Análise – Last Night In Soho

Tal como aconteceu com Ridley Scott com The Last Duel, outro realizador colossal regressa este ano, depois de uma ausência de  quatro anos. Refiro-me a Edgar Wright, conhecido pela adaptação cinematográfica de Scott Pilgrim Vs. The World (2010) e pela trilogia de comédia britânica composta por Shaun Of Dead (2004), Hot Fuzz (2007) e The World’s End (2013). Só que desta vez enverga como estreante num subgénero diferente do seu histórico habitual, o de horror psicológico, através de Last Night In Soho (2021).

De facto, quando foi anunciado apanhou-me de surpresa e também quem acompanha de perto o trabalho deste cineasta britânico, tornando-se por isso, num dos filmes que mais aguardava de 2021. Mas de que se trata o filme ao certo? Eloise Turner (Thomasin McKenzie), uma jovem com a ambição de se tornar numa designer na área da moda, opta por sair da sua pacata cidade rural e morar no caótico centro de Londres, de maneira a puder estudar numa faculdade prestigiada.

Cansada dos problemas e complicações de integração naquela nova vida, Eloise muda-se para outra residência, cuja dona é Ms. Collins (Diana Rigg). Ao longo das noites, a protagonista é transportada para uma visão, quase onírica, de outra personagem, em Londres nos anos de 1960. Onde Sandie (Anya Taylor-Joy), a tal personagem, tenta a sua sorte enquanto potencial cantora num clube luxuoso. A partir daqui a vida de Eloise toma contornos inesperados, sendo atormentada por estas visões do passado, da vida de Sandie.

Tudo aquilo que foi visto ao longo daquela noite, levará a protagonista a desvendar toda uma história fatídica e aterrorizante. A partir daqui cria-se o ponto de rutura predominante na narrativa, onde ambos os pontos de vista se cruzam, inevitavelmente, naquele dado momento. O que à partida parece uma viagem inocente pela ótica de Sandie, rapidamente se transforma em algo pesado, a qual Eloise é obrigada a presenciar e por vezes até sentir na pele o mesmo que a jovem cantora. Montando-se assim o clima indispensável para um verdadeiro thriller recheado de surpresas, drama e revelações.

As duas personagens femininas principais acabam por ser um oposto em atitudes, uma da outra. Já que Eloise se deixa influenciar e consumir pela imagem confiante de Sandie, ao mesmo tempo que esta última parece ter algum vínculo, mesmo que desconhecido por ela e e pelo espetador, pela designer. São atrizes com uma presença impactante, em especial, Anya Taylor-Joy que com poucas palavras, consegue transmitir tanta personalidade em cena. Ao ponto de todas as atenções se voltarem para si, cada vez que contracena com o resto do elenco.

Houve muita preparação envolvida por parte de Anya, não apenas ao nível de entender as nuances da época, mas por se estrear com uma canção original. Sendo esta colocada de forma pertinente enquanto leitmotif, em múltiplos momentos chave na história. Já os outros atores veteranos adequam-se ao papel, mas sem grande notoriedade, quer Matt Smith (eterno Dr. Who), enquanto interesse amoroso de Sandie, quer Diana Rigg (Bond girl em On Her Majesty’s Secret Service (1969)), ainda que consiga entregar uma atuação impressionante quando é necessário da sua personagem. Sendo Last Night In Soho (2021) uma homenagem, e igual despedida da carreira de atriz, levando em conta a sua morte no ano passado.

Os elementos que mais saltam à vista são a apresentação e ambientação. Embora nos momentos em que a narrativa se situa no presente, não exista particularmente nada de marcante a apontar, é pois, quando mergulha nos célebres anos 60, que o caso se inverte. A iluminação na cidade londrina emerge toda uma estética de época muito fidedigna, sendo aliada à tonalidade vibrante da palete de cores e à fotografia sublime. É realmente um completo regalo para os olhos. Igualmente no interior do clube, onde ocorre a maioria do suspense psicológico, a utilização dos planos de câmara evocam todo um conjunto de obras clássicas do cinema britânico, deste subgénero em específico.

Deixei de parte a escolha das faixas musicais, sendo igualmente outro acerto de Edgar Wright, que sempre teve um dedo certeiro na construção de uma boa banda sonora. Desde “Got My Mind Set On You” de James Ray, “Don’t Throw Your Love Away” de The Searchers, até “Eloise” de Barry Ryan. Cada uma das faixas encaixa-se na época, como é natural, ao mesmo tempo que se adequa às situações ilustradas. Sem esquecer a composição original, a qual Anya Taylor-Joy deu a voz, “Downtown“, com variações e mixagens distintas consoante o tom leve ou pesado da ocasião.

Por muito que a tentativa de abraçar uma nova temática seja sempre de louvar, em especial quando se fala de Edgar Wright, sinto que o cineasta poderia ter ido mais longe. Há vários momentos que ficam na memória, que realmente fazem temer pelo destino de determinada personagem, mas que devido à previsibilidade de tudo aquilo que será revelado, perde a força. Mesmo dentro do subgénero de horror psicológico, o realizador não consegue destacar Last Night In Soho (2021) dos demais.

Não fui o maior apreciador das decisões criativas tomadas na última parte do filme. Cujas nuances, francamente fazem cair a pico a qualidade geral do filme, depois de duas partes sólidas e bem construídas. Peca também por entregar a resolução mais simples e previsível, colocando de lado a complexa dicotomia que pautava a relação de Sandie e Eloise. Não deixa de ser uma boa experiência no geral. Todavia, uma maior profundidade em relação à parte psicológica teria saído a favor de Last Night In Soho (2021).

Edgar Wright estreante num subgénero totalmente díspar com tudo aquilo que fez na sua carreira, é bem sucedido em criar uma narrativa de suspense bem amarrada, levada às costas por duas atrizes cheias de talento. Ainda que o final acabe por descarrilar uma experiência até então sólida, visto no seu todo, termina com um saldo positivo. Last Night In Soho (2021) embora não se destaque no meio de inúmeras produções de horror psicológico de elevadíssimo reconhecimento, consegue marcar a diferença na filmografia do diretor, como um filme único, que marcará tudo aquilo que o mesmo decidir envergar nos próximos anos.

Positivo:

  • História com um mistério envolvente;
  • Grande homenagem ao horror psicológico do cinema britânico;
  • Presença de Anya Taylor-Joy marca a diferença;
  • Londres dos anos 60s é vibrante e credível;
  • Composição e iluminação das cenas bem executadas;
  • Banda sonora;

Negativo:

  • Desfecho pouco satisfatório e previsível;
  • Maior proveito do subgénero sairia a favor de Last Night In Soho (2021);

João Luzio
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