Análise – The Medium

A Bloober Team tem tido um repertório de jogos mais focados no terror, tanto psicológico como de acção, e lançamentos como Blair Witch, Layers of Fear e Observer foram alguns desses projectos produzidos pelo estúdio polaco. The Medium era ideia concebida em 2012 para ser lançada no PC, Xbox 360 e PS3, mas acabou por ser adiada para tirar partido de uma melhor tecnologia, reaparecendo como um exclusivo Xbox Series e PC.

Seguimos o jogo pelos olhos de Marianne, uma rapariga com poderes sobrenaturais que se baseiam na capacidade de comunicar com as almas de pessoas mortas e manipular energia sobrenatural. A protagonista irá investigar um hotel polaco de nome Niwa não só para descobrir a fonte dos seus poderes como também a razão pelo qual anda a ter um sonho muito estranho que envolve o homicídio de uma pequena criança. Todos os elementos para um jogo de terror interessante estão assentes, mas será que a fórmula dá resultado?

Um dos aspectos mais interessantes é o facto do jogo ter ângulos de câmera fixos, um pouco como era feito no início da série Resident Evil, sendo que as referências à vertente clássica desta série da Capcom não se ficam por aqui. Este tipo de abordagem pretende dar uma perspectiva mais artística e fixa daquilo que o director pretende mostrar de cada zona e parte do jogo. Apesar de haverem focos específicos, a câmera acompanha ligeiramente a personagem até à altura necessária para mudar. Dentro deste estilo, achei bastante fácil movimentar-me com um comando graças aos analógicos, mas no teclado estamos limitados a quatro direcções o que limita um pouco a livre movimentação e rotação.

A exploração e investigação é um dos sistemas de jogo de The Medium. Apesar do jogo possuir elementos de jogabilidade bastante leves, não impedem de o tornar uma experiência apreciável. Pessoalmente gostaria de ver algo mais neste sentido, mas em prol deste jogo específico, o que encontramos funciona perfeitamente. Marianne irá apanhar e combinar items ao estilo Resident Evil para progredir na história, abrir portas bloqueadas por forças misteriosas, ter flashbacks do passado ao interagir com alguns items e até resolver puzzles, mas o jogo não se fica por aqui.

Um dos pontos de destaque deste jogo centra-se na capacidade de Marianne navegar entre o mundo real de nome Material World e outro mundo paralelo com um aspecto mais infernal e sinistro de nome Spirit World. Apesar de grande parte do jogo decorrer no mundo real, existem partes em que o mundo sinistro se manifesta e iremos controlar a protagonista nos dois mundos em tempo real e com o ecrã dividido. Por vezes precisamos de efectuar acções específicas num certo mundo para conseguir progredir em ambos e isso abre as portas para alguns quebra-cabeças inteligentes.

A maneira como estes dois mundos vivem entre si torna toda a experiência mais interessante e existem aspectos específicos para cada um deles. No mundo real iremos empurrar obstáculos, criar algumas plataformas e interagir com objectos, enquanto que no mundo paralelo, precisamos de entrar num modo paranormal ao estilo experiência fora-de-corpo capaz de matar a personagem, para chegar a pontos que não são possíveis dentro do mundo real. Mesmo assim, os mundos são semelhantes no que toca a resolver puzzles, activar engrenagens ou até encontrar chaves para progredirmos, sendo que muda apenas o tema de cada um dos mundos.

Este tipo de conjugação entre os dois mundos e a maneira como sem complementam tornam toda a experiência bastante fresca. Com o ecrã dividido podemos ver Marianne a interagir com personagens que já faleceram no mundo paralelo, mas no mundo real essas mesmas personagens não aparecem, dando a sensação de que a personagem está completamente louca da cabeça e a falar para as paredes, um detalhe que eu achei genial por parte da Bloober Team.

A energia espiritual é um tema recorrente neste jogo, e é usado um pouco como recurso para podermos interagir no mundo e até resolver alguns problemas pelo caminho. Marianne tem a capacidade de absorver e usar essa energia no Spirit World, sendo que necessita de tal para se proteger de entidades que a matam ou até arranjar equipamentos que deixam de funcionar. Existem poços dessa energia que recarregam Marianne e dão a hipótese de usá-la à sua vontade.

Quando somos introduzidos à entidade The Maw, o jogo toma uma vertente mais furtiva e survival-horror, no qual precisamos de fugir e nos esconder do mesmo. Apesar dos seus murmuros e desejos de morte da personagem, The Maw é um monstro bastante lento e com dificuldades de suportar a luz do dia, sendo no geral fácil de evitá-lo e enganá-lo sempre que nos cruzamos com ele.

Metaforicamente, este é um jogo pesado em todos os sentidos e isso consegue oferecer uma excelente experiência para o jogador. The Medium é um jogo lento com pouca acção a acontecer, sendo ele mais focado no ambiente, almas de personagens falecidas e na estética altamente sombrio que nos rodeia. As nossa interacções serão feitas em grande parte com o ambiente que estão desprovidas de actividade ou qualquer tipo de vida.

Falando de ambiente, The Medium é um jogo que aposta fortemente numa apresentação sinistra e bastante escura. Apesar de escuro ser um bom adjectivo para descrever o Material World, toda a estética e ambiente desta vertente dependem disso e que neste jogo está bem feito. No Spirit World temos uma estética infernal e funcionando quase como efeito de comparação, podemos ver os dois mundos lado a lado em certas partes do jogo e o excelente trabalho feito em manter o jogo semelhante com dois tipos de temas.

Marianne é uma personagem bastante vocal do que está a ver e a questionar a sua sanidade mental em certas partes, e isto é ajudado graças à actuação de voz da actriz Kelly Burke que transmite bem os sentimentos da personagem. Troy Baker marca também a sua presença representando The Maw, outra personagem que ocupa um lugar de destaque neste jogo e fá-la muito bem. Toda a sonoplastia está também fabulosa e isto graças ao trabalho de Arkadiusz Reikowski e Akira Yamaoka – designer japonês responsável por vários títulos de renome inclusive a série Silent Hill.

The Medium foi uma enorme surpresa, um jogo um pouco mais compassado e com uma quantidade de acção mais reduzida que favorece todo o terror psicológico que a Blobber Team pretendeu transmitir. Graças à constante introdução de vários elementos até à apresentação do vilão The Maw, este é um jogo que nos mantêm constantemente atentos e vai trazendo alguma frescura no que toca ao tipo de jogo e conteúdo.

Pode-se dizer que o ano começou muito com o lançamento de The Medium, um thriller que oferece uma experiência inquietante mas o enredo consegue conquistar os jogadores até ao seu término. É um jogo aconselhado a todos mas em específico para os amantes de terror psicológico.

Positivo:

  • Conjugação entre o Spirit World e Material World…
  • …e o design de todo o sistema
  • História envolvente
  • Arrepiante mesmo com pouca acção
  • Palmas para toda a vertente audiovisual

Negativo:

  • Câmera fixa acaba por afectar um pouco a jogabilidade
  • Demasiado fácil no geral

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