O que diz o Fox? – Artigo 9: Freemium, um conceito irritante

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Dizem que é o futuro. Só não dizem quão lá para a frente é que vai ser. Eu cá acho que tudo o que queiram vender agora é o futuro, ou seja, quanto mais cedo, melhor. Porque se acharmos que será assim daqui por uns tempos, então adaptamo-nos mais facilmente ao presente, mesmo que não tenha… futuro. São uns malandros.

Jogos “Freemium”. São gratuitos, mas pagam-se… “Perdão, como disse?” Sim, caro leitor, é mais ou menos isso. Pode descarregar um jogo sem pagar nada. Pode jogá-lo e não lhe cobram um cêntimo. Mas pode crer que vai sofrer a fazê-lo… Este conceito é muito familiar nas aplicações de aparelhos móveis, como smartphones, tablets, mas também muito presentes nas redes sociais, que, no geral, têm conteúdos mais virados para o imediato, isto é, aplicações ou jogos que nos entretenham por pouco tempo de cada vez que jogamos, mas que sejam viciantes ao ponto de “investirmos” nelas. Investir, entre aspas, porque é precisamente o contrário de investir. Esbanjar é mais correcto. Estivesse aqui o Tio Patinhas e dava-me logo com a bengala por ter dito a palavra cujo nome não pode ser pronunciado.

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Esta máquina de fazer chover dinheiro vai dar jeito para uns jogos gratuitos que quero.

É que há por aí jogos em que se gasta uma pequena fortuna à medida que se joga, não porque é obrigatório, mas porque nos sentimos na obrigação de pagar. O jogo castiga-nos de tal modo se não o fizermos que o mais certo é desistir passado pouco tempo. Muito mais cedo do que gostaríamos. Se fossem logo pagos, por defeito, nem que fosse apenas €1, não duvido que pensaríamos duas vezes antes de gastar mais qualquer coisa nele. Ou são grátis ou não são grátis. Não há meio-termo. Mas afinal há.

Há, porque “só paga quem quer”, que é sempre um argumento engraçado e que costuma acabar com qualquer discussão que se tenha. Só paga quem quer, sim, mas isso não se faz. E se isso me incomoda, então que me mude (outro bom argumento, mais uma vez), porque se não é comigo que vão ganhar, então outros pagarão por mim. Para oito pessoas que optam por não gastar nada num jogo “gratuito”, haverá outras duas que gastam. E, para que isso compense, o que acontece é que esses jogos acabam por ficar várias vezes mais caros do que se tivessem um preço base, sem qualquer custo extra, como eram quase todos os jogos até então.

Mais ou menos, vá. Porque começámos a ver jogos que eram vendidos a um preço normal (já elevado) e que, passado pouco tempo, lá era preciso pagar mais, para ter a experiência completa: o conhecido DLC, ou “Correcção X”, caso se lembrem do meu segundo artigo. Mas isso não foi o suficiente. Todos gostam muito das palavras “gourmet”, “premium” e outras manias, portanto há que lhes dar mais ênfase. O que vai acontecendo é algo como: “obrigado, caro cliente, por ter gasto meia pipa de massa no nosso produto. Contudo, se nos der a outra meia pipa, garantimos-lhe um serviço exclusivo e personalizado, tudo para nos encher os bols.. para o satisfazer em pleno” (com ou sem tisanas… er… ok, esqueçam o que disse).

Não acredito que seja “o” futuro mas, dado o sucesso das redes sociais e a aposta que se faz nestas, é bem possível que vá fazer parte dele, convivendo com os outros métodos já nossos conhecidos. Pelo menos até os jogadores se fartarem (ou até as crianças deixarem de conseguir entrar nos telemóveis dos pais e usar os seus cartões de crédito).

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Ele: “UAU! O papá tem €5.000 para gastar.” Ela: “Póneis com desconto!”

O mercado livre de produção de jogos, chamemos-lhe assim, que vemos nos telemóveis e tablets é quase todo povoado por esses jogos “freemium”, e os jogos que têm este método são, na sua grande maioria, produzido por empresas pouco conhecidas, o que não nos dá muita sensação de segurança, se estivermos a pensar gastar alguma coisa. Mas têm mesmo que ser gratuitos, caso contrário não nos interessávamos por eles, mas sim por algo mais familiar, que nos desse garantias de que era bom. Um dos problemas desse vasto mercado é ser muito difícil separar o trigo do joio, por isso surge um conceito novo, mas mascarado: o “low cost”.

Entre um jogo que custe €3 e outro que se apresente como gratuito, embora não pareça tão bom, o mais provável é irmos para o que nos custa menos. O chamado “value for money” (em português, “valeu por mona”). Tomamos essa decisão todos os dias, em tudo o que seja compra, principalmente nestes tempos de contenção. A mentalidade acaba por mudar, mesmo quando podemos gastar dinheiro em coisas inúteis. Já agora, que se gaste o menos possível. Só que, como disse atrás, os jogos “low cost” estão mascarados, pois são, na verdade, os tais “freemium”.

Jogos completamente gratuitos há poucos e o Fox diz que se é para se pagar por algo gratuito, então mais vale não haver nenhum. Ou então actualiza-se o dicionário.

O que diz o Fox? é uma rubrica semanal de opinião idealizada e escrita pelo membro da comunidade FoxRS. Os temas semanais são livres e podem mudar entre cada artigo. Podem sugerir temas e comentar em baixo.

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Drakath

Bom tema que dava aqui pano para mangas!! Custa-me a crer que a indústria está a seguir por este caminho mas é cada vez mais comum isto acontecer. Detesto quando vejo que um jogo é pay-to-win!
Jogos como League of Legends, Warframe, Hearthstone ainda têm bom senso! Tudo vem incluído no jogo e só paga quem não tem paciência (ou é rico!!).
Mais um excelente artigo, continua assim Fox! 😉

FoxRS

Obrigado, Drakath. E que a sorte esteja contigo no passatempo do FFX. xD

Drakath

Obrigado =P

_GM_

Iwata designa esses jogo de free-to-start. Um bom termo para eles.

Eu acho que todas as produtoras de videojogos precisam de lucrar com os jogos que fazem. Por várias razões, desde manter a produtora a trabalhar, alimentar famílias, etc.. Mas se é para fazer jogos free to play, então que façam grátis para jogar. Para jogar do princípio ao fim. Ou se for um jogo infinito, jogar do princípio até a pessoa não ter mais vontade de jogar, sem gastar 1 tostão.

Problema é que depois a pessoa pode jogar o jogo gratuitamente, mas depois “sente-se” obrigada a gastar dinheiro nele. Comprar créditos, etc.. Exemplo é o Temple Run 2, em que se eu quiser comprar alguns personagens novos, tenho que investir MUITAS horas no jogo para ter os créditos suficientes, ou simplesmente pago com dinheiro real para apressar. Por outras palavras, uma batota, em que tens que usar dinheiro para não teres que passar por esse trabalho todo.

Ao fim ao cabo, esses jogos acabam por dar um péssimo exemplo as crianças. Esses jogos acabam por transmitir-lhes, indirectamente, de que com dinheiro, tudo se consegue, com pouco ou nenhum esforço. De que o dinheiro resolve vários, senão todos os problemas.

IMO, o melhor modo de fazer um jogo free-to-play é mesmo fazer um jogo em que não se paga para fazer download, não se paga para jogar, nem se paga durante o jogo. Mas a produtora tem que gerar dinheiro. Então metam publicidade no jogo. Duma forma que não afecte a experiência de jogo.

Por exemplo, fazer um FPS free-to-play, em que antes de cada partida online, no loading screen, aparece publicidade numa barra pequena, assim como no Youtube. E também fazer algo igual após cada partida online terminar. Acho que isso seria bem melhor do que micro-transacções porque 1)O jogo é grátis, quer para fazer download, quer para jogar; 2)Quantos mais jogarem, mais a produtora gera; 3)Quanto mais o jogo gerar, mais conteúdo a produtora pode produzir para o mesmo; 4)Quanto mais conteúdo o jogo tiver, mais as pessoas vão jogar. E daí gera-se um ciclo.

FoxRS

Free-to-start é bem visto, sim senhor. Gostei muito de ler o teu comentário, GM, tocaste em pontos bastante interessantes, dos quais destaco o de dar um mau exemplo para as crianças. É realmente muito diferente dos jogos na nossa infância, ou mesmo de um Dark Souls. Imagina um Dark Souls em que se pagasse para ser mais fácil, eheheh. Já não há moral, é uma tristeza…

Uma coisa que também estranho é a falta aparente de publicidade nos jogos. Começamos a ver nos jogos de futebol, dentro do campo, lá nos… painéis de publicidade. Não me importava se num GTA ou Infamous ou algo desse género estivéssemos na cidade a passear e ver “outdoors” com publicidade à Coca-Cola, etc. Até podiam ir variando com updates. Era mais uma maneira de financiar o jogo.

Há um joguito de que eu gostava muito no telemóvel, de carros, o Hill Climb Racing. Eu bem que repetia inúmeras vezes um dos níveis, para ganhar os créditos exigidos para novos níveis e novos veículos, mas chegou a um ponto em que bem que podia jogar o dia todo, é mesmo ridículo. A única coisa que ganharam comigo foi uma desinstalação, ainda que tardia (era divertido). E como este são quase todos. Uma desilusão…

No GT6, por exemplo, um jogo “premium” de origem, mas que vende créditos à posteriori. Não percebo bem porquê, sinceramente. Eu tenho o jogo e nunca senti a falta deles. É bastante fácil ganhar dinheiro. Ainda por cima podemos ter um bónus de 130%, 150%, 170% e um máximo de 200% do dinheiro que se ganha por corrida, se fizermos “log-in” em 5 dias seguidos, respectivamente. Foi só uma ganânciazita. Mesmo que só uma pessoa compre, já deu lucro.

_GM_

Eu acredito que mais cedo ou mais tarde vamos ter publicidade dentro de videojogos. Existe tal nos jogos para smartphones e tablets, bem com em sites de redes sociais. Mas no que toca a consolas, que eu saiba apenas na Xbox 360 e Xbox One é que existe publicidade, e é apenas na dashboard.

Talvez, um dia, quando a internet for tão globalizada como a electricidade, e que quase todos os aparelhos tecnológicos necessitarem de acesso a internet para usufruto total do produto, vejamos publicidade em jogos como inFamous ou GTA. No entanto, isso são jogos com um foque maior em singleplayer. No que toca a jogos multiplayer, não vejo nada que impeça a inclusão de publicidade nos jogos. Claro que desde que não interfira no jogo em si. Uma publicidade antes de começar uma partida online de FPS não me afecta, mas já me afectaria sempre que eu morresse e esperasse uns 10 segundos para fazer respawn xD

Silver4000

A Mirosoft tem publicidade nas consolas e ainda assim cobra pelo Online?
Mas nem està longe, na altura da revelação desta geraçao, publicidade enquanto jogamos era o que andava pelas ruas dos rumores.

_GM_

Pois… para aparecer publicidade na dashboard da Xbox 360 precisas de ter internet e de ter uma subscrição Xbox Live Gold.

Não sei bem quanto devem receber graças a publicidade. Mas penso que o que ganham de publicidade que aparece na dashboard não deve ser muito diferente do que ganham com as subscrições Xbox Live Gold.

Silver4000

Haha, passa a Gold agora e tem o privilégio de não ter… digo, de receber publicidade.
Que coisa hilariante 😀

Silver4000

Vamos pegar no primeiro ponto no que toca a este tema.
Quem joga maioritariamente estes jogos mobile freemium? Crianças e adultos que ”nao sao gamers”, e é por isso que caiem na armadilha.
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A maior parte destes jogos freemium é jogar com sorte, sendo que as coisas pagas dao um extra aqui e ali, tudo ok, os extras por vezes até que ajudam, mas sim, ter que pagar por eles é uma porcaria, e as produtoras abusam disso.
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Se fosse um ”jogo normal”, nos teriamos desafios para concluir e receber tais itens extra para poder progredir, pois é a isto que estamos habituados, ”jogar para ser recompensado”, nestes nem por isso, so se joga para matar tempo, e normalmente os ”nao gamers” ficam meio viciados nisto.
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Mas pior do que ter que comprar algo para progredir de nivel, é ter que pedir aos amigos ou ter de esperar X horas para voltar a ter, o assunto dos amigos fica para outra rubrica tua, se te apetecer 😛
Agora o de esperar X horas, por um lado é bom pois obriga a pessoa a esperar, mas por outros é chato, pois a pessoa està com o tempo livre, ou està à espera de algo, e nao pode fazer mais nada enquanto o tempo nao acaba, a nao ser que desembolse €€€
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Depois, pegando no exemplo do GM, temos os jogos gratis que metem uma barra de publicidade, alguns fremium jà tem isso incluido, mas paga-se na mesma, até o Uncharted três online tem isso, mas estamos limitados ao nivel quinze…
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é de facto uma boa ideia, para ser realmente gratis, mas vamos agora pegar noutro exemplo de jogos Freemium.
Se tiverem iOS ou Android, vao ver por exemplo Mistery Room: Layton Brothers, recomendado pelo Nirvanes, esse jogo tem os dois primeiros casos livres, ao estilo demo, e depois o resto é preciso comprar, na sua base é Freemium, nao podemos negar isso, pois jogamos e para continuar é preciso pagar.
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Esta pràtica pelo menos jà estou de acordo, pois deixaram-nos experimentar o jogo, jà que nestas plataformas nao existe o termo de Demo.
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E nao estou a conseguir racicionar mais, por isso vai ficar por aqui 😛

FoxRS

E raciocinaste muito bem até aqui, Silver. xD Também não gosto nada desses jogos em que a moeda é o “tempo”. Porque, como disseste bem, se nós temos um tempinho para jogar, vamos querer jogar. Só que como não podemos, temos de pagar para desbloquear mais tempo, como se estivesse tudo cheio de pressa. E depois ter que chatear os amigos, coitados, que não têm culpa nenhuma, essa então incomoda mesmo.

No caso das demos… são mesmo demos. xD Não se pode chamar “jogo grátis” àquilo. Se temos acesso limitado ao jogo e temos de pagar para desbloquear o resto (não vai lá com muito esforço), então é mesmo uma demonstração mascarada de free-to-play. É estranho não o anunciarem como tal, devem ter feito um estudo qualquer em que as pessoas, se viam que era só demo”, não o descarregavam sequer. Estranho…

Guilhathorn

No que toca a este tópico, posso dizer que já fui jogador deste tipo de jogos (Battlefield Heroes, The Crimes, Tribos, Travian) e que ainda enviei para lá algum dinheiro do saldo do telemóvel (pouco uso lhe dava para além desse) para poder ultrapassar algumas dificuldades nesses jogos. O único jogo que joguei e que era completamente grátis foi o Track Mania Nations Forever Online, apesar de haver uma outra versão paga do Track Mania, o Nations conseguia oferecer muito aos seus jogadores. Acho que já não se devem encontrar por aí exemplos como este hoje em dia…
Mas no presente já não me meto em tais esquemas felizmente, apesar da minha contribuição em falta ser compensada por outros jogadores.
Conheço porém uma pessoa que tem como profissão e subsistência o desenvolvimento de contas de jogos deste tipo para as vender ás vezes por milhares de euros a interessados dentro do próprio jogo ou gente parva xD
Significa que há quem consiga fazer disto um negócio logo acho que cada um deve saber de si e esbanjar o dinheiro onde acha que deve esbanjar, eu cá não o faço.

Prince Omelete

Nunca fui fã deste estilo de modelos e vou continuar a fugir deles como o diabo da cruz. Isto é como os trofeús e gamerscore das consolas, felizmente nas consolas só se gasta o tempo (além do dinheiro do jogo), aqui gastamos para nada, pois é uma realização imediata sem esforço. Eu bem sei o que acontecia às coisas que não tinha de trabalhar para as ter. Mais um grande artigo FoxRS!

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