Análise – Venom: Let There Be Carnage

Há três anos atrás, quando Venom (2018) conseguiu entrar na lista dos dez filmes que mais arrecadaram na bilheteira, somando a cena pós-créditos, estava claro que uma sequela estaria a caminho. Na época conseguiu dividir os críticos e o público. Os primeiros detestaram o filme, evidenciando todos os problemas técnicos e cinematográficos, bastante palpáveis. Já o segundo grupo, na maioria, gostou do que foi entregue, aceitando o tom cómico pouco usual e a simplicidade do enredo.

Para todos os efeitos, tanto há época, como agora, Venom (2018) é um blockbuster que deixa muito a desejar. Em Venom: Let There Be Carnage conseguiram pegar em vários aspetos elogiados no primeiro filme, mas repetindo a mesma fórmula e temáticas, cobrindo-o por um tom ainda mais leviano. Desta vez, o realizador anterior, Ruben Fleischer, sai de cena e abre espaço para o famoso ator Andy Serkis, conhecido pelos seus papéis de captura de movimentos (Gollum e Caesar), assumir a direção. Sendo uma produção da tutela da Columbia Pictures em conjunto com a Marvel Entertainement, distribuído pela Sony Pictures.

A narrativa segue-se pelo gancho deixado em aberto na longa-metragem anterior, com a apresentação de Cletus Kasady (Woody Harrelson) servindo como alavancagem para mover a história adiante. Trazendo ao ativo, o par de protagonistas, Eddie Brock (Tom Hardy) e o simbionte mais conhecido da Marvel. Ora devido aos acontecimentos do filme anterior, em particular na separação de Anne Weying (Michelle Williams) de Brock, este último acaba por desenvolver uma relação de maior intimidade e proximidade com Venom.

E isto contribui para fortalecer a temática de romcom, que a internet adorou, da produção de 2018. O núcleo central de tudo aquilo que esta sequela se propõe a entregar, parte daqui. Acabando por, inevitavelmente, seguir em torno do impacto e consequências que determinado evento teve na relação entre os dois. E como seria expectável, momentos de humor não faltam. De tal modo, que em certas ocasiões, chega a ser demasiado intrusivo, pois abruptamente quebra situações de tensão e/ou forte carga dramática.

Claro, que isto por um lado, pode eventualmente divertir quem já esperava este tipo de situações. Mas avaliando do ponto de vista de que se trata de Venom, uma personagem particularmente mais densa face ao restante leque de personagens do chamado ‘Sonyverse‘, é praticamente impossível conseguir levar o filme a sério. Talvez seja mesmo esse o segredo para quem quer aproveitar a experiência que esta continuação oferece. Sendo um filme de ação, enquadrado nos típicos moldes do subgénero de super-heróis bastante simples, quase como se fosse retirado diretamente da galeria dos infames filmes da Marvel dos anos 2000s.

Seja como for, e regressando à narrativa, Brock é envolvido num caso, a pedido do seu superior, Patrick Mulligan (Stephen Graham), que o coloca, lado a lado com Kasady no epicentro da história. Após uma situação inusitada que inclui uma das muitas habilidades do simbionte, o espectador é introduzido ao real conflito principal do filme, e que justifica o antagonismo entre Kasady e Brock. Tal situação, por uma coisa levar à outra, é também introduzido o tão aguardado Carnage, que acaba por ter uma relação, semelhante àquela vista entre os co-protagonistas, com Kasady.

Carnage embora tenha uma introdução impactante, buscando inspiração em Maximum Carnage (1993), todo o desenvolvimento seguinte é bastante fraco. Tendo em conta que o seu nome carrega em parte o subtítulo do filme, era de esperar que houvesse maior embasamento para justificar a presença deste simbionte. No entanto, é feito muito pouco neste sentido, pois há várias pontas soltas no enredo, no que diz respeito a esta personagem. Mesmo a sua ligação com o assassino em série, é algo que não foi trabalhado de forma atempada.

Muito disto deve-se pela sua apresentação abrupta no segundo ato, quase na metade do filme. Logo houve muito pouco tempo para que tal fosse bem executado. Ao nível do argumento, há uma pressa visível em se correr para o confronto entre os simbiontes, onde tudo é empurrado, deixando muitas perguntas por responder. De notar que o filme tem pouco mais do que uma hora e meia, o que reflete à partida, qual era o propósito da obra, focando mais nas situações cómicas e no espetáculo visual, de forma a encobrir a debilidade destes aspetos.

Já que falei no dito confronto. Leva-me a dois pontos que acho importante serem frisados. Um dos aspetos enfatizado no marketing do filme e naquilo que o público esperava, era realmente ver Carnage, e também Venom, em ação. Estes momentos não são assim tão frequentes, pois mesmo o simbionte vermelho apenas contém duas cenas marcantes no filme inteiro, uma delas muito breve, e a outra no clímax. O que será uma desilusão para muitos. De qualquer maneira, o choque entre estes simbiontes, está muito bem trabalhado, tanto ao nível daquilo que se espera de uma cena de ação carregada de CGI, como surpreendentemente ao nível da fotografia.

E isto leva-me à escolha, novamente, de PG-13. Muitos fãs esperaram que tal barreira fosse levantada, mas tendo em conta o sucesso do anterior com tal limitação, fez com que a produção mantivesse a escolha. Devo dizer que aqui, nota-se bem mais a perda de oportunidades que uma história, para o universo que apresenta a rivalidade entre Venom e Carnage, poderia ter tido. Desde gore à violência visceral, que estes ingredientes poderiam ter saído a favor da experiência de Venom: Let There Be Carnage, mas não é o caso.

São apresentadas mais duas personagens novas. O tal detetive Mulligan que à partida não tem grande importância no filme, mas que, os fãs das comics mais atentos, irão ficar satisfeitos com uma determinada escolha, feita com a personagem. E ainda, Frances Barrison (Naomie Harris), sendo o interesse amoroso de Kasady. Embora seja uma adição conveniente à narrativa, servindo de ponto de viragem para o segundo ato, a relação entre os dois tinha muito potencial ainda a ser explorada, em especial levando em conta a natureza dos seus poderes. Mas a longevidade do filme aliado aos contratempos do argumento, fazem com que seja mais uma oportunidade desperdiçada.

Como último ponto, não há como fugir à cena pós-créditos. Praticamente, todo o marketing em torno do filme, nas últimas semanas antes da estreia, girou em torno de entrevistas, especulações e possibilidades quanto àquilo que esta cena era e quais as suas consequências. É verdade, é realmente uma grande surpresa (caso tenham escapado de levar spoiler), e com certeza irá ofuscar toda a discussão em torno do filme. Para o bem ou para mal, quando se considera uma cena pós-créditos como um dos pontos altos do filme, ou é porque realmente é algo fora de série, ou o resto da experiência deixa muito a desejar. E no decorrer da análise dei a entender qual das duas foi.

Regra geral, é raro uma sequela superar o original, mesmo que o original em questão seja o Venom (2018), o que não é lá grande feito. Mesmo assim, Venom: Let There Be Carnage filtra grande parte dos problemas do seu antecessor, e aposta nos elementos que mais tiveram sucesso. Como todas as análises, este é sempre um ponto de vista pessoal, e embora este caso não seja exceção, é de reforçar que a avaliação que dou a esta continuação deve-se totalmente ao facto de que ter consciência (e a produção por trás também o sabe) que há um público para este tipo de filmes.

E dentro desse espectro, o resultado não é o pior. Claramente que quem gostou do primeiro, irá com toda a certeza gostar ainda mais deste. Mas caso este último não vos tenha convencido, dificilmente será esta continuação que vos irá mudar de opinião. O futuro parece promissor quanto às portas que a cena pós-créditos abre para o Sonyverse, por isso, Venom: Let There Be Carnage é, ao fim ao cabo, mais importante quanto às hipóteses que propõe para o futuro da personagem, do que propriamente pelo valor intrínseco do filme em si.

Positivo:

  • Química entre Eddie e Brock;
  • Cena pós-créditos;
  • Confronto final entre Carnage e Venom;
  • Fotografia escolhida para as cenas de ação;
  • Supera em qualidade o primeiro filme…

Negativo:

  • …Mas ainda está longe de ser uma experiência competente;
  • A ligação de Kasady e Barrison pouco explorada;
  • Humor, por vezes, consegue ser bastante intrusivo;
  • Carnage com muito potencial desperdiçado, ficando aquém do esperado;
  • Indicação PG-13 limita as possibilidades criativas do filme;

João Luzio
Latest posts by João Luzio (see all)
Share

You may also like...

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
error

Sigam-nos para todas as novidades!

YouTube
Instagram
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x