Curiosamente, EVE, que parece ser a menos cativante além do visual, acaba por ter bastante carisma nas suas conversas e até na voz. Ela é uma guerreira hábil, determinada e nem por sombras uma menina tímida e inocente, tanto que existem vários momentos onde é a própria que opina sobre o que se passa em seu redor ou se algo lhe parece certo ou errado.

Em termos de progresso, Stellar Blade é um jogo bastante linear, mesmo que tenha algumas zonas em área aberta que podemos explorar de forma mais livre, mas o processo passa sempre por entrar numa nova área, fazer a mesma até ao objectivo, ganhar uma nova habilidade e derrotar um certo inimigo para avançar, muito ao estilo de um Dark Souls. Para terem noção, neste mundo até existem pontos de descanso que funcionam como Bonfires, onde podemos descansar, recuperar poções, melhorar estatísticas e comprar items. Quando usam estes espaços para descansar, até fazem com os inimigos em redor voltem à vida, para que possam matar mais uns quantos, recolher a experiência, Gold, entre outras coisas. Já viram isto antes em algum lado?

Os combates de Stellar Blade conseguem ser brutais, pois os inimigos têm vários padrões de ataque para aprender e além disso ainda existem padrões de reacção, seja para desviar, seja para defender um ataque no timming certo. Como sabem, sou péssimo com timmings, por isso tive de me safar com ajuda de outras coisas, como habilidades que me permitiam levar menos dano, ataques que podiam fazer Spam contra vários inimigos e usar até as armas à distância. Defender dos ataques também é uma opção, mas o escudo não é infinito e ainda levam uma pequena percentagem de dano, o que é um incentivo da jogabilidade para tentar ir pelos métodos de timming.

O giro é que embora seja um Souslike, Stellar Blade não se inibiu de tentar ser por vezes um jogo de plataformas, puzzles e até fez a dada altura, uma brincadeira engraçada onde o jogo quase parecia um Resident Evil, onde o cenário ficou muito ao estilo de um jogo de terror e a única arma passou a ser a arma à distância do drone. Estas ideias são giras e são engraçadas de jogar, o que até mudam um pouco o sabor do jogo, especialmente depois de horas a usar a espada como arma principal. Também mostram que existe aqui possibilidade de abrir a outros géneros e apresentar que embora não seja o foco, acabam por correr bem.

Regressando à dificuldade, Stellar Blade é tão difícil como quiserem, pois existem níveis de dificuldade para escolher, no entanto, encontram ferramentas que nos permitem ter uma segunda chance depois de morrer, ou até power-ups que são verdadeiramente úteis e que fazem a diferença em combate. Estes são especialmente úteis contra bosses, pois estes vão de simples impecilhos a máquinas de matança que temos mesmo de tentar derrotar com ajuda dos counters e desvios. As mortes vão ser muitas e recomendo que usem quer armas à distância, quer items de suporte como as granadas e minas para que não sofram tanto.

Com o sistema de evolução a ir ao sítio, com o combate a fazer o click e a história a ficar mais interessante, a minha opinião sobre Stellar Blade começou a ficar bem melhor. A início fiquei preocupado, pois não estava a ver aqui mais do que um jogo entre o bom e o razoável, felizmente isso foi mudando com algumas horas de jogo. Muito disto se deve ao contacto com o mundo e começar a perceber a verdadeira intenção da jogabilidade e o loop da mesma. Também é positivo que não exista uma penalização grave por morrer, mas alguns checkpoints ainda são bastante longes.

Embora tenha coisas boas para dizer, a minha experiência com Stellar Blade foi longe do ideal, isto porque embora não tenha apanhado nada que partisse a experiência, o jogo está pejado de bugs, incongruências e decisões estranhas. Para começar e pela vossa sanidade, liguem a função de apanhar items automáticamente, não faz sentido estar a apanhar várias coisas que cãem ao chão  no mesmo sítio, quando o jogo pode fazer por vocês. Depois, em alguns momentos certas plataformas não funcionaram como deviam e em pelo menos duas delas fiquei curioso se deveria ter conseguido subir ou não, dado só ter conseguido fazer uma vez.

Depois temos vários bugs visuais, alguns deles até em cinemáticas que supostamente deveriam estar em ambiente mais controlado. O cabelo da EVE, por mais lindo que seja, sofre de clipping constante (tal como vários cabelos ou tecidos espalhados pelos cenários) e o ideal é jogarem em modo de Performance ou médio, porque em Resolução, o jogo fica demasiado arrastado em termos de frames, o que não é ideal para explorar ou sequer combater.

Em relação ao visual em si, há que dizer que gostei do design das personagens e já tinha saudades de ver personagens típicamente orientais da velha guarda num jogo de alto gabarito. É óbvio que EVE e outras personagens foram pensadas como Eye Candy (as senhoras também vão ter alguns belos homens), mas a sua presença neste mundo apocalíptico cheio de detalhe é um mimo e casa estranhamente bem. Tenho de destacar os vários detalhes nos cenários que parece que foram todos colocados à mão de forma pensada e com paixão.

Por último, temos a banda sonora que é também ela claramente inspirada em Nier e se querem que o diga, é igualmente fantástica. Claro que algumas músicas podem se tornar repetitivas depois de estar muito tempo na mesma zona, mas tenho a dizer que neste departamento, há que dar os parabéns à equipa. Isto também não seria de estranhar, visto que perto de metade das músicas do jogo foram compostas por pessoas que estiveram envolvidas com a banda sonora de Nier, por isso existem aqui muito mais proximidades do que apenas semelhanças curiosas.

Stellar Blade ainda é um jogo longo que chega facilmente além das 30 horas. A juntar à campanha principal, existem muitas missões secundárias que os NPC vos dão e outras que podem recolher no quadro de missões. Existem também coleccionáveis para encontrar e os mapas para explorar à procura de upgrades para EVE. Se seguirem a veia Soulslike e quiserem fazer farm a inimigos, vão ter aqui também muito com que se podem entreter.

Embora o primeiro vislumbre de Stellar Blade tenha sido interessante, vislumbrar aquilo em que se transformou é bastante curioso. Depois de ver o primeiro trailer, estava à espera de um jogo entre Nier e Bayonetta e aquilo que aqui está é um todo que me apanhou de surpresa. Não é de certamente um dos melhores jogos de sempre e já tivemos melhores jogos este ano, mas acredito, que tal como outros títulos do género, vai encontrar a sua audiência e tem tudo para vir a ser um jogo de culto. Caso a Sony assim o queira, também tem profundidade para ser uma franquia com futuro. É divertido, é desafiante e acima de tudo uma mescla de géneros que funciona bem e que fica melhor à medida que as horas passam.

 

Positivo:

  • Mundo interessante
  • EVE tem mais contéudo do que podiam imaginar à primeira vista
  • Combate envolvente
  • Banda sonora

Negativo:

  • Primeiras horas de jogo inconsistentes
  • Vários bugs
  • Problemas de clipping frequentes
  • Algumas vozes parecem desligadas

Daniel Silvestre
Latest posts by Daniel Silvestre (see all)
Share

You may also like...

error

Sigam-nos para todas as novidades!

YouTube
Instagram