Mesmo que Animal Crossing fosse um jogo com bastante história, foi um pouco com a ajuda da pandemia que a Nintendo catapultou a franquia para o estrelato com Animal Crossing: New Horizons, o jogo certo na altura certa. O que é certo também, é que embora não exista uma pandemia no ar, o mundo não anda assim tão bem na mesma e aparentemente, a necessidade por jogos reconfortantes e descontraídos continua a existir. Eis que surge Pokémon Pokopia, um jogo pelo qual ninguém esperava e a maioria nem ficou interessada. No entanto, era aquilo que todos precisavam, aparentemente.
A minha viagem por Pokémon Pokopia deve ter sido muito parecida com a da maioria dos jogadores. Mesmo que goste de Pokémon, estava céptico em relação ao que ia encontrar por aqui. É muito óbvio que existem aqui inspirações de Animal Crossing, Minecraft e Dragon Quest Builders (não fosse esta equipa a mesma que os fez), mas existe algo em relação a este jogo que enaltece todas estas qualidades e isso passa por um jogo descomprometido que quer fazer as coisas à sua maneira, enquanto respeita o universo da franquia Pokémon com imenso carinho. Esta mistura é aquilo pelo qual os jogadores ficaram presos e eu também.
Pokémon Pokopia começa literalmente com pequenos inícios, somos um Ditto que resolve fazer cosplay constante do seu antigo dono, o que lhe dá um aspeto e capacidades humanas. O seu objetivo é encontrar o seu treinador, num mundo onde os humanos desapareceram. Os cenários estão despidos de vida e bastante devolutos, mas ao encontrar novos Pokémon, o Ditto ganha novas habilidades que lhe permite encontrar ainda outros Pokémon que lhe dão mais possibilidadades. Podem aprender a criar habitats com erva, aprender a usar ataque de água para regar, aprender a destruir blocos do cenário, cortar materiais, etc.
A primeira zona e horas de jogo servem como um tutorial, mas o jogo abre depois para novas áreas onde é posto à prova aquilo que o jogador aprendeu durante as primeiras horas. Claro que estamos a falar de um jogo tão complexo quanto quiserem, pois não é preciso reconstruir tudo, regar cada planta do cenário ou criar abrigos para todos os Pokémon para progredir na história, mas essa possibilidade também cá está e isso é o que torna Pokémon Pokopia em algo maior do que o apresenta. Os mais novos vão certamente fazer as coisas mais simples e arranjar os cenários de forma mais atabalhoada, mas sei perfeitamente que jogadores mais perfeccionistas vão querer regar cada cubo de terra seca, reorganizar habitats e reconstruir casas até estar tudo o mais bonito possível.
Para realizar todas estas tarefas, o Ditto vai encontrar e até produzir todo o estilo de materiais, desde ladrilhos, passando por tijolos, bancos, fontes, entre todo o estilo de soalhos e bocados de chão que podem imaginar. Querem fazer uma ponte? Podem escolher pedra, mandeira, ou até areia, o jogo não vos corta as pernas à criatividade, mesmo quando estão a usar os materiais errados nos sítios menos indicados. Como é óbvio, se seguirem a história, tudo irá fazer muito mais sentido e aqui sim, existem certos objetivos que precisam mesmo de ser feitos como as missões mandam. A melhor parte, é que não existem limites de tempo nem prioridades, por isso os timmings dependem da vossa pressa.
Uma das coisas que menos gostei em Pokémon Pokopia é a sua introdução de coisas que demoram tempo a fazer com horários reais. Não é que não existam coisas nos biomas que vocês não possam fazer enquanto esperam que algo aconteça, mas estar à espera que um Magmar crie materiais durante horas para construir algo, não é das minhas coisas favoritas. Eu até consigo perceber que os edifícios demorem horas, mas isto é um jogo, porque é que não posso entregar 20 bocados de argila e receber de imediato os 20 bocados já transformados? Ter de esperar por coisas para acontecer a meio de processos, não é o mais divertido.
Como disse, ao menos existem um milhão de coisas para fazer enquanto esperam. Os Pokémon têm sempre coisas para falar connosco ou fazer pedidos e estas interacções são quase sempre divertidas. Existem missões de coisas para coleccionar e como podem mudar entre biomas, dá sempre para ver o que falta fazer em outras zonas. Pokémon Pokopia funciona com um sistema de nível de habitabilidade do ambiente que vai subindo à medida que vamos dando mais conforto aos habitantes de cada aldeia e com isto, aparecem novos items que dão para usar igualmente nos outros biomas. Com o passar do tempo, da experiência e novas habilidades, a exploração passa a ser mais rápida e intuitiva.
Apesar de ser um jogo acessível, Pokémon Pokopia ainda requer alguma habituação e existe tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo que um jogador mais casual pode sentir-se perdido no que fazer. Eu tive a experiência de assitir a sessões de jogo de alguém que costuma jogar muito ocasionalmente e foi notório que a quantidade de processos e hipoteses podem ser assoberbantes, ao contrário de um Animal Crossing onde as coisas acontecem bem mais devagar. A limitação da mochila inicial também não abona à expriência e existem coisas que são explicadas mais à frente que davam jeito logo a início (como é o caso de se poder colocar baús perto das mesas de montagem para os poder usar em cadeia).
Mesmo que o visual de Pokémon Pokopia pareça mais acriançado, acaba por ser um estilo que faz sentido dentro do mundo e estilo de jogo. O impacto com o primeiro cenário torna a experiência num sabor mais agridoce, mas à medida que vão mexendo no mundo de jogo e começam a aproveitar as suas possibilidades, este ganha mesmo vida, com todos os edifícios, ruas bem constuídas, lagos e os modelos muito apelativos de cada Pokémon que passeiam e brincam nos cenários. É um visual que emana tranquilidade e mal entramos num bioma mais estragado, queremos logo começar a dar-lhe vida e torná-lo bonito e cheio de Pokémon.
A banda sonora, embora se repita um pouco ao final de longas horas de jogo, também ajuda a emanar o sentimento de pacatez do jogo. Por vezes ainda conseguem ouvir os sons dos Pokémon quando passam por eles, assim como as correntes de água e o vento, o que fazem da parte sonora uma experiência bastante positiva.
Pokémon Pokopia é um jogo tão grande quanto vocês quiserem. Existe um poço sem fundo de coisas para fazer, construir e melhorar, mas se quiserem ver a história feita e completa, esta anda perto das 30 horas se estiverem a fazer um sprint. Feito de uma forma mais descontraída e com um estilo de jogo mais dinâmico, podem gastar facilmente 50 a 60 horas da vossa vida aqui, ou mais de 100 se forem compulsivos com deixar tudo o mais bonito e arranjado possível. Também podem convidar um amigo para jogar numa zona limitada do jogo e fazer coisas em equipa. É um sistema mais limitado, mas que funciona bem para introduzir amigos ao jogo.
Pokémon Pokopia chegou, viu e venceu e não é à toa que vendeu os números que vendeu. Parece ter sido feito com vontade e paixão pelo universo Pokémon e pensado para criar uma experiência relaxante e gradual, com possibilidades quase ilimitadas onde duas experiências de jogo serão sempre diferentes. É uma aventura cheia de vida, boa disposição e até “catártico” para fazer “detox” de um mundo cada vez mais negro e cheio de problemas.
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