Analise Zero Dark Thirty – 00:30 A Hora Negra

Kathryn Bigelow, a senhora que obrigou James Cameron a meter a viola no saco na 82ª Gala dos Óscares da Academia, regressa à berlinda com um projecto na linha de Estado de Guerra – The Hurt Locker.

Apesar de Bigelow não ter repetido a nomeação para o Óscar de Melhor Realizador, Zero Dark Thirty é seguramente dos maiores candidatos ao Óscar de Melhor Filme na cerimônia agendada para 24 de Fevereiro no Kodak Theatre. Será que o filme é suficientemente bom para que Bigelow repita a gracinha e leve a estatueta mais prestigiada da Sétima Arte para casa?

Zero Dark Thirty é um filme sobre guerra, no qual são narrados os meandros e mecanismos colocados em prática pelos operativos da CIA no Médio Oriente para capturar Osama Bin Laden . Bigelownão se coíbe de explorar todos os acontecimentos neste processo, sobretudo as medidas aplicadas pelos agentes norte-americanos na pesquisa de informação, concretamente as polémicas torturas, troca de influências, negociações, cruzamento de informação e retaliações.

A intenção de verdade funciona em tal ordem, que as técnicas de realização e caracterização das personagens, escamoteiam na perfeição o facto de Zero Dark Thirty ser apenas um filme, proporcionando ao espectador uma experiência na qual o senso comum assume a acção como irrefutável e verdadeira.

Zero Dark Thirty é indubitavelmente uma experiência cinematográfica fascinante. Não obstante há alguns problemas provenientes dos riscos corridos em consciência por Bigelow. Por retratar a realidade, as personagens em Zero Dark Thirty não desfrutam de um arco evolutivo, o ritmo da narrativa não permite estabelecer uma relação empática e as interações entre personagens são fugazes e padronizadas. A somar às deficiências dos protagonistas, as forças antagonistas funcionam apenas em eventos, tornando a ameaça abstracta.

Os mais puristas podem argumentar que Maya (interpretada por Jessica Chastain, candidata ao Óscar de Melhor Actriz), sobe na hierarquia profissional e atinge o objecto de desejo proposto desde o princípio do filme, no entanto o psicológico da personagem mantém-se inálteravel. Manifestamente curto tendo em conta que personagem e história são igualmente importantes. Comparando com Estado de GuerraWilliam James (interpretado por Jeremy Renner), evolui como ser-humano, e constrói uma epifania que determina a posição da personagem no mundo.

A realização de Bigelow está estupenda, as opções de enquadramento e a camara ao ombro imprimem dentro das cenas um ritmo extremamente fluido. A sequência final da emboscada a Bin Laden é arrebatadora, as imagens de visão nocturna e os momentos de breu obrigam o espectador a experienciar as dificuldades sentidas pelos militares norte-americanos no teatro de guerra e indicam a minucia da preparação na intervenção.

A edição engrena os acontecimentos sem ferir os saltos cronológicos. O som nos cenários em estúdio ou em exterior é tratado com o intuito de transmitir verdade, aplicando ecos e sensação de distância.

Zero Dark Thirty cumpre a missão com o mesmo sucesso da manobra que aniquilou o líder da Al-Qaeda. Trata-se de uma operação bem-sucedida, mas teria sido perfeita com a captura de Bin Laden. Ou seja, faltou acertar em cheio na construção das personagens. Porém esta pecha dilui-se na qualidade do filme, nas cenas de acção que cortam a respiração e na boa performance de Jessica Chastain.

Enquanto herança de um retrato real, Zero Dark Thirty reúne os ingredientes exigidos. Transpira a sensação de medo vivido no hostilizado Médio Oriente, relata a consciência patriótica dos norte-americanos e a determinação em desempenhar a missão. Mas falta aquele elemento mágico que transcende o quotidiano para uma história inesquecível.

Positivo

  • Realização
  • Realismo
  • Edição Sonora
  • Sequência Final
  • Fluidez da Narrativa

Negativo

  • Subdesenvolvimento das personagens
  • Comparação com Estado de Guerra
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Arez

Ainda ñ percebi como é que o Estado de Guerra “roubo” o Óscar de melhor filme ao Avatar… É certo que gostei de ver o filme, mas ñ passou de um bom filme, nada mais… Ñ lhe dava nenhum Óscar.

Em relação a este filme, estou um pouco retraído em vê-lo, porque ainda ñ acredito que o Bin Laden norreu 😛

Edgar Silvestre

ahahahah. Gostei do humor no comentário. Eu não gosto do Avatar. (vou ver se faço um especial a explicar a minha posição). Zero Dark Thirty não é melhor do que Silver Linings ou Les Miserables. Mas como a Academia adora este tipo de filmes, admito uma surpresa

Tiago Ferreira

Acho o Avatar muito overrated, é daqueles filmes que gostei de ver no cinema mas em casa não me diz nada. Comprei o dvd e ainda só o vi uma vez após estes anos todos. Apesar dos efeitos especiais serem muito bons a história não traz nada de novo, só renova.

Leonsuper

Ainda nao vi o Hurt Locker, mas o Avatar, sendo um bom filme, não tem nada de grande destaque além dos efeitos especiais. Mas admito que é entretenimento de qualidade, na minha opinião há muitos haters que exageram demasiado.

Nirvanes

E para ti o Avatar era o melhor filme nesse ano??

Arez

Ñ me lembro do resto dos candidatos ao melhor filme desse ano, mas de certo que era superior ao Estado de Guerra.

Nirvanes

Havia por exemplo Inglorious Basterds, o Up. O Avatar é um filme muito fraco, a única coisa que tem são milhões de dólares gastos em tecnologia de ponta para fazer um filme com uma história já vista e cliché (é um rip off da Pocahontas) aliada a uma vertente sci-fi completamente desinteressante. Porque é que o Avatar criou alarido? Porque se gatou milhões e milhões em publicidade e porque decidiu usar (o cancro que é) o 3D pela primeira vez, e nem nisso foi pioneiro porque o 3D já tinha sido experimentado 50 anos antes por outros realizadores como Hitchcock por exemplo. Também existe o falso registo de que Avatar é o filme mais rentável de sempre, o que é mentira, porque só o é devido aos preços altissimos de bilheteira que hoje se praticam. Se pegarmos em clássicos do passado percebemos que em proporção há pelo menos uma dezena de filmes à frente, incluindo o próprio Titanic de James Cameron.
Isto tudo para dizer que o Avatar saiu derrotado e bem derrotado dos Óscares, levando as categorias mais técnicas e de efeitos especiais que seria a única coisa realmente merecida. O Hurt Locker é muito mais filme.

Tiago Ferreira

Não vi este fim de semana ;(

Edgar Silvestre

é um bom filme. ainda não teve tempo para amadurecer. não creio que seja daqueles filmes, no qual vou decorar todas as deixas e ver vezes sem conta

r2

Não sou perito, mas acho que já não se chama Kodak theater xD

Edgar Silvestre

É verdade, é o Dolby Theatre

r2

Ah, e já agora parabéns pela análise, gostei bastante 😉

Maroan9

Não sei se aqui é o sito certo para dizer isto, mas já há muito que estou para o dizer: Nunca pensei usar um site de jogos como o meu local preferencial para obter as mais recentes novidades de filmes! Posso dizer que venho mais ao PróximoNível pelas noticias cinematográficas do que pelos jogos! Eu adoro o trabalho do resto da equipa, sou fã desde o MyGames, e acho este projeto louvável em Portugal, mas… o teu trabalho Edgar Silvestre tem sido fenomenal!! Muitos Parabéns e obrigado pelo tempo que nos dedicas!

Edgar Silvestre

obrigado pelo comentário. Acredita que dediquei bastantes horas a redigir esta análise. sou bastante exigente e tento ter um compromisso de qualidade comigo e com a comunidade. Incentivos como esse ajudam a manter esse registo, Obrigado

Maroan9

Mais uma vez, o muito obrigado por essa exigência e por essas horas! Na minha opinião, todo esse esforço está reflectido na qualidade do trabalho!

Eduardo Cortez

Já somos dois, o trabalho do Edgar tem sido top!

Edgar Silvestre

obrigado Eduardo. Já estou a escrever a análise de Django Unchained

Nirvanes

Como? Pirataria? 😛

Edgar Silvestre

ante-estreia

Ghost

3 comigo =D

Nirvanes

Vim de lá agora 🙂

Concordo contigo, acho que os personagens desenvolveram pouco, e o filme realmente gira muito à volta no desfecho que toma no fim. Eu achei interessante, e eu não gosto muito deste tipo de enredos e localizações de guerra (os cenários destruidos, solarengos e amarelados, as mantas, as pessoas de pele escura. A própria tradição… não gosto muito de ver aqueles países e habitualmente cenários de guerra não me agradam). Vi o Hurtlocker, e apesar de não me lembrar muito bem, tenho o feeling que gostei mais na altura do que este.

Da cinematografia não consigo dizer muito, acho que o filme insiste tanto em nos envolver naquilo (e por vezes, no inicio, pode ser difícil de acompanhar o ritmo) que nem há grande espaço para apreciar as imagens em si. O que mais me chamou a atenção foram as imagens de satélite do sitio onde Bin Laden está, acho que é um bom objecto visual e fizeram bem em usa-lo na publicidade etc… e também gostei muito do plano final. Acho que é importante para perceber a personagem que se mostra dura do inicio ao fim.
Percebo o alarido, por vezes quase que parece um documentário, mas o background para além da caça ao homem principal realmente sabe a pouco.

Edgar Silvestre

pois é, falta qualquer coisa. Aparentemente nem a Bigelow soube identificar, se não teria ficado melhor. Eu também não sou de filmes de guerra, mas este até está bom, pelo cruzmenteo de informação e a preparação da invasão à residência. Deu a entender que é um processo exigente e detalhado. Só não percebi porque é que os terroristas não gostam de Slayer.

Nirvanes

Viste o Hurtlocker? Eu achei melhor sinceramente 🙂
Sim que é um estudo intensivo da história entende-se!
LOL lembro-me de ter pensado o mesmo! Engraçado por acaso, como é que será que as bandas se sentem quando sabem que alguma da sua música é usada para torturar pessoas? Deve ser um grande incómodo.

Edgar Silvestre

vi o Hurt locker, e gostei. sobretudo das decisões de realização e algumas medidas a aproveitar a captação em digital. e o fim é espectacular. o filme foi sempre assente na noção de “decisão” e foi uma optima linha guia

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