Análise – Luca

Continuando o mesmo rumo criativo, encabeçado por Onward e seguido do êxito de Soul, chega a aventura inusitada, de dois jovens, na Riviera italiana. Luca, enquanto produção, é a continuidade daquilo que está a ser uma nova fase para a Pixar: da criação de obras autorais, ao mesmo tempo, que se aposta numa via cinematográfica experimental e até condizente com a origem do estúdio. O filme em questão marca a estreia de Enrico Casarosa, que após estar envolvido no processo artístico de Ratatouille (2007) e Up (2009), e ter elaborado uma curta de nome La Luna (2011), agora passa ao lugar de diretor, de uma longa metragem.

Tendo em conta que inúmeros filmes da Pixar partem de uma premissa pessoal do diretor(a), não é de estranhar que, Luca não seja exceção. Pois mistura memórias de infância de Casarosa, com elementos repletos de fantasia, aventura e emoções. O que acaba por resultar numa jornada bastante interessante, e em última instância, num dos filmes mais peculiares do estúdio, sendo também dos mais curtos e diferentes em termos artísticos. Antes de aprofundar, vale a pena referir que o filme se encontra totalmente gratuito no Disney Plus, sem qualquer tipo de custo adicional (ao contrário de outros recentes) e ainda chegará, futuramente, às salas de cinema.

Considerando a origem do diretor, os valores da cultura italiana acabam por se enraizar no vasto leque de ingredientes de Luca. Indo desde as faixas instrumentais, à própria fonética da língua, até às referências visuais. Estas últimas acabam por se basear, em grande medida, e como referi antes, na Riviera Italiana, por volta dos anos 50. De facto, Luca encaixa-se muito bem enquanto filme de verão, a própria estética contribui para enriquecer a cinematografia e aliar-se a uma palete de cores vibrantes, mergulhadas num ambiente vivo e sereno.

Tal como aponta o nome do filme, o foco recaí na personagem de Luca (Jacob Tremblay), um jovem curioso e inquieto, que apesar da vontade para explorar, se vê cativo, sob a autoridade dos seus pais. Esta educação rígida desperta no protagonista uma vontade incessante para descobrir acerca daquilo, que se encontra para lá do seu lar. Resultado disto, Luca foge e escapa para o dito mundo proibido, e visto como perigoso pelos seus tutores. Lá, descobre em Alberto Scorfano (Jack Dylan Grazer), um companheiro de aventura, mas sobretudo um amigo. Juntos planeiam almejar um grande prémio, proveniente do ganho da competição de Portorosso Cup, que lhes permitirá sair da comodidade e calmaria daquela humilde cidade.

E qual é o prémio ao certo? Uma modesta lambreta. Isto porque, segundo o próprio Alberto, esta tornará possível aos dois rapazes desprender-se e libertarem-se daquele lugar, rumo a um novo horizonte pelo mundo fora. Embora para Luca, o seu amigo se torne um modelo de exemplo a seguir (role model), sendo mais confiante e destemido, e até com conhecimento daquilo que ele entende por este “novo mundo”, a verdade é que o próprio Alberto desconhece as verdadeiras nuances entre o que parece e o que é. Este ponto faz que com aquilo que acompanhamos por parte de ambos, seja igualmente uma jornada de aprendizagem, e principalmente, de crescimento, daí que o filme recaia em algumas temáticas de uma história coming of age.

Sendo um filme da Pixar, naturalmente, que existe aquela camada extra, que funciona como o twist da narrativa, sendo neste caso, o facto de tanto Luca, como Alberto, se poderem transformar numa criatura marinha (indo ao encontro do folklore da região da Riviera), quando entram em contacto com água. Podendo, como muito se especulava antes do filme estrear, e se confirmou, ser uma espécie de metáfora, para o crescimento pessoal e da própria fase da adolescência. Tornando-se assim, imperativo aos dois rapazes esconder a sua verdadeira identidade dos seres humanos, ao mesmo tempo que tentam vencer uma competição, aliados a uma rapariga, dinâmica e independente, de nome Giulia (Emma Berman), de forma a conseguir a tal gloriosa lambreta.

Como se esta questão já não fosse suficiente, Luca terá ainda de escapar da fúria dos seus pais que o procuram incansavelmente e ainda de um trio de rapazes, antagonistas do filme, que o afrontam e põem em causa, a possibilidade de vencer o concurso. Ainda assim, o filme consegue ser bastante previsível, em certas partes até demasiado simples, e em alguns momentos anti climático, todavia devo dizer, que na verdade, o foco não está per si na narrativa. Mas sim, na jornada até se chegar ao tão desejado macguffin, um pouco nos mesmos moldes da estrutura de Onward, mas aqui aprimorado. A grande temática acaba sempre por estar envolvida na amizade entre Luca e Alberto, sendo esse até um dos pontos mais forte da direção de Enrico Casarosa.

Sendo resultado disto, o notável pico emocional que a obra alcança perto do final do segundo acto, fruto da relação e do crescimento das personagens, ao longo da sua estadia na pacata cidade italiana. Ainda que, este aspecto se perda nas pequenas situações que o grupo enfrenta, está sempre presente, de uma forma ou de outra, em ações, linguagem não verbal e em pequenos gestos. Na ocasião, perto da última fatia do filme, em que o argumento se volta em torno da resolução e clímax da história, é que Casarosa aposta em trazer para cima da mesa, alguns tópicos que o público acharia estranho há uns anos atrás, mas que agora, são mais do que expectáveis e até condizentes com a lição moral que a obra, quer passar ao público.

Fora o teor emocional que referi, há ainda muito espaço para um humor, embora não intrusivo, que se encaixa muito bem no tom do filme, sendo as personagens secundárias quem mais saem a ganhar com esta adição. Outra questão que salta à vista, e que incomodou algumas pessoas quando o trailer saiu, foi o visual um tanto distante e até infantiloide daquilo que a Pixar nos tem habituado. Mesmo tendo sido uma dessas pessoas, devo dizer que ao longo do filme, adorei o traço exagerado das personagens, que acaba também por realçar a personalidade destas últimas.

Mesmo com todos os rasgados elogios que fiz até aqui, a principal crítica que tenho apontar é mesmo por ser uma experiência previsível, embora interessante, que caí em vários clichês e temáticas, que se vê desde que o cinema é cinema. Contudo, e apesar de ter dito o que disse antes, Luca vai também buscar inspiração, a algo que nunca é demais ver, nomeadamente, ao Studio Ghibli e aos trabalhos de Miayazaki. O que é sempre positivo constatar esta sinergia de influências, entre empresas da mesma indústria, até porque Casarosa, é um fã assumido das produções deste artista.

Como referi no início, a ambientação é impecável e é quase ela própria uma personagem no filme, de tão cuidada e bem trabalhada que está. Chega até a comunicar com o espectador, pela forma como mistura os sons, as cores e a ação em tela, tudo ao mesmo tempo, de uma forma fluida e natural. Mesmo assim não chega a ser algo revolucionário para a indústria, nem mesmo para o padrão do estúdio em causa. Apenas algo que chama a atenção e até, em alguns momentos ocasionais, prende o espectador.

Luca encaixa-se, perfeitamente, naquilo que é um filme de verão, sendo ideal para a ocasião, e até transparecendo alguma nostalgia da infância de muitos de nós, de uma época já saudosa e distante. O desenvolvimento em torno da temática da amizade, apesar de credível, tem uma carga de fantasia certeira, que faz o filme ter um brilho extra, tornando-o como é natural, num filme da Pixar. Embora não sendo revolucionário ou pioneiro, naquilo que entrega, é uma experiência totalmente recomendável, para toda a família e para qualquer fã do estúdio, e que irá deixar, com certeza, um impacto positivo e recompensante no espectador.

Positivo:

  • Amizade no epicentro da história;
  • Ambientação, cenários e palete de cores;
  • Riviera Italiana é uma cidade viva;
  • Mensagem emocional;
  • Ligação entre Luca e Alberto;
  • Cultura italiana devidamente representada;
  • Direção de Enrico Casarosa adequada para um filme da Pixar

Negativo:

  • …ainda assim o enredo é bastante previsível e sem grandes surpresas;
  • Alguns clichês redundantes e demasiado batidos no género de animação.

João Luzio
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