Análise – The Harder They Fall

Western é já considerado um género arcaico, tendo o seu auge ocorrido em meados no século passado. Mas ocasionalmente uma ou outra surpresa vem à tona, e 2021 já provou ser um bom ano para o género, com o regresso de Clint Eastwood à realização e atuação em Cry Macho (2021). Desta vez é a gigante do streaming, a Netflix que avança com um orçamento milionário de quase cem milhões de dólares para financiar, o que parece ser o maior Western desde The Hateful Eight (2015).

O anúncio de The Harder They Fall (2021)  passou-me completamente ao lado, só há coisa de pouco tempo é que tomei conhecimento do seu lançamento. E aqui estou para falar sobre ele, daquele que considero o filme que mais me surpreendeu este ano (não necessariamente o melhor). A realização ficou a cargo de Jeymes Samuel, marcando a sua primeira longa-metragem produzida. Trata-se de um Neo Western no mais puro sentido, sendo o foco na veia de filmes blaxploitation dos anos de 1970s, vincada pela presença de atores e atrizes afroamericanas. 

Começando pela figura de destaque principal da história que é Nat Love (Jonathan Majors), um cowboy renegado que, junto do seu gangue composto por Bill Pickett (Edi Gathegi) e Jim Beckwourth (RJ Cyler), procuram vingança de um dos homens mais perigosos da época, Rufus Buck (Idris Elba), o antagonista do filme. Logo ao início, ficamos a saber que apesar de todas as personagens terem existido naquele período histórico, sendo reais, o argumento decide tomar contornos diferentes, criando algo próprio, uma ficção.

Dito isto, The Harder They Fall (2021) vai buscar inspiração a clássicos como The Outlaw Josey Wales (1976) para desenvolver a narrativa, simultaneamente que aproveita a ação e o estilo de contemporâneos como Quentin Tarantino, através de Django Unchained (2012). É uma escolha interessante entre passado e presente, que flui muito bem, até porque a essência daquilo que o diretor se propõe a contar é na sua forma mais pura, a tradicional história de vingança. Uma vez que Buck ao ter assassinado a sangue frio os pais de Nat, enquanto este ainda era uma criança, dá início ao mote do filme, que se encaminha para uma jornada de retaliação com um rasto de ódio e sangue pelo caminho.

A dualidade destas duas figuras acaba por render pouquíssimos momentos em que ambos contracenam. Sendo que grande parte daquilo que é contado, se foca ou em Nat e o seus aliados a eliminar um a um, os membros da gangue de Buck, composto por Trudy Smith (Regina King) e Cherokee Bill (Lakeith Stanfield). Ou se foca, neste último, enquanto se reestabelece na sociedade que outrora foi sua, antes de ser encarcerado. Inevitavelmente que ambas as perspetivas se intersectam algures perto do final do segundo ato. Porém, levando em conta a pujança dos interpretes destas personagens poderia ter sido algo com maior visibilidade.

As restantes personagens não ficam atrás, sendo de destacar Mary (Zazie Beetz) antigo interesse amoroso do protagonista, e Bass Reeves (Delroy Lindo), o marechal daquela região. A escolha de trocar a etnia das personagens não é de todo ao acaso, pois para além de se tratar de um ficção onde as nuances históricas podem ser facilmente ignoradas, o filme pretende também dar um olhar diferente das habituais produções Western, cujos elencos são maioritariamente vincados por personagens caucasianas. Sendo por isso esta adição um ponto positivo de rutura e de diferenciação da restante indústria.

O que me leva à escolha da banda sonora. Conta com várias composições originais modernas, que se interligam muito bem com a sonoplastia dos clássicos de Western. Sendo fruto da contribuição e parceria de artistas como Jay Z, Seal, Conway The Machine e muitos outros. Não são propriamente as escolhas que vêm primeiro à cabeça, quando pensamos neste género, contudo, Samuel é capaz de surpreender, ao modernizar de forma única, através da criação musical. Em termos de cinematografia, prioriza acima de tudo planos em aberto, que são a escolha predileta quando se trata das cenas de maior adrenalina e ação.

No entanto a qualidade dos adereços e dos cenários, particularmente quando se fala das cidades replicadas no filme, repetem o que já foi visto inúmeras vezes. Sendo um aspecto que ficou de lado da renovação, que falei anteriormente. Várias cenas remetem para sequências tradicionais, desde o assalto de um comboio em andamento ao duelos frente-a-frente das quick-draws. Mas que estão inseridas na era cinematográfica que vivemos, com cortes e edição entre cenas bem vincadas, que permite fazer muito mais, do que aquilo que outrora possível, ou pouco consensual no género. De forma oposta, isto pode contribuir para separar o espetador da imersão de The Harder They Fall (2021), mas grande parte do público não irá estranhar.

O Western está de volta com uma grande produção através da Netflix. O que por um lado é bom, permitindo fácil acessibilidade ao género, por outro lado, a experiência na sala de cinema teria aumentado a minha consideração pelo filme, devido à qualidade técnica presente. Seja como for, é talvez a produção do género que mais facilmente consigo recomendar a qualquer um. The Harder They Fall (2021) é por isso o melhor dos dois mundos, do clássico com o moderno, que aliados irão com certeza contribuir para reviver aos poucos um género que já deixa saudades por mais.

Positivo:

  • Atuações de Idris Elba e Jonathan Majors destacam-se;
  • Inclusão de um elenco totalmente afroamericano;
  • Um Western moderno que se consegue colocar ao lado dos clássicos;
  • Sonoplastia e banda sonora;
  • Cinematografia com destaque para a edição em planos abertos;
  • De fácil recomendação para todo o tipo de públicos;

Negativo:

  • Nat e Buck contracenam por breves momentos;
  • Composição e qualidade de alguns dos cenários não é a melhor em algumas ocasiões;

João Luzio
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