Análise – Star Wars: Visions

Quando Star Wars foi concebido, George Lucas confessou várias vezes, que uma influência estrutural do clássico de 1977, adveio do seu amor pelo cinema japonês, em particular o de Akira Kurosawa. Obras incontornáveis como Seven Samurai (1954) e The Hidden Fortress (1958)  são claros exemplos dessa influência imbuída no universo de Star Wars. Agora, o mesmo trilho criativo é traçado uma vez mais, ao incorporar o maior domínio de ficção científica do cinema, com a distinta arte de animação japonesa, mais conhecida como anime.

Star Wars: Visions é uma série desenvolvida por seis estúdios de animação japonesa, como Twin EngineStudio Trigger, Science SARU, Kinema Citrus, Kamikaze Douga e Production I. G. É estruturada em formato de antologia, totalizando nove curtas-metragens, que estão disponíveis exclusivamente no Disney Plus. Desde já admito que não são o maior entendedor no que toca ao mundo do anime, muito longe de o ser, mas por outro lado, sou um grande conhecedor do vasto universo que é Star Wars. Com isto em mente, a análise foi feita, por isso, sob a ótica de um fã desta saga, e não tanto da animação japonesa.

Cada episódio ou curta de animação tem o seu próprio estilo artístico visual e respetiva história. Sendo que não há propriamente qualquer tipo de conexão destas várias narrativas com a linha principal dos filmes e derivados canónicos. Ainda que se possam localizar antes, durante ou após algum dos episódios cinematográficos, dando embasamento para aquilo que irá ser abordado. Mas não chega a ser algo destoante, até porque Star Wars sempre foi conhecido pelo seu carácter multifacetado, adaptando-se facilmente a todo o tipo de medias, portanto, a abordagem em anime é só mais um entre tantos.

Além disso, outro grande fator a realçar, é que foi dada total carta branca, para serem criadas as tais histórias únicas e completamente originais, sem necessidade de ficarem presas criativamente, às raízes de um lore com mais de 40 anos. Apesar de muitos dos seus aspetos serem aproveitados, desde os Jedi, os Sith, a Força, os Lightsabers até às mais diversas localizações, veículos e até personagens como Boba Fett. No fundo, Star Wars: Visions é exatamente aquilo que foi Animatrix (2003), no seu tempo, para a franquia de The Matrix (1999).

Devido à modesta longevidade e quantidade de episódios não irei entrar em muitos detalhes quanto às histórias que os episódios abordam, para não estragar surpresas. Mas refiro que, uns vão buscar o lado clássico das obras de Samurais, mostrando perspetivas não tão presentes nos filmes; outros focam-se na pura experiência audiovisual, ao invés da narrativa; e alguns pegam numa personagem e contam uma pequena fatia da sua vida, de uma forma bastante interessante. Diria que em média, claramente, há uma atenção para a dualidade/dicotomia entre Jedi e Sith, e tudo o que a escolha de um desses lados antagónicas da Força, acarreta.

Fiquei surpreendido com esta decisão pela positiva. Pois evidencia um ponto de vista novo e refrescante, que por vezes, devido à interpelação da família Skywalker nos filmes, não permite que tal seja explorado a fundo. Até do ponto de vista de géneros temáticos, os episódios são entre si muitos heterogêneos: uns emanam um sentimento de alegria, quase comédia diria, outros mais tensos e dramáticos, e até outros que, nitidamente quem os fez, devia ter Yojimbo (1961) ou Ghost In The Shell (1995) como um dos seus filmes favoritos.

Individualmente, adorei The Duel (1º episódio) e The Twins (3º episódio), sendo os meus favoritos. Apreciei aquilo que foi feito em The Ninth Jedi (5º episódio), The Elder (7º episódio) e Lop & Ocho (8º episódio). Contudo, achei o Tatoonie Rhapsody  (2º episódio) e T0-B1 (6º episódio) os mais fracos dos nove episódios. Ainda assim, enquanto conjunto de curtas que podem ser consumidas em conjunto, num par de poucas horas, entregam tudo aquilo que se propuseram a fazer e muito mais, de forma inovadora e inigualável na série.

As personagens principais, excluindo os cameos ocasionais, foram criadas apenas para a série. E mesmo que sejam incluídas num único episódio, muitas delas, deixam um grande impacto. Em poucos minutos consegue-se perceber o estado de espírito e aquilo que as move, sem grande necessidade de recorrer a diálogos de exposição. Acredito que com o tempo, com o muito provável, embalo de mais episódios no futuro (é já uma questão de ‘quando’, e não de ‘e se’), possam retornar novamente. Seja como for, resta então as proeminentes questões técnicas.

E como os próprios trailers e trabalhos promocionais fizeram questão de reforçar: a animação é de extrema qualidade. É um verdadeiro espetáculo visual, um regalo para os olhos. Claro, como referi no começo, não estou familiarizado com o mundo dos animes, mas acredito que houve aqui um esforço para elevar a fasquia de qualidade no meio. Muitas das vezes não é si, aquilo que está em foco no ecrã, como a fotografia no sentido cinematográfico, mas sim a dinâmica (transição) entre cenas e movimentação das personagens e objetos em tela.

Fiquei completamente rendido àquilo que estes seis estúdios fizeram, ainda que, nem todos os episódios me tenham deixado o mesmo grau de impacto, quer no sentido geral, quer só por si na animação. Ao nível sonoro, o mesmo caso se verifica. É outro aspeto bem conseguido, com muitas variações à mistura, até de estilos que jamais imaginaria serem colocado lado a lado com Star Wars, mas que aqui fluem com toda a naturalidade.

Mesmo que nada supere a genialidade artística de John Williams, a musicalidade e sonoridade de Star Wars: Visions está muito bem inserida, como disse, neste novo campo que é a animação japonesa. Por isso, nada melhor do que aqui, para usar e abusar de elementos novos. Por último quanto à dobragem, também fiquei satisfeito com o que foi entregue, pelo menos na versão em japonês.

Star Wars sempre foi rico em histórias, personagens e detalhes, desde The Mandalorian a The Clone Wars, que tem mostrado o poder que mentes criativas têm ao trabalhar em sintonia. Esta série, não é exceção a esta afirmação, é possivelmente, a produção que mais tomou riscos até ao momento! Caso sejam fãs casuais ou harcore de Star Wars há de tudo um pouco para apreciar e reter. Para os fãs de anime, não consigo dizer o mesmo com tanta segurança, mas acredito que sejam capazes de ficar surpreendidos com alguns episódios.

Star Wars: Visions é sem dúvida uma experiência obrigatória, seja qual for a vossa relação ou ponto de partida na franquia. É tudo aquilo que este universo precisava para se reinventar novamente, desde há muito tempo, e nada melhor do que a  animação japonesa como porta de entrada, para impulsionar esta decisão.

Positivo:

  • História dos episódios;
  • Qualidade da animação;
  • Visualmente incrível e detalhado;
  • Aproveita vários elementos icónicos de Star Wars;
  • Recheado de paixão e originalidade;
  • Grande homenagem ao universo nipónico e a Akira Kurosawa;

Negativo:

  • Nem todos os episódios entregam o mesmo nível de qualidade ou impacto;

João Luzio
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