Análise – Sonic The Hedgehog 2

Já lá vão dois anos desde que estreou a primeira versão cinematográfica live-action de Sonic The Hedgehog (2020). Graças ao sucesso comercial e aos elogios do público tornou possível a ideia de se fazer uma sequela. Se na altura foi considerado uma das melhores adaptações de um videojogo para o grande ecrã, agora Jeff F0wler o realizador, eleva a fasquia e estabelece, muito provavelmente, esta continuação como a melhor entre as demais.

É realmente um feito após as polémicas em torno do visual da personagem e o longo historial de más adaptações que, por fim, haja luz ao final do túnel. Sonic The Hedgehog 2 (2022) pega em tudo aquilo que resultou no primeiro filme e adiciona-lhe o lore dos jogos tão desejado pelos fãs do ouriço. Desenvolve uma história em torno de temas como a amizade e responsabilidade, seguindo um pouco os moldes de antes.

O gancho da cena pós-créditos do antecessor apresentou Miles Tails Prower (Colleen O’Shaughnessey), uma raposa antropomórfica com duas caudas e bastante habilidosa com tecnologias. Terá de unir forças com Sonic (Ben Schwartz) para travar, novamente, o maléfico Dr. Robotnik (Jim Carrey), que havia sido derrotado na longa metragem de há dois anos. Este logo após escapar de um planeta infestado com cogumelos depara-se com Knuckles (Idris Elba), um poderoso guerreiro da tribo das Echidnas, que almeja recuperar a impressionante Master Emerald.

Pois quem a possuir terá nas suas mãos um poder ilimitado, moldado à base da vontade do portador. Assim rapidamente formam uma dupla que não durará muito tempo como se sabe. Ao contrário do anterior que era um road trip movie aqui é mais à base de uma corrida contra o tempo, servindo as personagens humanas à volta de Tom Wachowski (James Marsden) como um dos principais núcleos de alívio cómico.

É uma premissa simples, é verdade. Mas no fundo sempre foi isso que marcou a era clássica (1991-1994) dos quatro jogos principais do ouriço azul, sendo esses o mais direto ao ponto possível em termos de história. O importante acaba por ficar a cargo daquilo que todos queriam ver: Sonic, Tails, Knuckles e Dr. Eggman, a interagirem entre si. A parte das outras personagens secundárias humanas já lá irei. E isso é entregue, com uma execução estrondosa, que me fez arrepiar, por exemplo, em alguns momentos chave do último terço do filme.

Em termos de atuação Jim Carrey acaba por ter de repartir mais do seu tempo de antena com Tails e Knuckles. Ainda assim houve uma melhoria significativa na sua caracterização, que agora sim se aproxima mais com os jogos, tanto ao nível de maneirismos até à própria estética. Por outro lado, foi em Sonic que perdi um pouco do interesse, não por alguma razão em particular, mas por estar tão investido nas outras personagens, que ironicamente, me fizeram desviar a atenção do protagonista.

Já os infames humanos secundários continuam a baralhar um guião demasiado dependente em clichés e no humor inoportuno. Bem sei que a personagem de Tom foi e é importante para o arco de Sonic desde o início. Contudo, por alguma razão, a produção ainda que tenha reduzido a presença, decidiu manter substancialmente a narrativa paralela humana, a do casamento de Rachel (Natasha Rothwell) irmã de Maddie Wachowski (Tika Sumpter).

Este e outro segmento na metade do filme repetem o mesmo erro do primeiro, dando espaço a algo que nada se relaciona ao lore do ouriço azul, querendo apenas agradar a uma fatia do público casual, com um humor dispensável. Por muito que seja um filme que tem como alvo um público mais novo, a verdade é que há vários momentos bastante infantis que mancham o panorama geral da experiência. Se isto fosse cortado, muito provavelmente estaria aqui a falar de uma obra bastante ideal para todos, mas infelizmente, não é o caso.

Por outro lado quando o humor e situações caricatas são bem utilizadas, resultam em alguns dos melhores momentos, refiro-me à forma como Fowler aproveitou a ingenuidade de Knuckles num mundo moderno. Foi uma das grandes surpresas. Por mais que o tenham usado de forma unidimensional, este tem o seu propósito na história. O que fica mesmo em falta são as referências. Sim, elas estão cá, e são em muito maior número que o primeiro, é verdade. Na minha análise há dois anos tinha apontado que a identidade musical ficou de lado e aqui repetem a dose.

Sonic The Hedgehog tem um reportório rico e vasto em músicas, jingles e todo o tipo de sons, mas infelizmente não é desta que Fowler opta por usar e abusar deles. Mas é na identidade visual que sobe a fasquia, ao não ter medo de mostrar e explorar aquilo que é a história de Sonic que se conhece dos jogos, sobretudo, na forma como o trio principal fala e age durante todo o filme. Outros problemas no filme surgem ao nível técnico.

A maneira como as cenas são cortadas, sem grande encadeamento, e por vezes, até de forma abrupta, revela que certos hábitos que marcaram este tipo de produções no passado continuam a assombrar no presente. A edição sofre mesmo muito e se juntarmos a isto uma a abordagem de realização banal, tinha tudo para dar errado. Felizmente, as personagens e o valor de entretenimento do filme fazem-me fechar um pouco os olhos a isto, no entanto, acaba por ser demasiado notório, revelando alguma inexperiência de Fowler.

O CGI juntamente com as cenas de ação e as batalhas é do melhor que se podia pedir, sendo tudo aquilo que os fãs almejavam ver no grande ecrã, especialmente a rivalidade entre o protagonista e Knuckles. Em contrapartida, o ritmo é bastante díspar. Alguns dos segmentos que envolvem as personagens são colocadas de tal forma concentrada, ao ponto do filme se desviar por completo do seu propósito. Estas razões são as que me fazem ficar de pé atrás com Sonic The Hedgehog 2 (2022), pois tudo aquilo que diz respeito aos jogos é bem feito e vê-se que houve dedicação e empenho em perceber aquilo que eram e são os jogos da personagem.

Há aventura, há comédia, há ação e também muito respeito a tudo aquilo que é e representa Sonic na cultura pop e no mundo dos videojogos atualmente. É até irónico ver que a personagem está a ser mais bem tratada aqui do que na sua contraparte dos jogos desde a última metade da década passada. O patamar aqui alcançado será uma referência positiva para tudo aquilo que produtores e estúdios irão olhar, quando pensarem em fazer uma nova adaptação baseada num qualquer universo dos jogos.

Se até aqui não ficou claro, Sonic The Hedgehog 2 (2022) é pois, a melhor adaptação de um jogo que já passou pelo cinema, e como se não bastasse, se tudo continuar neste trilho, as seguintes continuações irão ser ainda melhores. Prova irrefutável que ouvir os fãs e o público dará sempre mais frutos do que a visão hollywoodiana mastigada que, certamente, tem os dias contados  na indústria e no futuro das próximas adaptações.

Positivo:

  • História;
  • Melhor adaptação de um videojogo ao grande ecrã;
  • Cenas de ação e batalhas visualmente incríveis;
  • Jim Carrey continua a surpreender enquanto Dr. Eggman;
  • Tails e Knuckles bem desenvolvidos;
  • Cena pós-créditos;
  • Repleto de referências;
  • Experiência obrigatória para os fãs…

Negativo:

  • …mas para quem não o é, não valerá muito a pena;
  • Falha em não apostar na banda sonora dos jogos;
  • A edição e o ritmo da narrativa;
  • Humor em alguns momentos volta a ser excessivamente infantil;
  • Personagens humanas têm demasiado tempo de antena;

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