Análise – The Last Duel

Ridley Scott é já um nome forte no que toca ao ramo cinematográfico, sendo que esta temporada, regressa após uma ausência de quatro anos, com duas produções de peso. Sendo uma delas o presente The Last Duel, uma adaptação baseada num livro de mesmo nome (A True Story Of Trial By Combat In Medieval France) lançado em 2004, de autoria de Eric Jager. Produzido pela Scott Free Productions e distribuído mundialmente pela 20th Century Studios, chega agora às salas de cinema.

Estamos na presença de um realizador bastante flexível que transita muito bem entre géneros e temáticas, desde ficção científica (The Martian), guerra (Black Hawk Down) até ao horror (Alien). Portanto, quando decide mergulhar na época histórica medieval no ano de 1386, não é de estranhar. Efetivamente, The Last Duel é sobretudo uma obra baseada em factos reais, do que propriamente uma ficção. Assim, não podendo fugir à realidade dos factos, Ridley Scott aposta na estrutura do filme como principal ponto de rutura, na forma como este evento é transmitido ao espectador.

Um flashback logo no início do filme coloca-nos no centro do conflito da narrativa. Marguerite de Carrouges (Jodie Corner) acusou Jacques Le Gris (Adam Driver) de um crime grave, que coloca o escudeiro de Pierre d’Alençon (Ben Affleck) num duelo frente-a-frente com Jean de Carrouges (Matt Damon) cônjuge da alegada vítima. Contudo, caso a acusação fosse provada falsa, isto é, se Jean perdesse, culminaria na morte de Marguerite, por difamação contra o bom nome de Le Gris. Uma vez que, aos olhos da época, tal desfecho do duelo seria um sinal da vontade de Deus da revelação da verdade.

Esta é a premissa do filme, que poderá parecer simples à partida, mas que é bastante mais carregada na prática. Claro que quem conhece o desfecho deste fatídico evento histórico, perderá parte da imersão em todo o suspense e tensão que é criado, acerca da verdade ou não da acusação, e também de quem sairá vitorioso no dito último duelo. Assumindo que não, Scott conduz o espectador numa experiência diferente da habitual estrutura hollywoodiana. Aqui, há uma divisão em três partes, em três diferentes pontos de vista, que por outras palavras, se traduz em três verdades distintas, a de Jean, a de Le Gris e a de Marguerite.

Embora os trailers possam ter vendido uma ideia mais voltada para o lado da ação e combate medieval, esse é apenas um elemento que fica na sombra, do drama e intriga. Ainda que quando presente é exibido de modo duro e bárbaro, dando primazia à vertente visceral destas cenas. Elemento este referido, que coloca o papel da mulher e do homem desta época, em causa. De facto, é uma obra particularmente densa do ponto de vista psicológico e social. Cada parte do filme, é também o reflexo de uma posição de uma personagem naquela sociedade, com valores e costumes, evidentemente ultrapassados aos olhos de hoje.

Mas que levantam uma série de perguntas sobre aquilo que é expectável ou não de cada género e de cada camada social, na forma de agir e se comportar. Por muito que a história contada se intersete nos mesmos pontos comuns entre as três perspetivas, na grande maioria, cada uma é única à  sua maneira. Ora dando ênfase em certas asserções, ora questionando a moralidade de tantos outros assuntos. A tal condução de Ridley Scott tem uma posição ativa, ao evidenciar explicitamente, por se tratar de um caso real, qual dos três capítulos corresponde à verdade.

Jacques é atormentado pelas escolhas que tomou ou que tomaram por ele, onde o estatuto, a inveja, a cobiça e os títulos nobres se sobrepõem à moral e aos laços efetivos. Le Gris vê-se consumido pelos seus prazeres mais carnais, que o cegam e lhe fazem ser incapaz de distinguir o certo e do errado. E Marguerite é acorrentada a um sentimento de impotência, onde apenas reage às situações que aparecem à sua frente. Sendo a sua postura somente um reflexo do que lhe era expectável do seu papel na sociedade, tendo ainda uma relação espinhosa com a mãe de Jacques.

O trio de protagonistas conta com um trabalho de excelência por parte dos seus interpretes. Adam Driver, Jodie Comer e Matt Damon brilham imensamente neste filme, com uma atuação digna de estar a par das melhores da sua carreira. Ofuscando substancialmente as outras personagens, sempre que os três contracenam. Ainda assim, é de louvar a fidelidade, sobretudo ao nível de maneirismos e do mais ínfimo detalhe, que o elenco conseguiu adicionar à imersão e apresentação de The Last Duel. Houve também um reforço no que toca aos figurinos e construção de cenários, fruto da experiência acumulada em Gladiator (2000) e The Duelists (1971), sobretudo nos combates corpo-a-corpo.

Embora com uma presença mais reduzida, Ben Affleck está lado a lado ao nível de atuação com os restantes. A sua caracterização foi muito bem feita, sendo um bom contraponto de autoridade com o jovem King Charles VI (Alex Lawther). Por outro lado, quem acaba por não se destacar é o compositor Harry Gregson-Williams, que com uma carreira invejável, entrega uma banda sonora vazia, com uma presença fraca e pouquíssima personalidade. Para um romance épico medieval faltou a tonalidade musical para apimentar os momentos de maior tensão, que aqui acabam por jogar sozinhos, sem o auxílio da sonoplastia, com pouca originalidade ou vontade de aproveitar a época histórica em questão.

A relação íntima entre o trio de protagonistas é fortemente aproveitada. Além de tocar em múltiplos componentes de um clássico romance medieval, acaba por sobressair mais uma experiência pautada por inúmeros paralelismos com situações atuais, que são colocadas em causa no filme. Onde manifestamente a matéria ligada ao crime de natureza sexual tem um maior peso no enredo. Scott faz um trabalho bem intencionado, em colocar o dedo na ferida, sem pudor, apresentando o lado frio e desumano destas circunstâncias e das suas consequências para ambos os lados da história.

Ao nível técnico era tudo aquilo que se esperava de uma produção da tutela de Ridley Scott. O cuidado é impecável em vários pontos. Favorecendo de tal forma os restantes constituintes do filme que isso se sente até no impacto dos diálogos. Cada cena tem imenso para mostrar, tanto no interior dos castelos e fortalezas, às vastas paisagens verdes da flora campal francesa. Mais uma vez sendo a cinematografia quem faz toda a diferença, acima de tudo na iluminação e na composição das cenas. Somando o rigor histórico de como esta época foi adaptada para as grandes telas.

Com o decorrer de The Last Duel há toda uma antecipação criada em torno de qual a resolução do duelo. O público acaba por ser uma testemunha deste combate, com uma tensão elevadíssima em cima da mesa, que deixará qualquer um colado ao ecrã. O final tem uma dimensão avassaladora na experiência do filme, onde toda a verdade é consomada por fim, entregando um sentimento recompensante, ao mesmo tempo que trágico, ao espectador.

Ridley Scott estreia-se este ano com um grande lançamento de mais uma adaptação histórico-literária no grande ecrã. A verdade é absoluta, mas as suas nuances podem depender em grande parte de um ponto de vista enviesado, e é mesmo esse o principal ponto a favor desta experiência. Embora, tudo vá culimar para uma única resolução, é o caminho para lá chegar que realmente importa. The Last Duel é, sem qualquer margem de dúvidas, um filme que deve ser visto e revisto, ficando por isso a minha forte recomendação, para um dos meus prediletos de 2021.

Positivo:

  • Atuações de Adam Driver, Matt Damon e Jodie Comer;
  • Cinematografia e aspetos técnicos;
  • Ambientação da época e rigor histórico;
  • Cenas de ação, embora escassas, são excecionais;
  • Terceiro ato aliado a um forte clímax;
  • Experiência que capta a atenção do início ao fim;
  • O último duelo é magnífico;
  • Estrutura e divisão da história em três partes faz a diferença, mas…

Negativo:

  • …a repetição de certas cenas perde o impacto após o primeiro visionamento;
  • Banda sonora sem grande presença ou personalidade;

João Luzio
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