Entrevista – Careto

A produção de videojogos em Portugal continua a dar cartas e têm surgido cada vez mais projectos e conceitos dentro do género.

Desta vez fomos ao encontro “virtual” da Matilde Albuquerque da MA Studios, a criadora do videojogo Careto, um projecto escolar que está a dar que falar por ser inspirado na tradição do Careto de Podence e ter um conteúdo educacional apoiado por estudo na própria zona.

Lançámos várias perguntas à Matilde e temos aqui as respostas aos vários temas relacionados com o jogo.

PróximoNível – Como surgiu o projecto Careto?
Matilde Albuquerque – No início de 2020 “Careto” surge em contexto académico como proposta a um projeto do curso de Animação e Videojogos na ETIC. Hoje em dia, os jogos são um veículo de comunicação para divulgar a cultura e pareceu-me ser a oportunidade ideal para fazer chegar uma tradição centenária às gerações mais jovens.

PN – Porquê escolher a tradição do Careto?
MA – Já há algum tempo que intencionava interpretar o Carnaval dos Caretos num projeto. As festas de inverno são uma parte muito característica da cultura portuguesa e creio que o jogo “Careto” consiga dar a conhecer mais sobre este ritual de Trás-os-Montes nos dias de hoje.

PN – A arte tem claras inspirações na tradição. Está a ser um grande desafio dar vida a um jogo com este aspecto?
MA – Eu venho de um background de Design de Comunicação, e vejo o design como um processo multidisciplinar. O que procurei desde o início foi criar uma experiência com o jogo “Careto” para dar a conhecer esta tradição. Neste processo, a arte do jogo tem sido intrínseca ao projeto e o “Careto” tem ganho forma a partir dos primeiros esboços no trabalho de campo feito inicialmente. A forte presença dos Caretos em Podence foi a principal inspiração, desde as gravuras das canecas ou os desenhos nas paredes. A bidimensionalidade e iconografia associadas à tradição foram a chave, não só para a arte do jogo, mas para a própria jogabilidade.

PN – Como tencionas evoluir a jogabilidade do Careto?
MA – A intenção sempre foi desenvolver um jogo de plataformas que acompanhe todos os passos do ritual do Entrudo. O “Careto” introduz ao jogador os objetos típicos de Trás-os-Montes, e apresenta desafios como a construção do fato, chocalhar pessoas da aldeia e completar a escultura para a Queima do Entrudo. A minha intenção é que o jogo se mantenha neste sentido.

PN – Ir directamente para o terreno ajudou na direcção do projecto? Qual foi a reação das pessoas da terra?
MA – Visitar a região no ano passado foi essencial para representar da forma mais autêntica o espírito do Carnaval dos Caretos. Todas as casas que desenhei para o jogo existem na aldeia de Podence e todo o universo visual resultou de fotos locais. Como a tradição foi reconhecida como Património Imaterial da Humanidade pela Unesco, em dezembro de 2019, as pessoas com quem falei tinham um grande orgulho pelo reconhecimento de todo o seu trabalho. Mostraram-se disponíveis para ajudar o jogo “Careto”, sendo este uma iniciativa que promove a preservação de uma tradição tão importante. Foi muito gratificante toda a relação estabelecida e atualmente mantenho-me sempre em contacto com Podence.

PN – O facto de ser uma tradição portuguesa poderá dificultar o apelo do jogo a nível internacional?
MA – Presume-se que o Entrudo Chocalheiro venha do tempo dos romanos. Neste sentido, existem várias tradições pela Europa que se assemelham ao nosso Carnaval transmontano e isso pode causar familiaridade. Ainda assim, acredito que a tradição seja carismática o suficiente para despertar o interesse do mercado internacional. Assim como outras personagens tornaram-se ícones dos seus países e da sua cultura – como Heidi (Suíça) ou Vickie, o Viking (Escandinávia) – creio que os Caretos também tenham histórica e visualmente essa força para provocar um interesse cultural a nível internacional.

PN – Se pudesses escolher uma plataforma para lançar o jogo final já amanhã, qual escolherias?
MA – A plataforma ideal para o lançamento do “Careto” seria para uma das consolas, tendo principalmente em consideração o público alvo do jogo – as gerações mais jovens.

PN – Quando esperas ter o jogo terminado?
MA – “Careto” poderá vir a ser instalado na Casa do Careto, em Podence. Neste sentido, a equipa está a apontar para que no último trimestre deste ano já haja a versão do jogo adaptada para o museu. No que respeita a um lançamento comercial, será mais complexo antecipar tendo em conta que está em curso o desdobramentos no que toca à jogabilidade.

Fiquem com o trailer do jogo:

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