Análise – Jungle Cruise

Muitos desconhecem que a Disney tem o hábito de criar filmes, em torno de atrações dos seus parques temáticos. Casos como The Haunted Mansion (2003) e Tomorrow Land (2015) até à icónica franquia de Pirates Of The Caribbean (2003), são exemplos disso mesmo. Portanto, não houve qualquer surpresa, quando a atração de Jungle Cruise foi escolhida para se tornar num filme. Embora, o projecto tenha ficado engavetado durante muitos anos, a verdade é que voltou à tona pelas mãos de Jaume Collet-Serra, o director.  Lançado simultaneamente nas salas de cinemas, bem como no Disney Plus, em acesso antecipado, com um valor acrescido.

Uma das coisas que fica mais à vista, é toda a temática em torno da ambientação e apresentação do filme. Indo buscar a um subgénero ávido do mundo do cinema, que tem ficado ausente dos holofotes de Hollywood nas últimas décadas, o de exploração e aventura, no sentido clássico. Aventuras tais como Raiders Of The Lost Ark (1981) ou mais recente The Lost City Of Z (2016), tendo este último servido como base para vários pontos semelhantes na história. Este saudosismo de outrora, sai em benefício do filme, atraindo e agradando sobretudo, quem já tinha saudades deste tipo experiências.

Jungle Cruise inicia-se com um prólogo que rapidamente faz uma síntese da lenda que dá mote a toda a jornada que se antecipa: Por volta da época dos descobrimentos, um grupo de conquistadores espanhóis liderados por Don Aguirre, almejavam a posse de uma árvore mística, Tears Of The Moon, cujas pétalas eram capazes de curar qualquer doença. No entanto, tal árvore levou a que vários dos conquistadores morressem a procurá-la em vão, somente sobreviveu um pequeno grupo e Aguirre.

Devido à recusa de uma tribo em revelar a localização da árvore, este grupo acaba por destruir o local, mas ao fazê-lo são amaldiçoados, ficando incapazes de sair da Amazónia. Dá-se um salto temporal, onde passamos ao presente da história e onde conhecemos o par de protagonistas. Composto por Lily (Emily Blunt), uma jovem estudiosa, que acredita na existência da Tears Of The Moon, que caso seja encontrada poderá ser usada para ajudar o exército britânico na guerra. Mas que sem financiamento se vê incapaz de prosseguir.

Até que pela força do destino, se cruza no caminho de Frank Wolff (Dwayne Johnson), um guia turístico na Amazónia, com práticas de negócio muito questionáveis, mas com conhecimento do local na palma da mão. A sua união pouco usual, juntamente com o irmão da protagonista, MacGregor (Jack Whitehall) resulta na aventura pela busca da Tears Of The Moon. Sem esquecer também, como seria de esperar da Disney, um vilão muito caricato, mas que nos dias que correm acaba por ser mais do mesmo.

De nome, Joachim (Jesse Plemons) um oficial alemão, cujas ambições pessoais o levam a querer ter na sua posse as pétalas da árvore lendária. Já que falei nele, devo dizer que, apesar do ator que interpreta a personagem, fazer um bom trabalho em trazer os maneirismos de um típico vilão de Indiana Jones, a verdade é que esse molde está muito envelhecido atualmente. Acaba por ser uma personagem que em cena consegue passar o necessário, mas bastante oco.

Voltando à história, e como já deu para perceber, há aqui inúmeras parecenças tanto ao primeiro, como ao quarto filme de Pirates Of The Caribbean. E isto está presente em grande parte da atmosfera que o director pretende recriar, quem for fã deste tipo de ambiente, estará mais que em casa com Jungle Cruise. É uma aventura à moda clássica do cinema, com bastante exploração e recheada de peripécias em terras selvagens. A própria iluminação e construção de cenários favorece a imersão do espectador naquela floresta tropical, ainda que os efeitos especiais, nomeadamente CGI consiga ter uns momentos bastante uncanny valley, sobretudo com um certo animal felino que aparece em vários momentos.

Uma vez que Tears Of The Moon acaba por ser o macguffin da história, é natural, que resultem em cenas de perseguição, seja com os mais variados veículos, ou de reviravoltas entre as personagens. No entanto, o coração do filme não é em si a aventura e as externalidades do enredo (no sentido lato) mas sobretudo, nas personagens e na sua relação. Emily Blunt  é uma atriz muito competente, que ao se juntar com o carisma inegável de Dwayne Johson, resulta em vários momentos bem humorados, que dão um tom mais pitoresco à história.

É também uma surpreendente constatação ver que Emily Blunt se consegue adaptar muito bem à leviandade do enredo, uma vez que tem aceitado nos últimos tempos, papéis mais dramáticos (Sicario (20015) ou A Quiet Place (2018)), mas aqui tem uma interpretação natural para aquilo que lhe é pedido. Bem como o restante elenco, que entrega o necessário àquilo que as suas personagens pedem, em particular, as secundárias.

Antes de ir ao encontro de um dos aspectos que mais me fascinou, tenho de trazer à baila um negativo, a edição e transição entre cenas. Pessoalmente, não sou grande apreciador de cortes bruscos, de forma sucessiva, o chamado fast cutting, que tanto Michael Bay apregoou. Aqui não é tão gritante como acontece com este último director, todavia, a sua presença é palpável. Por vezes, até me distraí do que realmente importava em cena, devido à forma rápida como os planos transitavam entre si. Contudo, reconheço que pode não incomodar a todos os espectadores.

Agora sim, tocando num elemento que me apanhou desprevenido pela positiva, que foi a banda sonora. Se antes referi que certos componentes evocavam uma era já saudosa dos filmes clássicos de aventura, então a banda sonora mergulha-nos de cabeça, por completo, neste período. Mais uma vez Indiana Jones serviu, igualmente, como inspiração, e isso deve-se à musicalidade tão característica de John Williams, ou até outros similares como Harry Gregson-Williams, que transmite uma sonoridade tão viva e divertida.

Preenchendo a ausência de longas-metragens de aventura de outrora, Jungle Cruise consegue ser bem sucedido em emular este subgénero, já nostálgico para muitos. Em todo o caso, a sua essência acaba por ser uma história nos moldes da atual Disney, não obstante, a atuação, banda sonora e a panóplia de referências patentes a outras obras, contribuem para ser um filme frutífero.

Ainda que a Disney o tenha transformado num sucessor de espiritual e híbrido de Pirates Of The Caribbean com Indiana Jones, não creio que se vá tornar numa franquia tão numerosa ou lucrativa quanto estes dois, contudo, avaliando somente com o que aqui temos, foi um resultado acertado e bem conseguido.

Positivo:

  • História divertida que entretêm;
  • Banda sonora;
  • Ambientação;
  • Química entre Dwayne Johnson e Emily Blunt;
  • Boa homenagem à era clássica de filmes de aventura;

Negativo:

  • Vilão superficial;
  • Estilo de edição e corte entre cenas;
  • Efeitos especiais em algumas situações podiam ser melhorados;

João Luzio
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